Pela segunda vez em dois meses, o Presidente Lula foi internado para tratar de uma lesão sofrida na cabeça. Ninguém até agora entendeu direito como foi a dinâmica do acidente, mas é certo que ele atingiu a região occipital do crânio, mais popularmente conhecida como nuca. Da queda resultaram cinco pontos e uma cicatriz na cabeça.
Se Lula fosse apenas mais um velhinho de 79 anos, não seria nada de mais. Infelizmente, as quedas em idosos dessa idade são bastante comuns e, tanto quanto problemas respiratórios ou gastrointestinais, são as maiores responsáveis pela morte nessa idade. Quando não matam diretamente, por vezes as sequelas acabam resultando em agravamento posterior do quadro. É o que ocorre, por exemplo, com lesões que fraturam a cabeça do fêmur, de cujo pós-operatório muitos idosos não retornam.
Mas Lula não é somente mais um octogenário. Ele é o Presidente da República. E não qualquer Presidente da República, senão um sujeito que foi eleito três vezes para o cargo e encarna como nenhum outro a idéia de esquerda no país. Como se isso não bastasse, goste-se ou não dele, Lula foi o responsável por impedir a reeleição de Bolsonaro, o que jogaria o Brasil numa segunda Era das Trevas, provavelmente em um simulacro de democracia que duraria 20 anos, como foi a última ditadura militar. A responsabilidade que recai sobre seus ombros, portanto, é gigantesca.
Sabendo disso, parece no mínimo temerário o modo com o qual governo tratou essa segunda internação de Lula. Nesse tipo de situação, jogar aberto é sempre a melhor alternativa. Voluntariamente, escondeu-se o quadro de saúde do Presidente até que vazasse a informação de que ele havia sido transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
Para piorar, depois de terem avisado que tudo correra bem na cirurgia de emergência, o país descobriu sobressaltado que Lula faria uma nova cirurgia. Dessa vez, para cauterizar uma artéria e impedir a recidiva de sangramento na região em que ocorrera a lesão. Segundo os próprios médicos, tal procedimento já estava previsto e não implica maiores riscos para o paciente.
Beleza. Se é assim, por que não foi informado isso logo após a primeira cirurgia? E por que, com o Presidente internado na UTI, o cargo não foi transmitido ao seu vice, Geraldo Alckmin?
A forma atabalhoada com a qual tudo foi feito dá margem a interpretação de que o governo não confia no seu vice. Isso seria uma rematada tolice. Ainda que possa existir algum trauma pela forma através da qual Michel Temer operou para derrubar Dilma Rousseff, Alckmin definitivamente não é Temer. É um político leal, absolutamente cioso das responsabilidades que lhe incubem como substituto do titular. A última coisa que se esperaria dele seria aproveitar esse episódio para destronar Lula do posto.
Esse episódio, contudo, força a antecipação do debate sobre o destino do país nas próximas eleições presidenciais. Se no pleito de 2022 a grande briga da nossa geração foi garantir que Bolsonaro perdesse e que seu sucessor assumisse o cargo – o que, apesar do 8 de janeiro, foi conseguido com sucesso -, em 2026 a luta vai ser impedir que vença um candidato apoiado pelos Bolsonaro ou, ainda que não seja apoiado diretamente por eles, esteja disposto a anistiar os golpistas todos em prol de uma suposta “pacificação” do país.
Nesse sentido, o exemplo que vem dos Estados Unidos não poderia ser mais claro. Joe Biden foi, em 2020, o que Lula foi para nós em 2022. Mesmo assim, quatro anos depois, com um governo impopular e com suas faculdades mentais sob questionamento, Biden foi defenestrado da corrida presidencial na undécima hora. Sua substituta, Kamala Harris, não teve tempo hábil para construir uma plataforma de campanha que impedisse a vitória do Laranjão.
Lula não é Biden, nem em termos de popularidade, nem em termos de capacidade mental. Entretanto, não parece ser um risco negligenciável chegarmos a 2026 com uma economia em frangalhos – o Banco Central e o pessoal de “o mercado” parecem firmes em detonar tudo com essa alta insana de juros -, talvez em recessão, certamente com desemprego em alta. São fatores que detonam o potencial eleitoral de qualquer incumbente. Se somarmos a isso eventuais questionamentos sobre a saúde do candidato, teremos uma reprise do “cenário Biden”, por mais que Bolsonaro permaneça inelegível.
O pior que pode acontecer nesse cenário seria Lula continuar no cargo e começar a experimentar um declínio na sua saúde, tanto física quanto mental. Por mais que se queira esconder essa circunstância, uma hora ela explode, como aconteceu após o primeiro debate de Trump contra Biden. E aí poderá ser tarde demais para construir uma alternativa eleitoral viável para impedir o retorno da extrema-direita ao Planalto.
Sabendo disso, o pessoal da cozinha do Planalto e os próceres petistas mais chegados ao Presidente deveriam começar a se vacinar contra essa possibilidade. Caso Lula esteja de fato com a saúde em dia e as consequências da sua queda se limitem a essa internação de agora, muito bem; vida que segue. Mas, se houver dúvidas sinceras sobre a evolução do seu estado de saúde daqui até 2026, a hipótese de ele renunciar em prol do seu vice deve começar a ser tomada a sério.
Um eventual acordo de bastidores poderia girar em torno da promessa de Alckmin cumprir apenas um mandato e apoiar Fernando Haddad em 2030. Saindo de cena, Lula ainda permaneceria como grande babalorixá do seu campo, aquele a quem todos acorrem nas piores crises, mas sem carregar o ônus e o desgaste da labuta presidencial. Em suma, Lula só participaria dos lucros, não dos prejuízos.
Evidentemente, também esse cenário envolve riscos. Ninguém sabe ao certo como seria um eventual governo Alckmin, nem muito menos como ele iria tourear os diversos interesses em conflito no governo, inclusive dentro do próprio PT. Ainda assim, esse cenário parece menos arriscado do que o cenário Biden, ainda mais se o país chegar em crise econômica em 2026, como está a se desenhar.
Seja como for, o que se coloca agora são basicamente três hipóteses para Lula:
1) Fica tudo bem, ele parte para a reeleição e ganha um quarto mandato do povo. Lula se torna definitivamente o maior político brasileiro de toda a história republicana;
2) Bem ou mal, ele renuncia e deixa Alckmin na linha de frente do governo e passa a atuar nos bastidores pela vitória em 2026. Lula será eternamente lembrado como o sujeito com desprendimento suficiente para colocar o futuro do país acima de seus interesses pessoais;
ou
3) Ele permanece no governo, com a saúde física e mental deteriorada, e perde a eleição para um Bolsonaro ou um proxy dele. Nesse caso, Lula ficará para a posteridade como um Biden brasileiro, que permitiu o retorno do neofascismo por uma questão de ego ou por mero apego ao poder.
Seja lá o que acontecer, Lula terá garantido seu lugar na história. A questão, agora, é saber qual será esse lugar.