O despreparo para o sucesso

Em termos de fofocas non sense, esta semana foi animada pela aparição de Neymar num iate ao lado de uma modelo da qual eu nunca ouvi falar. Muita gente caiu de pau em cima, dizendo que o cara já tava esbanjando dinheiro do novo contrato, que se dedicava mais às “atividades” extra-campo do que ao futebol, que isso e que aquilo outro.

Não vou aqui entrar nessa discussão. Pra mim, pouco importa o que o sujeito faz com seu dinheiro. Desde que o ganhe honestamente – e esse é o caso do Neymar – é lícito admitir que faça o que bem entender com ele. Se o sujeito quer gastá-lo em excentricidades, não se pode acusá-lo de muita coisa além de ser (mais um) nouveau riche.

Minha questão aqui é outra. É analisar como a fama cobra seu preço quando o sujeito, antes pacato, é subitamente catapultado para o estrelato.

Sim, sim, isso não é exclusividade do futebol. Muito menos do esporte. Na TV e no cinema há inúmeros casos de pessoas que não eram ninguém e, de repente, com um papel certo ou uma jogada mais bonita, vêem-se mergulhados no turbilhão da mídia, da TV e das revistas de fofoca.

Na maior parte dos casos, o sucesso aparece ainda no auge da juventude, não raro antes dos 20 anos (caso do Neymar), quando a pessoa ainda não terminou seu desenvolvimento por inteiro. Por desenvolvimento, entenda-se, definir-se como pessoa; saber quem é e o que quer ser; estar ciente dos próprios limites e das próprias capacidades.

Não sei quanto a quem lê o blog, mas eu pessoalmente não me considerava completamente desenvolvido aos 20 anos. Era pouco mais que um adolescente mais velho, pensando que tinha algo a apresentar. Em retrospecto, é possível ver o quanto estava errado. Mas é algo que normalmente só se descobre depois. Nessa época, vigora a autossuficiência típica de quem acha que pode mudar o mundo, resquícios típicos da adolescência. Se é possível dizer que o desenvolvimento pessoal termina em alguma idade, certamente não é antes dos 20.

O fato é que, se em uma pessoa “normal” a transição da adolescência para a vida adulta é sempre difícil e sujeita a percalços, que dizer de pessoas que, além disso, tem de conviver com a falta de privacidade, a exposição midiática e uma quantidade de dinheiro que possivelmente jamais sonharam na vida.

Não sei se alguém já disse algo do gênero, mas certamente não deve haver barra maior do que a do sucesso. Chegar no auge é uma coisa. Manter-se nele é que são elas. E a pressão para o sujeito fazer cada vez mais e melhor pode desestruturar a mente de quem ainda não completou seu ciclo de desenvolvimento. Por isso mesmo, muitos jogadores e artistas buscam “refúgio” em drogas e no álcool.

Quando isso acontece, poucos são os profissionais que buscam o auxílio de um profissional. Agentes (da TV ou de times de futebol) normalmente estão mais preocupados só com o dinheiro a entrar, pouco importa se o sujeito está segurando bem a barra. Os exemplos estão aí às pampas: desde Maradona (cocaína) a Sócrates (álcool) no futebol, até Fábio Assunção (cocaína) e Amy Winehouse (álcool) no mundo artístico.

Nessas horas, só se pode recorrer a um grupo: à família. Se os pais se omitirem e deixarem se deslumbrar pelo dinheiro ganho pelos filhos, pode escrever: é tragédia na certa.

No caso de Neymar, curtir o iate novo ao lado de uma modelo com biquini minúsculo não é motivo de preocupação pelo fato em si. É apenas indicativo de que algo pior pode estar vindo pela frente. Espera-se que os pais dele acordem a tempo.

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