A morte do historiador pop

Todo mundo que assistiu o noticiário hoje deve ter visto que morreu em Londres o historiador Eric Hobsbawn.

Quem acompanha o blog há algum tempo, deve ter reparado que ele representou uma grande influência na forma de ver o mundo deste que vos escreve. Não à toa, vira e mexe seus livros ou seus pensamentos foram citados em um post ou outro.

Com Eric Hobsbawn, morre não somente o historiador, provavelmente o maior da história do Reino Unido – e olha que eles têm, dentre outros, Churchill para comparar). Morre não somente o marxista convicto, capaz de conquistar o respeito dos políticos de todos os espectros – e olha que, de tão conservadores, os britânicos nem sequer têm um partido comunista com representação parlamentar. Morre mais do que tudo um ícone do pensamento mundial, reconhecido à direita e celebrado à esquerda como o sujeito que conseguiu trazer por mais de uma vez uma área da ciência normalmente negligenciada e esquecida – a História – para o centro de discussões intensas na sociedade.

Hobsbawn conseguiu alguns feitos notáveis. Como a história é um mundo, normalmente os historiadores centram suas pesquisas sobre um determinado período da história, ou mesmo a análise de uma só personagem histórica. A difícil tarefa de, simultaneamente, operar uma reconstrução fática sem perder de vista a análise contextual implica em regra uma delimitação de objeto muito mais restrita do que em outros ramos do saber.

Um exemplo claro do que digo pode ser visto em John Luckaks, que já esteve por estas paragens no post Churchill contra o fatalismo. Depois de muito estudar, produziu sua melhor obra sobre um único personagem – Churchill – em um curtíssimo período de sua vida pública – 5 dias em maio de 1940.

Mas Hobsbawn não era qualquer um. Com um instituto de curiosidade inato e uma vocação desmedida para a análise percuciente, Hobsbawn estudou a fundo o período mais intenso da história humana: os 200 anos que vão desde a Revolução Francesa até a queda do muro de Berlin. Para o bem e para o mal, esse período foi o que mais marcou e mais foi decisivo em toda a história da humanidade.

Hobsbawn percebera, ao contrário do que o fazem a maioria dos historiadores, que a sucessão de “épocas” não obedece a critérios estritamente cronológicos. Muitos gostam de se referir à “sociedade do Oitocentos”, ou às idéis “setecentistas”. Essa visão restrita conduz muitas vezes a conclusões equivocadas, pois o mundo de 1912 era o da Belle Époque, uma remiscicência do século XIX, e não tinha nada a ver com o mundo de 1918, devastado pela Grande Guerra.

Hobsbawn começou suas Eras com uma trilogia: O longo século XIX. Para ele, o século do Oitocentos, na verdade, começara em 1789, quando os jacobinos tomaram a Bastilha em busca de armas e, quase sem querer, decretaram o fim da monarquia dos Bourbons. À convulsão social e política somou-se a mudança no paradigma econômico. A Revolução Industrial desencadeada na Inglaterra traria alterações sociais ainda hoje não inteiramente compreendidas. Ambas marcariam o primeiro livro da trilogia: A Era das Revoluções.

A Era das Revoluções seguiu sua marcha até aquilo que pareceu o seu ocaso: a Primavera dos Povos, em 1848. Sim, porque o que se anunciava como o fim definitivo do Estado absolutista e da tirania monárquica, com uma sucessão de revoluções e derrubadas de reis por toda a Europa, na verdade resultou no mais rotundo fracasso. Em todos os países onde a monarquia caíra, estaria ela restabelecida menos de dois anos depois. No único lugar em que perdudaria por mais algum tempo, Luís Bonaparte já era presidente e arquitetava em segredo o golpe que o transformaria em Napoleão III.

De 1848 até 1875, seguiu-se um processo de acumulação de capital jamais visto no planeta. Valendo-se do virtual monopólio da indústria mundial, a Inglaterra foi inundada por uma quantidade verdadeiramente boçal de dinheiro. E inundou o mundo de volta, pois, em determinada época, responderia sozinha por 3/4 dos investimentos totais do globo. Seguindo o exemplo, as demais potências ocidentais correram atrás e transformaram seus Estados em virtuais caixeiros viajantes, cujo único ofício era vender os produtos de sua burguesia aos demais países, nem que para isso fosse preciso recorrer à força. Como era de se esperar, a competição acabou conduzindo à guerra, e a Era do Capital terminaria com a derrota da França para a Alemanha na guerra Franco-prussiana, em 1975.

Daí em diante, as potências ocidentais resolveram que, em vez de disputar territórios entre seus países, era melhor conquistar povos civilizada e industrialmente menos desenvolvidos. Algo que a Inglaterra mostrou ser possível com relativa facilidade. A Era dos Impérios ficaria marcada pelo virtual cessar-fogo entre as potências européias nos seus domínios, ao mesmo tempo em que corriam e brigavam com foices no escuro pela possessão de colônias ultramarinas. O mundo finalmente se tornaria “global”.

Claro, depois de conquistarem o resto do planeta, o pêndulo da história novamente colocaria  frente a frente as potências ocidentais. Depois de experimentarem talvez o maior período de paz de sua história até então, os grandes países europeus seriam lançados na maior guerra de todos os tempos por conta de uma intrincada rede de alianças e interesses ao mesmo tempo mútuos e conflitantes. A eclosão da I Guerra Mundial decretaria o fim do Longo Século XIX e o começo do Século XX.

Marcado pelas duas guerras mais destrutivas de todo o período humano, o Século XX ficaria marcado para sempre como o período de maior desenvolvimento tecnológico da humanidade.  Rádio, TV, o desenvolvimento da medicina, dos meios de transporte e dos meios de comunicação, tudo isso aconteceu durante o Breve Século XX.

Forjado no embate entre as duas grandes superpotências da época – Estados Unidos e União Soviética – o Século XX seria a um só tempo um período tenso e exuberante. Tenso porque, enfim, o homem tinha criado armas capazes de colocar sua própria existência terrena em perigo. Exuberante porque nunca antes, e nunca depois, a humanidade passou por um período de tão abundante prosperidade. Não por acaso, é dessa época a criação do conceito de Welfare State e da rede de proteção social estatal. Havia dinheiro para bancar a empreitada.

Marcado pelo terror sem fim e pela fartura econômica, o Século XX terminaria com a derrota de uma das superpotências. A queda do muro de Berlin decretaria o fim da Guerra Fria e a ascenção dos Estados Unidos à condição de Roma dos tempos modernos. Pelas contradições de toda essa época, Hobsbwan achou aquele que talvez seja a melhor definição do período que vai de 1914 a 1989: A Era dos Extremos.

Devo confessar que, em matéria de Hobsbawn, este que vos escreve cometeu a sandice de ler a obra inteira de trás pra frente. Melhor explicando: comecei por A Era dos Extremos, e depois passei, sucessivamente, pela Era dos Impérios, a Era do Capital e a Era das Revoluções. Seria quase como ver uma novela a partir do último capítulo.

Por mais estranho que pareça,  ler a obra desse modo acabou por instigar em mim a curiosidade de descobrir como um fato que eu já sabia que ocorreria acabou se passando como tal. Mal comparando, é como se tivesse estudado um cadáver para tentar descobrir como se passara o crime. Em que pese o aparente incoveniente seqüencial, do ponto de vista do entendimento estudar as causas de um fato já conhecido acaba por ser mais divertido do que assistir, passivamente, à seqüência dos capítulos de uma novela.

Hobsbawn se vai. Mas sua obra fica como o retrato perfeito de um período extremo na história da humanidade. Quem quiser entender o mundo de hoje, não pode deixar de ler pelo menos quatro livros. Acredite: o mundo todo vai fazer muito mais sentido depois disso.

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