Churchill contra o Fatalismo

Como diria Ferris Büeller em Curtindo a Vida Adoidado, “na minha opinião, os ismos não são bons”.

Na minha também não. Mas nenhum deles me irrita mais do que o fatalismo. Achar que as coisas são como são, e não há nada a fazer a respeito disso. Seja por Deus, seja pela suposta ordem natural das coisas ou mesmo pelo sentimento de impotência em relação ao mundo, boa parte das pessoas assume uma atitude passiva em relação às adversidades da vida. Não haveria nada que elas pudessem fazer para mudar isso.

Errado. Você pode fazer algo a respeito. E muito.

As coisas não se alteram por si mesmas. Todas as mudanças no curso do destino dão-se por ações externas. Aí estão as revoluções como exemplo. Não fazer nada significa perpetuar um estado de coisas com o qual você não concorda. Se não fizer nada, ele vai continuar, até que alguém com mais cojones faça.

A tese que defendo é simples: você veio ao mundo pra fazer a diferença. Seja lá o que for, em algum momento você será colocado diante de uma encruzilhada em que poderá ir pro pau ou enterrar a cabeça como uma avestruz. Se escolher a segunda opção, é o caso de se perguntar: que raios você veio fazer aqui?

Uma das minhas grandes ressalvas aos historiadores – especialmente os marxistas – é que eles acreditam que o curso da história segue o caminho de movimentos coletivos. Quando as idéias reúnem massa crítica suficiente, elas começam a mover-se, e, movendo-se, mudam o mundo.

Isso é só parcialmente verdadeiro. O homem – ele sozinho, o indivíduo – é figura central da história. Muitas vezes, algumas idéias reúnem adeptos suficientes para mover a história em uma determinada direção. Mas, mesmo assim, pela determinação de um único homem, ela segue outro caminho.

Quer um exemplo? Leia Cinco Dias em Londres, de John Lukacs.

A história é a seguinte:

Maio de 1940. Winston Churchill acabara de assumir como Primeiro-ministro da Inglaterra. Visto com desconfiança por meio mundo, de Roosevelt aos próprios companheiros de gabinete, Churchill era um primeiro-ministro sem futuro. Previu a queda da França e o encurralamento da Força Expedicionária Britância (400 mil soldados, o grosso do exército inglês) em Dunquerque. No horizonte, só se via a sombra de Hitler movendo-se sobre a Europa. Parecia que não havia nada a fazer.

Sentindo o cheiro de queimado, parte do gabinete achou por bem considerar a possibilidade de compor com Hitler. Teria sido um desastre. Um arranjo com Hitler àquela altura do campeonato conduziria a uma Europa inteiramente dominada pela Alemanha.

Churchill, isolado, não bateu de frente com o gabinete. Cozinhou-os por cinco dias, tentando demonstrar de forma racional a incoveniência de um acordo com Hitler. Continuando na guerra, e mesmo que viesse a perder depois, a Inglaterra conseguiria termos melhores do que se aceitasse passivamente o domínio alemão sobre a Europa.

O ex-primeiro-ministro Neville Chamberlain contestou: “Prosseguir com a guerra não deixava de ser uma aposta considerável”. Clement Atlee, um sem-pasta que viria a suceder Churchill no pós-guerra, também considerou que seguir lutando era “uma aposta”. Para eles, não havia nada a fazer.

Pra Churchil, o problema não era de jogos de prognósticos, mas de perspectivas: “As nações que caem lutando voltam a levantar-se, mas aquelas que se rendem docilmente estão acabadas.”

Até os patos de Saint James´s Park sabiam que  Inglaterra não venceria a guerra sozinha. Churchill conseguiu impedir que a Alemanha ganhasse no intervalo da partida. No segundo tempo, sabia ele, haveria outra guerra, na qual Estados Unidos e União Soviética inevitavalmente venceriam Hitler.

O grande mérito do livro é mostrar o quanto a Inglaterra esteve perto de um acerto com Hitler e como a mudança de rumo deveu-se a um único homem.

De uma só tacada, Churchill salvou a Inglaterra, a Europa e a civilização ocidental.

Tudo bem, nem todo mundo é Churchill.

Mesmo assim, se você acha que não pode fazer nada pra mudar o mundo, tente mudar as pessoas. Comece pelas que estão ao seu lado. Conveça-as a fazer o mesmo. Mudando as pessoas, você pode mudar o mundo.

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5 Responses to Churchill contra o Fatalismo

  1. Avatar de @maxadaum @maxadaum disse:

    isso tudo significa uma única coisa: Você pode jogar FIFA!!

  2. Avatar de Ralf Ralf disse:

    Só sei de uma coisa: o Vasco tá lascado, e não há nada a se fazer a respeito disso! Kkkkkkk

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Calma, filho. Viçozinho Gaúcho acabou de chegar. Os torcedores do Vasco olham pros torcedores do Flamengo e dizem: “Eu sou você amanhã”. É o velho efeito Orloff. É batata. Literalmente.

  3. Pingback: A morte do historiador pop | Dando a cara a tapa

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