Pensamento do dia

A coisa mais difícil na vida é saber quais pontes você deve construir e quais pontes você deve queimar.

By Bertrand Russell

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A internação de Lula, ou Os riscos de um “cenário Biden” em 2026

Pela segunda vez em dois meses, o Presidente Lula foi internado para tratar de uma lesão sofrida na cabeça. Ninguém até agora entendeu direito como foi a dinâmica do acidente, mas é certo que ele atingiu a região occipital do crânio, mais popularmente conhecida como nuca. Da queda resultaram cinco pontos e uma cicatriz na cabeça.

Se Lula fosse apenas mais um velhinho de 79 anos, não seria nada de mais. Infelizmente, as quedas em idosos dessa idade são bastante comuns e, tanto quanto problemas respiratórios ou gastrointestinais, são as maiores responsáveis pela morte nessa idade. Quando não matam diretamente, por vezes as sequelas acabam resultando em agravamento posterior do quadro. É o que ocorre, por exemplo, com lesões que fraturam a cabeça do fêmur, de cujo pós-operatório muitos idosos não retornam.

Mas Lula não é somente mais um octogenário. Ele é o Presidente da República. E não qualquer Presidente da República, senão um sujeito que foi eleito três vezes para o cargo e encarna como nenhum outro a idéia de esquerda no país. Como se isso não bastasse, goste-se ou não dele, Lula foi o responsável por impedir a reeleição de Bolsonaro, o que jogaria o Brasil numa segunda Era das Trevas, provavelmente em um simulacro de democracia que duraria 20 anos, como foi a última ditadura militar. A responsabilidade que recai sobre seus ombros, portanto, é gigantesca.

Sabendo disso, parece no mínimo temerário o modo com o qual governo tratou essa segunda internação de Lula. Nesse tipo de situação, jogar aberto é sempre a melhor alternativa. Voluntariamente, escondeu-se o quadro de saúde do Presidente até que vazasse a informação de que ele havia sido transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Para piorar, depois de terem avisado que tudo correra bem na cirurgia de emergência, o país descobriu sobressaltado que Lula faria uma nova cirurgia. Dessa vez, para cauterizar uma artéria e impedir a recidiva de sangramento na região em que ocorrera a lesão. Segundo os próprios médicos, tal procedimento já estava previsto e não implica maiores riscos para o paciente.

Beleza. Se é assim, por que não foi informado isso logo após a primeira cirurgia? E por que, com o Presidente internado na UTI, o cargo não foi transmitido ao seu vice, Geraldo Alckmin?

A forma atabalhoada com a qual tudo foi feito dá margem a interpretação de que o governo não confia no seu vice. Isso seria uma rematada tolice. Ainda que possa existir algum trauma pela forma através da qual Michel Temer operou para derrubar Dilma Rousseff, Alckmin definitivamente não é Temer. É um político leal, absolutamente cioso das responsabilidades que lhe incubem como substituto do titular. A última coisa que se esperaria dele seria aproveitar esse episódio para destronar Lula do posto.

Esse episódio, contudo, força a antecipação do debate sobre o destino do país nas próximas eleições presidenciais. Se no pleito de 2022 a grande briga da nossa geração foi garantir que Bolsonaro perdesse e que seu sucessor assumisse o cargo – o que, apesar do 8 de janeiro, foi conseguido com sucesso -, em 2026 a luta vai ser impedir que vença um candidato apoiado pelos Bolsonaro ou, ainda que não seja apoiado diretamente por eles, esteja disposto a anistiar os golpistas todos em prol de uma suposta “pacificação” do país.

Nesse sentido, o exemplo que vem dos Estados Unidos não poderia ser mais claro. Joe Biden foi, em 2020, o que Lula foi para nós em 2022. Mesmo assim, quatro anos depois, com um governo impopular e com suas faculdades mentais sob questionamento, Biden foi defenestrado da corrida presidencial na undécima hora. Sua substituta, Kamala Harris, não teve tempo hábil para construir uma plataforma de campanha que impedisse a vitória do Laranjão.

Lula não é Biden, nem em termos de popularidade, nem em termos de capacidade mental. Entretanto, não parece ser um risco negligenciável chegarmos a 2026 com uma economia em frangalhos – o Banco Central e o pessoal de “o mercado” parecem firmes em detonar tudo com essa alta insana de juros -, talvez em recessão, certamente com desemprego em alta. São fatores que detonam o potencial eleitoral de qualquer incumbente. Se somarmos a isso eventuais questionamentos sobre a saúde do candidato, teremos uma reprise do “cenário Biden”, por mais que Bolsonaro permaneça inelegível.

O pior que pode acontecer nesse cenário seria Lula continuar no cargo e começar a experimentar um declínio na sua saúde, tanto física quanto mental. Por mais que se queira esconder essa circunstância, uma hora ela explode, como aconteceu após o primeiro debate de Trump contra Biden. E aí poderá ser tarde demais para construir uma alternativa eleitoral viável para impedir o retorno da extrema-direita ao Planalto.

Sabendo disso, o pessoal da cozinha do Planalto e os próceres petistas mais chegados ao Presidente deveriam começar a se vacinar contra essa possibilidade. Caso Lula esteja de fato com a saúde em dia e as consequências da sua queda se limitem a essa internação de agora, muito bem; vida que segue. Mas, se houver dúvidas sinceras sobre a evolução do seu estado de saúde daqui até 2026, a hipótese de ele renunciar em prol do seu vice deve começar a ser tomada a sério.

Um eventual acordo de bastidores poderia girar em torno da promessa de Alckmin cumprir apenas um mandato e apoiar Fernando Haddad em 2030. Saindo de cena, Lula ainda permaneceria como grande babalorixá do seu campo, aquele a quem todos acorrem nas piores crises, mas sem carregar o ônus e o desgaste da labuta presidencial. Em suma, Lula só participaria dos lucros, não dos prejuízos.

Evidentemente, também esse cenário envolve riscos. Ninguém sabe ao certo como seria um eventual governo Alckmin, nem muito menos como ele iria tourear os diversos interesses em conflito no governo, inclusive dentro do próprio PT. Ainda assim, esse cenário parece menos arriscado do que o cenário Biden, ainda mais se o país chegar em crise econômica em 2026, como está a se desenhar.

Seja como for, o que se coloca agora são basicamente três hipóteses para Lula:

1) Fica tudo bem, ele parte para a reeleição e ganha um quarto mandato do povo. Lula se torna definitivamente o maior político brasileiro de toda a história republicana;

2) Bem ou mal, ele renuncia e deixa Alckmin na linha de frente do governo e passa a atuar nos bastidores pela vitória em 2026. Lula será eternamente lembrado como o sujeito com desprendimento suficiente para colocar o futuro do país acima de seus interesses pessoais;

ou

3) Ele permanece no governo, com a saúde física e mental deteriorada, e perde a eleição para um Bolsonaro ou um proxy dele. Nesse caso, Lula ficará para a posteridade como um Biden brasileiro, que permitiu o retorno do neofascismo por uma questão de ego ou por mero apego ao poder.

Seja lá o que acontecer, Lula terá garantido seu lugar na história. A questão, agora, é saber qual será esse lugar.

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Trilha sonora do momento

E mais uma vez estamos aqui desejando pronto restabelecimento ao Lulinha, pra ver se ele sai dessa.

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Pensamento do dia

Às vezes eu tenho medo de perguntar pra Deus “onde foi que eu errei?” e ele começar a enumerar a lista.

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O respeito pelo cerimonial

Nunca gostou de frescuras, muito menos de protocolos ritualísticos. Para ele, a pompa dos grandes eventos não passava de uma grande celebração do nada, um vazio material destinado a preencher o vazio do ego de uma vida recheada de vazio. Se isso não bastasse, sua alma pernambucana trazia consigo uma certa irritação com gente que gosta de dar muita atenção a isso. Raul definitivamente não fazia o tipo “arroz de festa”.

Mesmo tendo crescido na vida, seu horror às cerimônias do high society não mudou de tamanho. Aliás, isso não é particularmente exato. Talvez a ojeriza tenha até aumentado, dada a frequência com a qual passou a ser convidado para aqueles rega-bofes que costumam fazer a festa de carreiristas e sovinas, cujo deslocamento é justificado apenas pela intenção de descolar uma boca livre. Sim, Raul era o cara high profile mais low profile que existia.

“A comida lá é muito boa”, costumava comentar algum amigo mais próximo, na vã tentativa de convencê-lo a deslocar-se até o evento.

“Comida eu tenho em casa”, cortava Raul na lata, sem dar espaço para convencimentos.

Certa feita, no entanto, Raul não conseguiu escapar do convite.

Como ocupasse um cargo de relevo na estrutura estatal, fora chamado para representar um determinado secretário na cerimônia de transmissão de cargo na Região Militar do seu Estado. O problema? Conhecido pelas suas posições radicais, Raul sempre nutriu um desprezo profundo por boa parte do pessoal de farda. Pior. Nos anos Bolsonaro, sua fama como “opositor do regime” se espalhara nos círculos militares, a ponto de tornar-se verdadeira persona non grata nos quartéis.

Até aí, Inês é morta, porque Raul estava verdadeiramente cagando e andando para os milicos que o receberiam. Os anfitriões, contudo, guardaram mágoa dos anos de críticas públicas. Por mais de um intermediário, os responsáveis pelo evento fizeram chegar aos ouvidos do Secretário que faziam muita questão da presença dele. Mas, caso ele realmente não pudesse comparecer, que mandasse qualquer um no seu lugar. Só não podia, claro, ser o Raul.

Político por natureza, o Secretário fez ouvidos de mercador e fingiu não entender o recado enviado pelos intermediários. Além de não querer entrar no meio dessa briga, ele nutria real simpatia por Raul e não queria vê-lo “vetado” por gente a quem ele não era sequer subordinado. Além disso, conhecedor do seu temperamento mercurial, o Secretário temia por alguma explosão de fúria de Raul ao saber da rejeição ao seu nome na caserna. Para evitar maiores dissabores, arranjou uma viagem oficial ao exterior de última hora e mandou-se para a Europa, longe da confusão.

Na sede do Comando, os militares ficaram numa sinuca de bico. Como o Secretário estava incomunicável e seus intermediários não tinham tido sucesso em “desconvidar” o seu substituto, só restava uma alternativa: confrontar a fera de frente. E por “de frente”, entenda-se: fazer uma ligação direta para Raul (coragem, afinal, nunca foi o forte dessa galera).

O chefe da Região, então, resolveu pagar missão ao seu mais agressivo subordinado, o Coronel Matias. Conhecido pelas grosserias, Matias detestava os paisanos na mesma medida em que era detestado por eles. Fazia o tipo do militar viúvo da ditadura, saudoso de um tempo em que podia prender e arrebentar quem quisesse, pois nada lhe aconteceria. O general estava seguro de que o Coronel saberia “passar o recado” a Raul:

“Bom dia, Sr. Raul. Aqui quem fala é o Coronel Matias, chefe do cerimonial da Região Militar”, disse secamente, sem sequer oferecer a cortesia do “tudo bem?”.

“Pois não, Coronel? Pode dizer”, devolveu também em seco Raul.

“O senhor está sabendo da cerimônia que haverá amanhã aqui na sede do Comando. Sabemos que o Secretário designou o senhor para representá-lo. Mas, em pesquisas feitas pelo pessoal da Região, verificamos que o senhor fez algumas críticas aos militares. Isso causou um grande mal estar aqui na caserna”, explicou o Coronel.

“E….?”, limitou-se a responder Raul.

“….E eu queria saber se, mesmo sabendo disso, o senhor ainda vai comparecer à cerimônia”, falou um aturdido Coronel Matias.

“Vou, claro”, respondeu Raul, sem dar margem a tergiversações.

“E como o senhor espera ser recebido aqui na Região, quando o senhor chegar?”, indagou o Coronel Matias, usando um tom a um só tempo misterioso e ameaçador.

“Com todas as honras que o protocolo me concede, Coronel!”, encerrou Raul, exclamando.

E foi assim que o Coronel Matias aprendeu a respeitar o cerimonial…

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Trilha sonora do momento

Assad caiu enfim.

Beleza.

E agora? O que vem depois?

Enquanto a gente não sabe, vamos tentando segurar nossas esperanças com os Beatles, mesmo…

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Pensamento do dia

Modern luxury is the ability to think clearly, sleep deeply, move slowly and live quietly in a world designed to prevent all four.

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Recordar é viver: “Sugestão de música: Alceu Valença”

Como ando meio saudoso da minha terra e tenho escutado Anunciação muito mais do que seria normal por estas bandas, talvez valha a pena recordar um post de dez anos atrás, que une as duas bandas dessa história.

É o que você vai entender, lendo.

Sugestão de música: Alceu Valença

Publicado originalmente em 24.9.14

A música sempre foi uma constante deste espaço. Para não promover a desfeita a uma seção que se tornou marca registrada deste espaço, vamos retomá-la em alto estilo com um dos mais renomados e talentosos filhos de Pernambuco: Alceu Valença.

Alceu Valença

Nascido em São Bento do Una, agreste pernambucano, Alceu Valença cresceu ao redor da música. Seu avô era poeta e violeiro. Na sua cidade, vez por outra apareciam os famosos cantadores do Nordeste. Dentre eles, figuras como Jackson do Pandeiro e o grande Luiz Gonzaga.

Formado em Direito, Alceu logo viu que as letras jurídicas não eram a sua praia. Muito menos as letras diárias, pois também desistiu logo da alternativa do jornalismo. Foi quando atravessou o seu caminho outro nordestino de talento: Geraldo Azevedo. Juntos, ambos foram para o Rio de Janeiro tentar a sorte nos musicais de TV que pipocavam nos anos 70. Embora tenha tomado pau na sua primeira apresentação na TV Tupi, foi o que bastou para acender a fagulha naquele jovem irrequieto.

No meio dos anos 70, enquanto o mundo vivia o auge do rock psicodélico, Alceu trouxe um pouco da experimentação daquele período para dentro da MPB. É dessa época, por exemplo, Vou danado pra Catende, ao lado do genial Zé Ramalho:

Mesmo assim, Alceu era pouco reconhecido no cenário nacional. No máximo, era visto como uma figura exótica do Nordeste brasileiro, uma excentricidade que a diversidade musical da MPB impunha ao seu conjunto. Foi somente nos anos 80 que esse pernambucano da gema explodiu para o Brasil.

No começo da década, lançou Coração Bobo. Com a música-título de carro-chefe, o disco estourou nas rádios, catapultando Alceu Valença para o topo das paradas:

Após um breve retorno ao estilo rock ‘n roll com Cinco Sentidos, cuja recepção pelo público foi fria como a noite no Recife Antigo, Alceu voltou a brilhar com aquele que provavelmente foi seu melhor álbum: Cavalo de Pau.

E o nome tinha tudo a ver com o disco. Em relação a Cinco Sentidos, o novo disco era realmente um cavalo de pau. Finalmente, Alceu conseguia traduzir suas raízes em letras que mostravam, a um só tempo, a originalidade da cultura nordestina e a elegância de seu estilo musical. São desse disco clássicos como Morena Tropicana, Cavalo de Pau, Como dois animais e Pelas ruas que andei.

Sem tirar o pé do acelerador, Alceu emendou o sucesso de Cavalo de Pau com outro disco icônico: Anjo Avesso. Apenas um ano depois, Alceu lançaria aquela que talvez seja a sua música mais conhecida: Anunciação.

Mas nem só de anos 80 viveu Alceu Valença. No começo da década seguinte, já como um consagrado cantor e compositor da música popular brasileira, o artista pernambucano lançou um dos seus melhores discos: 7 desejos. Compunham o álbum sucessos como Tesoura do Desejo (com Zizi Possi), La belle du jour e, claro, a canção-hino do Brasil naquele negro período Collor: Tomara.

Depois disso, a produção individual de Alceu Valença caiu um pouco, mas nem por isso ele ficou menor. Só a participação no inesquecível O Grande Encontro já valeria, por si só, a história de uma vida.

Fica, portanto, o convite para que você conheça um pouco mais a obra desse grande artista pernambucano. É satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

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Trilha sonora do momento

Chuva em dezembro por aqui é novidade.

Sendo assim, vamos de Supertramp para aliviar a parada…

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Pensamento do dia

Estatisticamente, 100% das pessoas falam da boca pra fora.

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