A falta de memória arquitetônica das grandes cidades

Faz tempo que não dedico à seção de Arquitetura um post digno de sua importância. Não se trata de menosprezo, pelo contrário. Mas, às vezes, no turbilhão de assuntos que aparecem todos os dias, fica difícil tratar de alguns temas aqui no blog.

Hoje, penintenciando-me do involuntário esquecimento, vou tocar em um ponto tão relevante quanto esquecido: a memória arquitetônica das grandes cidades.

Como se sabe, mais do que a arte de erguer prédios e monumentos, a arquitetura representa um retrato de uma época. Em alguns casos, representa até mais do que isso: a própria personalidade da civilização que construiu os edifícios. Os exemplos são vários: a Grécia antiga, a Roma dos Césares, o Egito. Se os costumes e os modos que faziam de cada uma dessas civilizações uma entidade única na Antigüidade se perderam no tempo, as coisas por elas construídas sobreviveram até os nossos dias. E, com base nelas, é possível dizer um pouco sobre cada um desses grandes povos do passado.

O Foro Imperial, no centro de Roma, por exemplo, permite imaginar como seria perambular pelas ruelas daquela que foi a grande cidade do mundo por quase um milênio. Além disso, suas construções permitem deduzir a estrutura da sociedade romana e até hábitos daquela época, como ir ao Coliseu para assistir a espetáculos formidáveis.

Da mesma forma, ninguém pode falar do Egito sem lembrar das magníficas pirâmides. Com base nelas, é possível inferir que os faraós eram verdadeiramente tratados como deuses terrenos, pois erigiram as mais fantásticas construções do tempo antigo para servir de descanso eterno para seus reis.

Isso pode parecer um tanto antiquado, mas basta olhar ao redor do mundo algumas grandes capitais para ver que a memória arquitetônica é parte primordial da beleza que encanta turistas do mundo inteiro.

Paris é o caso clássico. Com suas largas avenidas e prédios imponentes, Paris é o retrato perfeito do respeito à memória de uma época. Embora diferentes, os prédios em geral obecedem ao mesmo padrão de construção, inclusive e principalmente quanto à altura.

Mas existem também exemplos bem mais, digamos, “frugais”. Veja-se Miami. Há um bairro inteiro que representa a arquitetura dos anos 20-30, o tão conhecido Art Déco. Da mesma linha, alguns prédios de Nova Iorque – como o da sede da Chrysler – sobrevivem até hoje como espelho de um tempo em que as formas geométricas não descuravam do refinado requinte que se exigia de quem pretendia passar a impressão, a um só tempo, de imponência e elegância.

Infelizmente, na maioria das cidades brasileiras, a memória arquitetônica não passa de conceito esquecido, uma esquisitice de gente saudosista, old fashioned. Ninguém fala dela senão como uma excentricidade de quem “não quer se render à modernidade”. Porque progresso mesmo é derrubar o velho e erguer algo novo no lugar, como se as construções de uma cidade obedecessem à letra de uma música de Belchior.

Pouca gente se dá conta, mas quando um prédio antigo é derrubado, não são só os tijolos que caem; com eles, vai parte da representação de um estilo de vida e da personalidade de uma cidade em uma determinada época. Sem a conservação dos edifícios, a memória de um povo vai sendo apagada pouco a pouco, restando aos curiosos o consolo de se socorrerem das fotos velhas e em preto e branco para conhecer um pouco mais do que já foi a sua cidade.

As cidades brasileiras começarão a ser lugares menos hostis e mais civilizados no dia em que assumir um prefeito se perguntando: “Como um povo sem passado pode construir o seu futuro?”

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