O preconceito com a música baiana

Virou lugar-comum na última década e meia baixar o pau nos grupos e cantores que se identificam como representantes da “música baiana”. Não é pra menos. Desde o falecido grupo Gerasamba (pra quem não se lembra, esse era o nome original do É o tchan), a música baiana deixou a letra e a canção de lado para dar lugar a loiras e morenas em trajes sumários, desfilando suas derrières na telinha da TV. Foi assim que nasceu a praga chamada Axé Music.

A mesma terra que premiou o Brasil com Caymmi, Caetano e Gilberto Gil, agora virara sinônimo de música – música?!? – de má qualidade, em que a protuberância da anatomia feminina era mais importante que a profundidade da letra da canção. A coisa atingiu tal proporção que até mesmo fenômenos musicais anteriores à Carla Perez e afins acabaram condenados ao mesmo rótulo. É uma pena, porque, para além das bundas, a música verdadeiramente baiana produziu grupos e canções de grande qualidade artística

Veja-se, por exemplo, o caso de Baianidade Nagô, sucesso da Banda Beijo.

Na letra, fala-se da proximidade do verão. Salvador se agita, numa só alegria, esperando o carnaval. Numa declaração de amor à cidade, a canção diz: nunca irei te deixar, meu amor. Por isso, a pessoa vai atrás do trio elétrico, dançando ao negro toque do agogô, curtindo minha baianidade nagô.

E o refrão não poderia ser mais inspirador:

Eu queria….

Que essa fantasia fosse eterna.

Quem sabe, um dia a paz vence a guerra

E viver será só festejar…

Mesmo as versões de músicas estrangeiras ganhavam um colorido diferente, quando tocadas sob a sol da Bahia de Todos os Santos. Numa feliz adaptação de Rock ‘n Roll Lullaby, o Asa de Águia estourou no Brasil inteiro com Dia dos Namorados. Sem dar margem a letras de duplo sentido, Durval Lélis cantava assim:

Todo dia no mar do farol

Vejo você num banho de sol

Uma figura linda, raio de luz que brilha em meus olhos

Dia dos namorados, nós dois abraçados a sós.

Mesmo letras menos inspiradas ainda traziam consigo uma mensagem que fazia bem aos apaixonados corações adolescentes. Uma música pretensamente de um amor impossível, como Menina, me dá seu amor, podia não ser lá um poema de Schiller, mas, por inocente, mal também não fazia. No trio elétrico, o Chiclete com banana  cantava:

Daqui do alto, eu te vejo.

Daqui do alto, eu te desejo.

Daqui do alto, eu te quero.

Daqui do alto, me desespero.

Menina, me dá seu amor!

Mesmo fenômenos mais recentes, como a Banda Eva (quando ainda tinha como cantora Ivete Sangalo), não deixavam a peteca cair e estavam longe de se transformar nesse modelo apelatório predominante hoje na Axé Music. No seu CD de estréia, ao lado de versões maravilhosas de músicas já gravadas nos anos 80 – como ColeçãoEva – vinham canções igualmente inocentes, como Beleza rara. Ivete, com seu vozeirão, cantava assim, com alguma observância do paralelismo sintático:

Eu não posso deixar que o tempo te leve jamais para longe de mim

Pois o nosso romance em minha vida é tão lindo

És quem manda e desmanda esse coração que só bate em razão de te amar

Daria o mundo a você se preciso

De certa maneira – e aqui bem est modus in rebus – a música baiana começou da mesma forma como os Beatles: letras simples, inocentes, que falavam da vida e do amor. À diferença do Fab Four, que evoluiu para se tornar um dos maiores ícones da música pop, a música baiana tomou o caminho inverso, precipitando-se numa espiral de decadência em que cada coisa tosca que aparece é sucedida por outra, ainda pior.

É uma pena. Mas isso, por si só, não transforma quem fez a música baiana do final dos anos 80 e começo dos anos 90 em atentado aos ouvidos. Pelo contrário. São exemplos vivos de que, mesmo sem letras profundas, é possível produzir música de qualidade. Basta ter um pouquinho de vontade para isso.

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