A moratória norte-coreana

Hoje saiu a notícia de que a Coréia do Norte aceitou suspender seu programa nuclear em troca de ajuda alimentar dos Estados Unidos. Pelo acordo, os norte-coreanos suspenderão o lançamento de mísseis de longo alcance, os testes nucleares e interromperão o enriquecimento de urânio. Na outra mão, virão 240 mil toneladas de alimentos para salvar a população do país da fome.

Boa notícia?

Por um lado, sim. Imediatamente, afasta-se o risco de uma guerra na península coreana. Risco catastrófico quando se considera que um dos lados (o Norte) dispõe de um arsenal nuclear e não enxerga qualquer problema ético em utilizá-lo. Fora isso, ajuda-se a minimizar o sofrimento de um povo assolado por uma das ditaduras mais cruéis de que se tem notícia.

No longo prazo, porém, nada muda. A ameaça nuclear  continua lá. Por mais que o mundo tenha se afastado no momento do abismo, o acordo não envolve a deposição completa do programa nuclear. Quer dizer, a Coréia continuará com seus traques atômicos e não desmantelará suas instalações nucleares. Mesmo que no futuro chegue-se a algum tipo de entendimento a envolver a renúncia total da Coréia do Norte à tecnologia nuclear militar, ainda assim o mundo continuará um lugar inseguro para se viver.

“Por quê?”

Pelo seguinte. Alcançando-se um acordo com uma nação pária, o mundo cederá à chantagem atômica. Ninguém está fazendo acordo com a Coréia do Norte porque quer simplesmente manter a paz na região. Faz-se o acordo porque temem o holocausto nuclear. Se tivessem armas nucleares, ninguém – nem mesmo George Bush II – pensaria em invadir Afeganistão e Iraque. Invadiram-nos porque sabiam que do outro lado não havia a ameaça de destruição maciça. Do contrário, teriam adotado a mesma paciência budista com que tratam a Coréia do Norte.

Curiosamente, os mesmos países que se recusam a sentar na mesa com o Irã porque afirmam que seu programa nuclear pretende produzir uma bomba atômica aceitam alegremente ceder à chantagem coreana. A pressão sobre os persas aumenta na exata medida em que o Irã se aproxima do artefato apocalíptico. Se já o tivessem, provavelmente o caminho das negociações já estaria desobstruído.

Para o resto das nações párias, esse acordo passa a seguinte mensagem: “Corram em busca de suas armas nucleares, porque assim vocês evitam uma invasão e ainda conseguem acordos em termos mais vantajosos”.

Posso estar enganado, mas acordos com a faca no pescoço nunca terminam em boa coisa, no longo prazo. Aí está Munique para não nos deixar esquecer. Muitas emoções nos aguardam nos próximos anos.

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