Para não perder a audiência a Icsa, e também em homenagem aos meus últimos padecimentos com serviços de teleatendimento, volto a escrever sobre dicas de português.
Um dos maiores males da linguagem atual é o “gerundismo”.
“Gerundismo” é um vício de linguagem relativamente recente. Segundo os estudiosos de gramática, sua origem deve-se à importação de uma tradução capenga do inglês. Alguns gerúndios em inglês traduzem-se como infinitivo, dado o seu sentido na língua original. Por exemplo: “I love dancing” = “I love to dance” = “Eu adoro dançar”. Ou, em uma frase que foi inclusive pensamento do dia do blog: “If winning isn´t everything, why keep score?” = “Se vencer não é tudo, por que manter o placar?”
Por isso, quando alguém fala em inglês, por exemplo, “I´ll be leaving at nine o´clock”, traduz-se como “Eu vou partir às noves horas”. Mas os “literais” traduziriam a mesma expressão mal e toscamente por “Eu vou estar partindo às noves horas”. É dessa tradução mal ajambrada que provavelmente deriva a praga do gerundismo.
É claro, contribuiu muito para difusão do gerundismo os malfadados serviços de telemarketing e de teleatendimento. Quem por aí nunca sofreu, passando de atendente em atendente, ouvindo: “Senhor, aguarde na linha por favor, pois vou estar transferindo o senhor para o setor responsável”.
Veja que, em inglês, a frase até seria correta: “Sir, please hold on the line, because I´ll be transferring you to the responsible department”. Mas a tradução correta seria: “Eu vou transferir o senhor…”
O primeiro problema do gerundismo é a distorção verbal. O gerúndio atencedido do verbo “ser” normalmente indica um processo que se protrai no tempo. Nesses casos, não há qualquer problema em utilizar essa construção. Por exemplo: “Não me ligue depois das 10, pois vou estar dormindo“.
Porém, no caso do telemarketing, o gerúndio precedido do verbo “ser” é utilizado para informar ações instantâneas. Ex: “Vou estar transferindo para o setor responsável”, “Vou estar passando para o gerente”, “Vou estar anotando seu protocolo de reclamação”, e por aí vai.
Em todos os casos, o uso de infinitivo substitui com muito mais precisão, correção e elegância a construção “ser” + “gerúndio”. “Vou transferir”, “Vou passar”, “Vou anotar”. Se você não gostar do infinitivo, há ainda a opção igualmente elegante do futuro: “Transferirei”, “Passarei”, “Anotarei”.
Há estudos sociológicos tentando determinar por que o gerundismo fez tanto sucesso no Brasil (em Portugal, graças ao repúdio generalizado à utilização do gerúndio em qualquer caso, essa praga não existe). Segundo alguns, o gerundismo ajuda na tarefa de disseminar o descomprometimento da pessoa com a ação que afirma irá fazer. Quando algum atendente de telemarketing diz “Eu vou estar enviando o produto para o senhor amanhã”, é como se o processo de envio fosse algo tendente ao infinito, duradouro, quase eterno. Na frase, estaria implícito o seguinte: “Olha, você espera sentado, que quando eu terminar tudo que eu tenho pra fazer, sentar, descansar, almoçar, depois vou ver se eu faço o que disse. Isto é: se eu me lembrar disso”. Trata-se de uma idéia que não combina com o imediatismo e o compromisso presentes numa construção feita no infinitivo: “Eu vou enviar o produto para o senhor amanhã”.
Se o gerundismo é ruim de se ouvir, pior ainda é vê-lo por escrito. Por isso, afirme seu compromisso com o texto bem escrito e contribua para eliminar essa praga da linguagem do dia-a-dia.