Trilha sonora do momento

E a Covid-19 levou o grande Aldir Blanc que, além de um dos maiores compositores da nossa música, era também um grande vascaíno de coração.

Vai, portanto, esta pequena homenagem ao mestre, naquela que talvez seja sua composição mais conhecida, na voz da imortal Elis Regina.

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Pensamento do dia

Um adulto criativo nada mais é do que uma criança que sobreviveu.

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A demissão de Moro, ou O que será do governo Bolsonaro?

Era a crônica da demissão anunciada.

Depois de largar 22 anos de magistratura e uma carreira de sucesso, na qual se tornou um símbolo de combate à corrupção, Sérgio Moro pediu demissão do cargo de Ministro da Justiça. Tendo engolido uma quantidade colossal de sapos nesse quase um ano e meio de governo, Moro enfim parece ter traçado uma linha divisória do tipo “daqui eu não passo”, pedindo o boné depois de uma tentativa explícita de interferência do Presidente da República na Polícia Federal. E a perguntando que todo mundo deve estar se fazendo é: “E agora?”

Para Moro, os caminhos se estreitaram bastante. Não bastasse ter renunciado à vitaliciedade, à inamovibilidade e a toda uma série de benefícios concedidos aos juízes, o fato de Moro ter caído atirando contra Bolsonaro atraiu a ira e a fúria de grande parte dos apoiadores do Presidente, que vêem qualquer um que abandone o barco – ainda mais nas circunstâncias em que Moro o fez – como verdadeiro traidor da causa. Moro, que já era odiado à esquerda por conta do seu trabalho na Operação Lava-Jato, agora é odiado também à direita, por ter se tornado estopim da mais grave crise política que Jair Bolsonaro enfrentou até agora.

Nesse contexto, restam a Moro basicamente duas opções: a primeira, abandonar de vez a vida pública e tentar a sorte na iniciativa privada, como advogado/consultor em áreas de compliance, por exemplo; a segunda, abraçar em definitivo a carreira política, deixando para trás a aura de juiz imparcial que continuava a ostentar com orgulho, a despeito das inconfidências trocadas com procuradores através do Telegram, no episódio que ficou conhecido como “Vaza-Jato”. Seja como for, o ex-ministro dificilmente terá vida fácil, ao contrário do que tenta vender boa parte da grande imprensa.

No lado do governo, o eixo de sustentação política muda completamente. Se antes Bolsonaro podia contar com o “Selo Sérgio Moro de combate à corrupção” para chamar as ruas para pressionar o Congresso, o Supremo ou a programação dominical das redes de TV, agora terá que fazê-lo alicerçando-se unicamente no chamado núcleo duro do bolsonarismo. Afinal, aquela parcela da população que ainda batia palmas para os arroubos autoritários de Bolsonaro contra o “sistema corrupto” dificilmente se sentirá estimulada a seguir fazendo-o quando o principal símbolo de combate à corrupção do governo de lá saiu batendo a porta, tirando o pó dos sapatos.

Exatamente em razão disso, Bolsonaro foi buscar no Centrão – sempre ele – a sustentação política que as ruas, já pouco entusiasmadas, dificilmente lhe dariam. E aí vale tudo: tirar selfie com Arthur Lira (denunciado no STF), chamar pra conversar o notório Valdemar da Costa Neto (condenado por corrupção) e até mesmo ressuscitar Roberto Jefferson (ícone do escândalo do Mensalão).

Evidentemente, será difícil para o Presidente sustentar um discurso pela “ética na política” enquanto mercadeja cargos de segundo escalão com o que há de mais rasteiro no espectro político nacional. Engana-se, porém, quem acha que isso renderá rejeição adicional nas pesquisas a Bolsonaro. Como ele mesmo já deve ter percebido, aqueles 20% do eleitorado que ainda estão com ele constituem a nata do bolsonarismo. Trata-se de uma gente cuja fidelidade ao “Mito” é tão canina que nenhum escândalo será capaz de abalar-lhe a imagem, por pior que seja o pecado revelado.

Parada decidida, então?

Não exatamente.

Embora seja certo que Bolsonaro ainda dispõe da devoção cega de pelo menos 1/5 do eleitorado, há ainda o “fator covid” a considerar. A “gripezinha” do Presidente, que até outro dia estava “indo embora”, já matou mais de cinco mil brasileiros e infectou outros 70 mil. São números que rivalizam com os da China, país cuja população é quase seis vezes maior que a nossa. E o que é pior: enquanto os chineses já aplacaram a epidemia e começam paulatinamente a retornar à normalidade, nós ainda nem sequer alcançamos o pico da doença. Sinal, portanto, de que o que já está ruim ainda pode piorar. E muito.

Fora isso, há o reflexo direto da pandemia no setor econômico. Com a indústria parada, comércio e serviços fechados, o baque na economia está contratado. A única dúvida é o tamanho do buraco que virá. Todavia, como o governo insiste em negar a gravidade da situação, é cada vez mais provável que a paralisação se arraste por muito mais tempo do que ocorreria se tivéssemos adotado uma quarentena estrita desde o começo. Nesse sentido, a Covid-19 pode derrubar a popularidade do Presidente justamente atacando a parte mais sensível do ser humano: o bolso.

Se a crise econômico-sanitária continuar a produzir estragos até o segundo semestre, por exemplo, vai ser difícil segurar a onda de insatisfação popular que se lhe deve seguir. A depender do tamanho do estrago, não vai ter devoção que resolva. Quando a despensa seca e a fome aperta, ninguém quer saber se os políticos são corruptos ou se o Supremo invade prerrogativas do Presidente. A única pergunta é: “Quem é que vai resolver o meu problema?”

Nesse sentido, o inquérito recém-aberto no STF pode servir como válvula de escape, tanto para um lado como para o outro. Se a crise arrefecer e a situação econômico-sanitária melhorar, é provável que o tiro saia pela culatra e que Sérgio Moro termine acusado por denunciação caluniosa. Mas, se o pior cenário se confirmar, ele pode muito bem servir de atalho ao tortuoso caminho do impeachment e permitir uma deposição relativamente rápida e límpida do atual inquilino do Planalto. Afinal, em tempos de crise, todo mundo quer uma cabeça para entregar à turba.

E, desde sempre, no panorama político brasileiro, nenhum escalpo é mais reluzente do que o do Presidente da República.

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Trilha sonora do momento

E consta que, em algum lugar de Curitiba, um desiludido anda afogando as mágoas depois da última decepção.

Se esse for realmente o caso, recomendo essa sambinha aqui.

#FicaaDica

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Pensamento do dia

A esperança é a última que morre, mas a minha paciência é a primeira.

#FicaaDica

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O regresso da caserna, ou O Brasil sob tutela militar?

Era apenas questão de tempo.

Passados mais de 30 anos desde a redemocratização, experimentando o período mais longevo de normalidade democrática de sua história republicana, é cada vez maior a impressão de que os militares voltaram a dar as cartas em Brasília. Claro que não tivemos  (pelo menos não ainda) um golpe militar e não estamos (pelo menos não ainda) numa ditadura. Mas os sinais de que o poder civil encontra-se de forma inquietante sob tutela militar são cada vez mais evidentes.

Não que isso fosse inesperado. Muito pelo contrário. Tendo eleito um ex-capitão do Exército declaradamente defensor do “Regime de 64”, e que, na seqüência, apinhou seu governo de militares da reserva e da ativa, era até natural que o Brasil experimentasse um regresso à caserna. Dentro desse panorama, parecia óbvio que, em algum momento, o pessoal do verde-oliva tomaria de novo gosto pela coisa e espraiaria sua influência por todo o governo.

Veja-se, por exemplo, o que aconteceu na Casa Civil. Depois de defenestrar Onyx Lorenzoni e deslocá-lo para o Ministério da Cidadania, a principal pasta política de qualquer governo passou a ser ocupada por um general da ativa, Braga Netto. Mesmo que tenha posteriormente passado para a reserva, o fato é que o general Braga Netto jamais ocupou qualquer outro cargo na sua vida senão na estrutura militar.

No mundinho de intrigas de Brasília, houve quem celebrasse a ascensão dos militares ao coração do Planalto. Houve mesmo quem achasse que “agora vai!”, pois a “ala militar” teria enfim sobrepujado a “ala ideológica” do Governo. E houve até quem acreditasse na história de que a ascensão de Braga Netto seria uma espécie de “intervenção” na presidência caótica de Jair Bolsonaro. Nada disso, porém, encontra eco na realidade.

Desde logo, deve-se esclarecer que as referências aos “militares” ou à tal “ala militar” do governo pecam pela imprecisão. A imprensa costuma-se referir aos estrelados do Planalto como se fizessem parte de algum bloco monolítico, que anda sempre para o mesmo lado, como a ala das baianas da Mangueira. Não, não, absolutamente. O que aconteceu com o general Santos Cruz é a prova maior disso, defenestrado que foi após um embate com a ala ideológica do governo. Para além disso, há casos de generais que são mais ideológicos do que a própria ala ideológica, tais são as alucinações que são capazes de proferir.

Ainda que algo do gênero tivesse realmente ocorrido, seria o caso de pensar se haveria alguma razão para comemorar. Quem foi eleito, afinal, foi Bolsonaro. E, para o bem e para o mal, é ele quem tem mandato para governar o país. Acreditar, de alguma forma, que seria bom ver os militares se apossando da coisa toda e comandando um governo títere nos bastidores seria, na melhor das hipóteses, uma doce ilusão.

Nada contra os militares, que fique claro. Ou, mais especificamente, nada contra que os militares desempenhem as funções de militares. Eles obedecem a ritos e procedimentos próprios e têm até uma Justiça para chamar de sua (embora seja sempre bom lembrar que a Justiça Militar está para a Justiça assim como a música militar está para a música). Estruturam-se com base na disciplina e na hierarquia, elevando à décima potência a regra segundo a qual manda quem pode (ou quem tem patente mais alta) e obedece quem tem juízo (quem é soldado raso).

Mas militar desempenhando função de civil é coisa bem diversa. Mais ainda quando essa função civil é de natureza política, um bicho avesso a diálogos estruturados em um esquema no qual uma parte fala e a outra cala a boca. Não. Política é essencialmente diálogo entre iguais, que transita entre concessões e compromissos na busca de um acordo (o que não necessariamente significa empenhar um naco da alma por maços de dinheiro).

É exatamente por isso que, em regra, militares não costumam ter sucesso quando ocupam funções políticas. Ora, quem passa a vida inteira sendo regido por um código de conduta baseado na hierarquia – eu mando, você obedece e ponto final – dificilmente se adaptará a um sistema no qual, se o outro não obedece, a coisa fica por isso mesmo.

Talvez seja a hora de se parar e de se pensar. De certa maneira, todo o período republicano brasileiro se passou sob o espectro das baionetas. Afinal, foram os militares que declararam a República. Foram eles que colocaram Vargas no poder e depois de lá tiraram-no. E foram eles que instauraram uma ditadura que desgraçou o país por longos 21 anos.

Durante todo esse tempo, era como se os civis que governavam o Brasil fossem como crianças, observadas de perto pelos pais. A qualquer momento, eles poderiam intervir caso elas “fizessem besteira”. Quando Geisel começou a abertura e decretou a “volta aos quartéis”, parecia que o Brasil se livrara desse fantasma e poderia, enfim, caminhar com as próprias pernas. Não é necessário que esse (pequeno) avanço da democracia brasileira seja colocado em xeque.

E nunca é demais lembrar os ensinamentos do próprio Geisel:

“Quando a política entre por uma porta nos quartéis, a hierarquia sai pela outra”.

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Trilha sonora do momento

22 de abril.

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