O efeito dos juros no crescimento econômico

Nesta semana, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros para 7,25% ao ano. Desde que me entendo por gente, é o menor nível praticado no país.

Quando sai uma notícia dessa, a explicação normalmente é uma só: “O Governo quer estimular o crescimento ao baixar os juros básicos”. Mas por que mexer na taxa básica de juros influencia no crescimento?

Vou tentar explicar em poucas linhas.

A taxa básica de juros – a tal da Selic – define quanto o Governo paga aos investidores por pegar dinheiro emprestado deles. Os investidores são, em sua imensa maioria, os bancos (com os depósitos de seus clientes) e os endinheirados (com capital próprio). No caso dos bancos, eles repassam parte do rendimento aos que aplicam dinheiro neles. Por exemplo: se a taxa de juros estiver em 10% a.a., o sujeito que aplica em um CDB receberá ao final um rendimento de 9% a.a. Essa diferença é o que banco embolsa para fazer a intermediação financeira.

Até aí, nada de novo.

Imagine, no entanto, um grande investidor, com R$ 1 milhão de reais em caixa, doido para investir. O que ele deve fazer para multiplicar o seu dinheiro?

Em princípio, ele tem duas opções: ou investe em renda fixa – no exemplo acima, em um CDB de um banco qualquer – ou aplica em algum negócio próprio (uma fábrica, uma loja, uma revendedora, seja lá o que for).

Agora, imagine que os juros da aplicação em CDB rendam 20% a.a. Ao final de um ano, ele terá, em um cálculo grosseiro, R$ 1 milhão e 200 mil limpinhos no bolso: o R$ 1 milhão investido mais R$ 200 mil de rendimento. Ao final de cinco anos, terá dobrado o capital para R$ 2 milhões. Isso sem ter se desfeito do capital inicial e sem empurrar um prego numa barra de sabão.

Do lado contrário, imagine o mesmo sujeito aplicando numa fábrica têxtil.  Depois de recolher impostos, pagar empregados, luz, água, encargos e mais um monte de etc., o sujeito consegue tirar, no final do ano, os mesmos R$ 200 mil reais limpos de lucro.

“Sem diferenças, então, né?”

Neca de petibiriba.

Para montar a fábrica, o sujeito teve de se desfazer de todo o capital dele, de R$ 1 milhão, comprando maquinaria, alugar um galpão, treinar empregados e por aí vai. Ou seja: enquanto na renda fixa o sujeito consegue dobrar o capital em apenas 5 anos, para alcançar o mesmo resultado investido em um negócio de risco, mas produtivo, o sujeito terá que esperar 10 anos.

Isso, claro, fazendo cálculos grosseiros. No mundo real, a coisa é bem pior.

Houve uma época, por exemplo, em que o sujeito ganhava no Brasil 50% a.a. reais, isto é, descontada a inflação, sem precisar pingar uma só gota de suor. Enquanto isso, quem investia, por exemplo, em um supermercado, conseguia tirar no máximo 3% a.a.

A pergunta que se faz é: com nesse nível de taxa de juros, quem vai investir na economia real? Não é melhor, mais rentável e mais seguro emprestar dinheiro ao Governo? Arrisca-se nada e ganha-se muito, sem os problemas inerentes à administração de qualquer negócio.

De fato. E é justamente por isso que, quando o Governo baixa a taxa básica de juros, obriga o sujeito que tem disponibilidade de dinheiro a investir em negócios de risco – produtivos – ao invés de sentar na poltrona e aplicar em títulos do Governo. É precisamente para derrubar a diferença entre o rendimento da renda fixa e o do investimento produtivo que o Banco Central está derrubando a taxa de juros.

Ao entender isso, fica fácil saber qual o efeito da baixa da Selic no crescimento da economia. Com mais dinheiro sendo investido em coisas que se podem embrulhar, mais dinheiro circula na economia, mais empregos são gerados e mais aumenta a renda do trabalhador.

Portanto, quanto menor os juros, maior tende a ser o crescimento. Da mesma forma, quanto maior os juros, menor tende a ser esse mesmo crescimento.

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