A entressafra na seleção brasileira de futebol

Há algum tempo, a seleção brasileira de futebol – sempre decantada como a melhor do mundo – deixou de despertar atenção do torcedor. A olhos vistos, o time cai pelas tabelas, não conseguindo ganhar de nenhum cachorro grande do futebol mundial. Pior. Sem conseguir apresentar um padrão mínimo de qualidade e técnica que justificasse o lindo histórico da “amarelinha”. Não à toa, despencamos do primeiro lugar do ranking da Fifa – onde estivemos por não sei quantos anos – para o décimo quarto.

A pergunta que todo mundo se faz é: o que está acontecendo com a seleção brasileira de futebol?

Bom, as explicações são várias, algumas até já foram objeto de análise aqui no blog. Mas um dos fatores decisivos para a decadência da seleção nacional é sazonal: atravessamos uma grave entressafra de craques.

Desde sempre, as grandes seleções brasileiras traziam jogadores já com alguma estrada e incorporavam ao elenco novatos promissores. A estes, competia apenas fazer o seu jogo, mas sem carregar o encargo de “resolver” todos os problemas do time. Essa tarefa ficava para os mais tarimbados.

Em 1958, conseguíamos reunir um time com craques com alguma idade e jovens revelações como Pelé e Garrincha. Pelé e Garrincha destruíram os adversários, mas não custa lembrar que quem foi buscar a bola no fundo do gol quando a Suécia abriu o placar na final da Copa não foi nenhum dos dois. Foi Didi. Segundo a lenda, depois de buscar a bola, Didi chamou um a um os jogadores e disparou: “Quem é que esses gringos pensam que são pra fazer gol na gente? Vamos partir pra cima deles pra virar esse jogo!”

A calma e a experiência de Didi foram fundamentais para ajudar os mais jovens a atravessar a pressão do placar contrário e não só virar o jogo, mas abrir uma goleada de 5 x 2.

Em 1962, tivemos fundamentalmente a mesma seleção, só que 4 anos mais velha. No caso dos mais novos, não fez diferença. Nos mais velhos, felizmente, também não, embora o risco fosse grande (Nilton Santos já tinha 36 anos, salvo engano).

Em 1966, tivemos uma entressafra. Pelé apanhou feito um condenado. Garrincha já não era mais o mesmo. E os jovens do time não seguraram o tranco.

Em 1970, tivemos uma grande seleção. Os mais experientes estavam na casa dos 30 e no auge da forma (caso de Pelé e Gérson, por exemplo). Já tinham jogado Copas anteriores. Os mais novos esbanjavam talento (como Rivelino), mas não tinham o fardo de carregar o time nas costas.

Em 1974 e em 1978, atravessamos uma entressafra severa. Apesar de Rivelino já não ser mais o jovem de 1970, o restante do time não foi páreo para a Holanda. Mesmo assim, em 1978, já bem experiente, Rivelino foi fundamental para que, por exemplo, o jovem Zico pudesse estrear numa Copa do Mundo e ganhar experiência. Isso foi decisivo em 1982.

De 1982 a 1990, ficamos a ver navios. Em 1990, no entanto, uma dupla de jovens atacantes foi levada à Copa da Itália. Bebeto e Romário não fizeram muita coisa na Bota, mas detonariam os adversários quatro anos depois nos Estados Unidos.

Em 1998, sem Romário, os jovens talentos de Ronaldo e Rivaldo não seguraram a barra. Mas quatro anos depois, ambos seriam fundamentais para que o Brasil conquistasse o penta.

Daí em diante, com Parreira à frente da seleção, o Brasil conseguiu montar um bom time, aproveitando a experiência dos veteranos de 2002 e incorporando as jovens promessas que apareciam (Kaká, Adriano, Robinho e Ronaldinho Gaúcho – este um mero coadjuvante em 2002).

Com algumas alterações, esse time ganhou da Alemanha na casa dela e goleou a então poderosa Argentina na final da Copa das Confederações de 2005. Lembro-me como se fosse ontem de Paulo Vinícius Coelho comentando o jogo e celebrando efusiva e precitadamente: “A melhor notícia é a seguinte: temos um ataque para as próximas três Copas”.

Pela idade dos integrantes do “quinteto fantástico”, era bem possível que todos estivessem não só na Copa de 2006, mas também em 2010 e 2014.

Só que aí o imponderável resolveu dar o ar de sua graça. Uma a uma, as promessas daquela seleção que encantara o mundo em 2005 foram sucumbindo. Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Robinho e Adriano rumaram em um caminho sem retorno à decadência.

Hoje, essas promessas de 2005 – todos na casa dos 30 anos – deveriam estar levando a seleção nas costas, facilitando a ascenção de craques e promessas como Neymar e Ganso. Como decaíram física e tecnicamente, todo o fardo da seleção está sendo jogado nos ombros de quem deveria estar apenas se ambientando à pressão de jogar vestindo a camisa da seleção brasileira.

A verdade – é triste reconhecer – é que talvez nem Kaká, nem Ronaldinho Gaúcho, nem Robinho, nem muito menos Adriano tenham sido tão bons quanto a maioria imaginava. A sua decadência futebolística precoce apenas agravou o natural processo de entressafra da seleção brasileira.

E os resultados estão aí, pra todo mundo ver.

Esse post foi publicado em Esportes e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.