Ultimamente, só o que se fala no mundo é sobre o risco de calote da dívida americana. País mais seguro do mundo, maior economia do planeta, os Estados Unidos eletrificam o mundo com uma apreensiva contagem regressiva do zeramento do caixa. Para o mundo financeiro, é como um relógio do fim do mundo: quando a hora chegar, todos terão de expiar seus pecados.
Para situar quem ainda não se inteirou da matéria, a encalacrada é a seguinte: os EUA tem um limite de endividamento (hoje em US$ 14 trilhões, mais ou menos). O limite foi alcançado em maio, mas graças a artimanhas contábeis do Tesouro, conseguiu estender-se esse prazo até o próximo dia 2 de agosto.
Com um déficit público roçando os 10% do PIB, ficar sem poder aumentar sua dívida significa, literalmente, ficar sem dinheiro. Imagine o seguinte: você recebe seu salário, mas, como as despesas mensais são muito maiores do que você recebe, você utiliza o cheque especial. Só que seu cheque especial tem um limite (óbvio). E como você continua gastando mais do que recebe, o limite foi pro espaço. Se o Banco não aumentá-lo, como é que você vai se virar?
Esse é o drama americano. Drama por um lado, mas mérito por outro. Com uma democracia digna do nome, o Congresso exerce papel central nos Estados Unidos. Ao contrário do Brasil, que possui um Executivo hipertrofiado, lá o Presidente não pode muita coisa se o Congresso bater o pé.
O pano de fundo – claro – são as eleições presidenciais do ano que vem. Todo mundo concorda com a redução do déficit público. O problema é que os democratas querem aumentar impostos, e os republicanos querem cortar gastos sociais. Cada um tenta vender o peixe ao seu eleitorado: os democratas aos setores mais empobrecidos da população, e os republicanos à elite conservadora.
Curioso é que nenhum dos lados fala em cortar gastos onde seria mais necessário: na promoção de guerras mundo afora. Maior sorvedouro de dinheiro do orçamento americano, o setor militar continua ostentando aura de “intocável”, mesmo conduzindo guerras reconhecidamente perdidas: Vietnã II (Afeganistão) e Vietnã III (Iraque).
Meu palpite é que a guerra de esticar corda vai se arrastar até a undécima hora. Quando o relógio bater a décima primeira badalada, vão fazer um acordo para salvar a todos.
“E se não fizerem um acordo?”
Bem, se não houver acordo, prepare-se para um crise de proporções apocalíptícas. A crise do subprime vai parecer realmente só uma marolinha diante do tsunami provocado por um default americano.
“Por quê?”
Pelo seguinte: toda a economia mundial está estruturada ao redor dos Estados Unidos e de sua moeda, o dólar. Apesar de não ter lastro nenhum, ele é o lastro de todas as demais moedas. A única coisa que o sustenta como tal é a confiança na solvência americana. Se os americanos derem um calote em sua dívida, a confiança no valor do dólar como moeda de reserva vai às calendas. E todo o sistema montado em cima dele ruirá como um castelo de cartas.
É como disse outro dia um economista: é idiotice perguntar como ficará a economia americana depois de um calote. É a mesma coisa de você se perguntar como estará depois de cometer suicídio.
Para o bem e para o mal, essa pode ser a “última crise do dólar”. Será necessário repensar o sistema financeiro mundial, num mundo em que os EUA e o dólar deixarão de ser protagonistas.
Grandes emoções nos aguardam nos próximos dias.
É meu caro Senador. O assunto é instigante e afeta a todos nóa mortais. Querendo ou não. O Obama já andou falando em cortes da Defesa. Será viável?.Espero que sim, mas tenho ca minhas os republicanos em massa e provavelmente alguns democratas ficarão contra. Só não sei bem como a maioria do povo e a mídia se posicionam diante da proposta de cortar despesas militares.
Eu acho que a maioria quer o fim das guerras, Comandante. O problema é que o lobby da indústria armamentista é muito, muito forte. Por isso é que ninguém toca no assunto. Mais fácil arriscarem votos do que os financiadores de campanha… Abraços.
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