America’s shutdown

Já está dando no saco.

Ano sim, outro também, lá vem a lenga-lenga sobre a aprovação do orçamento norte-americano. De um lado, os democratas puxam a corda na direção de mais gastos sociais. Do outro, os republicanos exercem a contra-força correspondente para salvaguardar o dinheiro do “tax payer” americano. De tanto reprisar-se a embromação, o imbróglio orçamentário está mais para reprise saturada de novela mexicana do que propriamente para thriller de Holywood.

Pelo menos em outras duas oportunidades, o tema foi abordado neste espaço. Em 2011, abordou-se o problema de um eventual default americano, decorrente na negativa do Congresso em aprovar o aumento do limite de endividamento do Governo Federal. Para alcançar-se um acordo, Obama cedeu e admitiu negociar cortes no orçamento do ano seguinte. Em caso de não se alcançar um entendimento, seriam aplicados de forma imediata cortes da ordem de US$ 700 bilhões nos gastos federais.

Empurrado com a barriga, no ano seguinte o problema voltou a provocar cólicas no mercado. Como o cabo-de-guerra continuou e ninguém se dispôs a ceder em sua posição, os tais cortes de US$ 700 bilhões iriam ser aplicados automaticamente. Com a economia norte-americana e mundial ainda cambaleando, todo mundo prendeu a respiração às margens da crise que ficou conhecida como “Abismo Fiscal”. Dessa vez, a crise foi postergada com a prorrogação de isenções de impostos aos mais ricos (defendida pelos republicanos) e aumento dos benefícios concedidos à classe média.

Agora, a briga gira em torno do chamado “Obamacare”. Criado no primeiro governo Obama, o programa de saúde instituiu nos Estados Unidos uma espécie mal-ajambrada de SUS federal. Não há um modelo universal e gratuito, como é o caso brasileiro, mas os cidadãos serão obrigados a contratar um seguro de saúde, com preços subsidiados pelo governo americano. É pouco, sem dúvida, mas ainda assim um avanço em relação ao modelo anterior, no qual 50% da população não tinha nenhum acesso aos serviços médicos.

Desde sempre, os republicanos foram contra a medida. Houve gente do Tea Party falando que o Obamacare vai na direção da “transformação quase irreversível dos Estados Unidos rumo a uma economia socialista”. Houve até mesmo questionamentos sobre a constitucionalidade da medida, ante o princípio da ampla liberdade do cidadão. Felizmente, a Suprema Corte americana rejeitou a medida, embora pela estreita margem de um mísero voto.

Tendo perdido as batalhas legislativa e judicial para aprovação do Obamacare, agora os republicanos jogam com o orçamento como instrumento de chantagem contra o plano. Como todo gasto governamental deve ser precedido por autorização legislativa, sem a aprovação do Federal Budget, o governo ficará literalmente sem dinheiro para pagar as contas. Programas sociais, despesas de manutenção e até mesmo o salário dos servidores ficará em suspenso enquanto o Congresso não resolver a pendenga.

Obviamente, a estratégia de tensão é, por definição, algo a ser levado às últimas consequências. Para não sofrer um shutdown generalizado, o governo norte-americano precisa aprovar o orçamento até a meia-noite de hoje. Até lá, os republicanos continuarão fazendo seu joguinho miúdo, seja em busca de cortes no orçamento, seja em busca de adiamento da entrada em vigor do Obamacare. Fazem isso, claro, porque jogam para sua platéia mais conservadora, sempre refratária a gastos do Governo, sejam quais forem.

O que os míopes conservadores norte-americanos não conseguem enxergar é que, se por um lado provocam constrangimentos à operacionalidade do Governo Obama, por outro colocam-no na condição de vítima da fina flor do reacionarismo. O que eles não conseguem enxergar é que, ao mesmo tempo em que fazem isso, dão a Obama o mote de campanha com o qual sempre sonhou. Para um político sem grandes feitos para mostrar, não poderia haver propaganda melhor.

Por reprisado, o final dessa novela é conhecido. Ou, na undécima hora, será alcançado um acordo que evitará a paralisação do Governo, ou então o governo ficará paralisado, mas o mundo não vai se acabar por causa disso. Os republicanos mais uma vez vão poder se vangloriar de levar o Governo Obama às cordas. Das cordas, Obama vai poder mais uma vez se utilizar da insensatez dos republicanos para capitalizar politicamente com ela. E assim, passo por passo, os republicanos vão se afastando cada vez mais da Casa Branca.

É o que veremos novamente daqui a quatro anos.

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