O começo do fim da Europa

Outro dia escrevi aqui sobre a campanha presidencial francesa, e de como Sarkozy, querendo obter dividendos eleitorais, escolhera o bode expiatório perfeito para exercer seu radicalismo xenófobo: o imigrante.

Hoje, saiu a notícia de que a Alemanha também quer entrar no barco. Ou melhor, pular fora dele. Merkel e Sarkozy enviaram uma carta à Comissão Européia “sugerindo” mudanças no Tratado de Schengen.

Ao lado do Tratado de Maastricht, Schengen é um dos pilares da União Européia. Se Maastricht estabeleceu a união monetária, Schengen lançou por terra 4.000 anos de fronteiras européias: o cidadão de qualquer país estrangeiro não chegaria mais a um “país da Europa”. Desembarcaria “na Europa”. Fora isso, os habitantes da União Européia não precisariam mais de visto para transitar de país para país. Não precisariam sequer de passaporte. Bastaria o bilhete de identidade e a comprovação de que era natural de algum país membro do Tratado. Depois de milhares de anos de guerras, conflitos fronteiriços e dominações de conquistadores, os países europeus finalmente abriram mão de seus limites territoriais e passaram a se encarar com uma única grande e imensa federação. Arrisco-me a dizer que nenhum dos tratados europeus provocou uma integração mais intensa do que o Schengen.

Justamente por isso, a meia-volta que Merkel e Sarkozy pretendem promover agora é tão preocupante. Ambos querem abrir uma “janela” segundo a qual, “em momentos de crise”, poderão suspender o livre trânsito de cidadãos europeus no chamado Espaço Schengen. Como quase tudo que acontece nesse tipo de caso, uma vez aberta a porteira, passsará toda a boiada. Quem poderá garantir, por exemplo, que a Alemanha não feche suas fronteiras argumentando que o aumento do desemprego causou uma “crise social” em seu país? Ou que a França alegue que o aumento do número de imigrantes pode colocar em risco seu sistema de seguridade social?

Já insinuado pela Dinamarca no ano passado, o Schengen está seriamente sob risco com a adesão de França e Alemanha à proposição. Isso porque não se trata apenas de mais dois países dentre os 27 integrantes da União Européia, mas os dois carros-chefes de todo o bloco. O que eles “pedem” não é uma sugestão, mas uma quase ordem.

Se o Euro acabar, é bem provável que também o Schengen vai para o espaço. Atravessando a maior crise econômica de sua história, a Europa pode até conseguir salvar o Euro. Mas se deixar de lado o Schengen, jogará fora o legado da idéia de Europa: um continente reunido sob uma única bandeira, civilizado e próspero.

Vamos torcer para que isso não aconteça.

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Uma resposta para O começo do fim da Europa

  1. Mourão disse:

    Meu caro Senador, é por isso que eu falo que você é um aristocrata, acima de vãs ideologias. Eu sei que você entende. E a Europa parece regridindo, em muitos aspectos, em particular, e mais preocupante no social( wellfare Statye). Não podemos porém esquecer que levas de migrantes, crescentes e desordenadas, com valores próprios que por vezes colocam acima das leis nacionais é um desafio à civilizada Europa, ou não?

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