Pensamento do dia

O pior tipo de tristeza é aquela que não conseguimos explicar.

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Recordar é viver: “O conclave de 2013”

E já que estamos em tempe sede vacante, vamos recordar um post do último conclave, quando se analisou os rituais papalinos e essas figuras controversas chamadas de “vaticanistas”.

É o que você vai entender, lendo.

O conclave de 2013

Publicado originalmente em 11.3.13

Desde que Joseph Ratzinger avisou ao mundo que abandonaria o trono papal, o distinto público tem sido bombardeado por uma espécie estranha de jornalista denominados “vaticanistas”. Primus inter pares, os vaticanistas supostamente se diferenciam dos demais jornalistas pelo fato de terem por ofício se dedicarem unicamente à cobertura do noticiário da Santa Sé. E, assim como os demais, os vaticanistas têm distribuído seus chutes quanto à eleição do novo papa. Não sei por que cargas d’água, seus vaticínios ganham a aura oracular, como se o Espírito Santo falasse por meio deles, e não pelos próprios cardeais que se reunirão no conclave.

Antes que você perca tempo lendo o que essas figuras dizem ou escrevem, convém saber que a história recente dos conclaves dá-lhes uma confiabilidade equivalente ao jogo de cara e coroa. Nos últimos seis conclaves, três favoritos levaram (Pio XII, Paulo VI e Bento XVI) e três zebras deram as caras (João XXIII, João Paulo I e João Paulo II). Portanto, qualquer análise acerca do resultado da próxima reunião equivale a jogar a moeda pra cima. Tanto pode cair para um lado como para o outro.

O que pouca gente entende é que um conclave não é uma eleição como qualquer outra. Fora a liturgia e o fato de que, segundo a crença, quem escolhe o papa é o Espírito Santo, as regras da escolha impõem uma dinâmica toda particular ao ritual. A análise de dois dos últimos conclaves do qual saíram zebras pode dar-vos uma certa idéia do que pretendo dizer.

Em 1958, havia entre os papabili dois conservadores – Giuseppe Siri e Alfredo Otavianni – e dois progressistas – Grégoire Pierre e Giovanni Batista Montini.  Depois de um longo reinado conservador de Pio XII, os cardeais queriam alguém mais simpático para falar às multidões. Após cinco votações, Montini, que nem cardeal era, recebera algo como quarenta votos. Era o suficiente para lhe dar a primazia, mas insuficiente para elegê-lo papa. Como os conservadores bateram o pé e se negaram a dar-lhe o restante dos votos necessários para sagrar-se papa sem antes passar pela túnica vermelha, as duas alas entraram em acordo. Ambas queriam um papa de transição, mas por razões diferentes. Os progressistas, para esperar  até Montini ser alçado a cardeal. Os conservadores, para que lhes permitisse reaglutinar forças para um próximo embate em breve.

Depois de quatro dias e onze votações, Angelo Giuseppe Roncalli se tornaria João XXIII. Ninguém apostaria que o Patriarca de Veneza, um homem humilde e modesto, faria mais do que esquentar a cadeira para o próximo papa. Cumprindo o acordo que se firmara na eleição, a primeira coisa que fez foi nomear Montini cardeal (e ele efetivamente veio a sucedê-lo, como Paulo VI). A segunda foi convocar o concílio Vaticano II. Pois aquele papa que fora eleito apenas até que se escolhesse efetivamente alguém para ocupar a cadeira produziu a maior revolução da história da igreja moderna.

Em outubro de 1978, os mesmos cardeais que elegeram João Paulo I voltaram a se reunir muito antes do esperado. A ala conservadora – liderada novamente por Giuseppe Siri – enfrentava novamente os rivais progressistas – liderados por Angelo Benelli. Apenas três meses antes, o impasse entre as duas tinha levado à eleição de Albino Luciani. Agora, o impasse se repetia.

Após cinco votações, Benelli ficara a apenas nove votos de tornar-se papa. Reconhecendo-se batidos, os conservadores propuseram um acordo: dariam os votos restantes para Benelli e este, eleito, colocaria Siri como Secretário de Estado. Benelli refugou o acordo, dizendo que aquilo era obra do Coisa-ruim. É possível que Benelli acreditasse que conseguiria os votos restantes de uma forma ou de outra. É possível também que tenha acreditado que barganhar cargos na burocracia não condiziria com a liturgia eclesiástica. O mais provável é que tenha subestimado o radicalismo da ala conservadora.

Exaustos depois de tanta briga, os cardeais não italianos ficaram de saco cheio daquela disputa peninsular entre Gênova (Siri) e Florença (Benelli). Três votações depois, com apoio maciço dos prelados americanos e alemães, Karol Wojtyla seria eleito João Paulo II.

A surpresa com a eleição do primeiro papa não italiano foi tão grande que, assistindo novamente ao vídeo de sua eleição, é possível escutar naqueles dois segundos de silêncio após o anúncio do vencedor a multidão pensando: “Quem?!?”

Por isso, antes de acreditar nas predições dos vaticanistas, convém botar as barbas de molho. Afinal, ninguém sabe qual tipo de inspiração virá daqueles maravilhosos afrescos de Michelangelo.

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Trilha sonora do momento

Tô nessa vibe…

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Pensamento do dia

The truth is everyone is going to hurt you. You just have to find the ones worth suffering for.

By Bob Marley

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A despedida de Francisco, ou Para que lado vai a Igreja Católica?

É triste, mas é verdade.

Tendo trabalhado literalmente até o último dia de sua vida, o argentino Jorge Mario Bergoglio – que entrará para a história como primeiro Papa Francisco da Igreja Católica – nos deixou nesta semana. Parece até que a partida foi combinada com os céus, considerando que Francisco foi ao encontro do Senhor no dia seguinte à Páscoa, depois de uma aparição surpresa na Praça de São Pedro para saudar a multidão.

Nos doze anos de seu papado, Francisco a todo tempo serviu como verdadeiro testemunho da fé cristã. A recusa aos símbolos mais ostentatórios da sua condição de monarca – os trajes imperiais, o anel de ouro do Pescador, os imensos aposentos papais – eram apenas o exemplo mais emblemático daquele argentino forjado jesuíta, compromissado até a medula com a defesa dos pobres e dos marginalizados. Ao contrário dos influencers da modernidade, Francisco não era uma imagem cuidadosamente manipulada para projetar o que não era. Pelo contrário. Até nas brincadeiras mais triviais – “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro” -, a mensagem que Francisco transmitia com suas ações pareciam reflexo exato do que aquela santa alma carregava por dentro.

Como esperado, os novos “hábitos” de Francisco não foram muito bem recebidos por uma burocracia eclesiástica acostumada desde sempre à pompa e à ostentação. Cada gesto de simplicidade do Papa parecia um tapa na cara da cultura de privilégios que a Cúria Romana cevou com bastante carinho por séculos de encastelamento dentro das fronteiras do Vaticano. “A Igreja não precisa de imperadores, mas de servos”, disse Francisco logo após assumir o trono de Pedro. Difícil engolir semelhante “doutrina” para quem se acostumara a rituais nababescos que fariam corar os antigos sheiks árabes.

Há uma lenda segundo a qual Stalin, numa reunião com o então ministro das relações exteriores da França, Pierre Laval, teria desdenhado dos poderes do Vaticano ao indagar: “Quantas divisões tem o Papa?” Oitenta anos depois desse suposto episódio, Francisco parece ter compreendido a exata dimensão desse “ensinamento”. Sem armas de verdade na mão, o Papa somente consegue se impor e projetar poder pela força do exemplo. Com sua personalidade cativante e seus hábitos literalmente franciscanos, Bergoglio parece ter sido o homem certo, no lugar certo, na hora certa. Se João Paulo II foi um peregrino incansável e Bento XVI um scholar com ares de filósofo, Francisco foi o responsável por resgatar a figura do Papa como uma autoridade moral no mundo, conferindo-lhe um prestígio que nenhum monarca secular jamais teria.

Com a força da sua imagem, o Papa não restringiu suas batalhas aos muros do Vaticano. Ficou famosa sua briga contra o muro erguido por Donald Trump na fronteira com o México, ainda em seu primeiro mandato. “Uma pessoa que quer construir muros e não pontes não pode ser dizer cristã”, atirou o Sumo Pontífice em direção ao Nero Laranja.

O “desplante” não passou despercebido pelo Laranjão. Logo depois de assumir neste mandato de agora, Trump nomeou como embaixador para a Santa Sé Brian Burch, presidente do grupo de advocacia política CatholicVote.org e um dos críticos mais ferrenhos ao “progressismo” de Francisco. O Papa, contudo, não se deu por achado. Nomeou como bispo de Washington Robert McElroy, notório defensor dos direitos dos imigrantes, alvo preferencial do Nero Laranja.

Como de hábito, à morte do Papa sucedeu o renascimento daquela curiosa figura da imprensa chamada de “vaticanista”. Variante italiana da nossa imprensa esportiva, os “vaticanistas” também são especializados em chutes. Já houve figura fazendo lista de papáveis com “apenas” vinte e dois nomes, com direito a mais seis “correndo por fora”. Isso é uma idiotice sem tamanho. Poucas coisas são mais difíceis de prever do que o resultado de um conclave. A máxima segundo a qual ” em um conclave, quem entra Papa sai cardeal” ensina há muito tempo que não há favoritos entre os prelados reunidos sob o teto da Capela Sistina.

Nem mesmo o fato de Francisco ter nomeado 108 dos atuais 135 cardeais aptos a votar é indicativo de coisa alguma. Bento XVI havia nomeado 67 dos 115 com direito a voto e o conclave de 2013 deu como resultado uma figura que poderia ser facilmente definida como oposição direta a ele. Pra piorar, Jorge Mario Bergoglio não figurava em praticamente nenhuma lista de papabili. Isso tudo para não falarmos do segundo conclave de 1978, quando um então desconhecido Karl Wojtyla quebrou uma sequência de meio milênio de papas italianos.

A fumaça branca da chaminé no topo da Sistina nos brindará com um papa que será uma continuação do legado de Francisco? Ou, ao contrário, elegerá um opositor a tudo que ele defendeu em vida?

Ninguém – além de Deus – sabe. Espera-se, apenas, que seu desejo de construir “uma Igreja pobre para os pobres” continue, seja quem for o escolhido pelo Sacro Colégio Cardinalício.

Oremos.

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Trilha sonora do momento

E, acreditem ou não, hoje é Dia do Samurai.

Sendo assim, vamos recorrer ao Menestrel das Alagoas, nesse clássico que tem a participação insólita e especial de Stevie Maravilha…

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Pensamento do dia

Existe uma antiga técnica indígena para prevenir o calor em dias quentes. Chama-se “preservar árvores”.

#FicaaDica

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Trilha sonora do momento

E já que hoje é Dia de São Jorge…

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Pensamento do dia

Devemos abraçar o que somos enquanto buscamos o que queremos ser.

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Como (não) fazer ciúmes à namorada

Marina sempre foi bonita. Nunca fez o tipo “mulherão”, até porque a altura não muito avantajada não lhe permitia sair por aí desfilando como uma dessas modelos de passarela. Mesmo assim, seu rosto era tecnicamente perfeito. Parecia uma boneca de porcelana desenhada pelas mãos de um Botticelli. Seu sorriso aberto conseguia hipnotizar mesmo os corações mais fechados. Não, o espelho nunca fez cara feia para Marina.

Carlo, por sua vez, era o oposto. Ou, por outra, não exatamente o oposto, mas não havia um atributo físico que se destacasse nele. Fazia o tipo do sujeito comum: altura comum, rosto comum, cabelo comum. Nem mesmo os olhos verdes eram capazes de fazer tremer nas pernas as gurias que lhe atravessassem o olhar. Se havia algo que era fora do comum em Carlo era a sua completa ausência de bunda. Não que ele tivesse algum transtorno físico ou algum problema médico, mas o vácuo de protuberância naquela porção das costas que fica entre a lombar e o posterior das coxas fazia com que seu perfil se assemelhasse ao de uma tábua de passar roupas andando sobre duas pernas.

Quis o destino, porém, que esse casal improvável se formasse. Por esses mistérios que só o coração pode explicar, Marina caiu de amores por Carlo. O contraste entre os dois andando de mãos dadas parecia o retrato em concreto da máxima segundo a qual “o amor é cego, mas os vizinhos não”. Marina continuava sendo observada e desejada pelos garotos da vizinhança, enquanto Carlo, no máximo, era objeto de curiosidade pelas meninas: “Mas o que foi que ela viu nele, afinal?”

Conhecedor das circunstâncias, Carlo ficava de certa forma com a autoestima em xeque. Para “compensar” a avareza com que a natureza lhe presenteara de anatomia, aproveitava cada oportunidade que tinha para provocar ciúmes em Marina. Segundo ele pensava, a melhor defesa era o ataque. Logo, se ela sentisse ciúmes dele, ele não precisaria se preocupar em perdê-la para outro ser anatomicamente mais favorecido.

Marina, contudo, pouco se importava com as provocações de Carlo. Pelo contrário. Toda vez que ele tentava aplicar essa tática, Marina vinha do outro lado tirando de letra, com uma resposta na lata. Quando o namorado relatou-lhe que uma colega de trabalho havia se insinuado pra ele durante o cafezinho, Marina não hesitou em concluir:

“Que bom, amor. Ela pode então pedir aumento, já que ela está trabalhando de graça”.

Entretanto, Carlo não desistia. Como ambos quisessem ir a uma discoteca curtir os embalos de sábado à noite, Carlo decidiu que, dessa vez, deixaria Marina realmente com ciúmes. Sabe-se lá por quê, Carlo achou que seria uma boa idéia ir com uma daquelas causas strecht, cujo caimento se amolda aos membros inferiores do sujeito quase como uma segunda pele.

Se isso já pareceria ridículo em um sujeito, digamos, “anatomicamente normal”, imagina numa figura que não tinha bunda. Era como se o tronco emendasse com as pernas, transformando Carlo numa variante humana de um boneco de Playmobil. No meio da festa, Carlo pede licença a Marina para ir ao banheiro. Na volta, ele aplica o golpe:

“Amor, aconteceu uma coisa estranha. Não sei se eu deveria te dizer, mas uma mulher passou a mão na minha bunda”, disse Carlo, com ar meio sério.

“Como isso aconteceu?”, perguntou uma aturdida Marina.

“Pois é. Tá vendo como a discoteca tá lotada? Teve uma hora na fila do banheiro que tinha um monte de gente aglomerada. Aí eu senti uma mão passando na minha bunda. Quando olhei pra trás, era uma menina, que só fez sorrir pra mim”, tentou explicar Carlo.

“Foi mesmo? Pois eu quero saber onde é que está essa mulher!”, respondeu Marina, exclamando.

“Por quê, amor? Você vai bater nela? Não precisa ficar com ciúmes. Você sabe que eu sou só seu”, disse Carlo, quase deixando escapar um sorriso de satisfação entre os lábios.

“Não, não é isso”, falou Marina. “Eu quero saber como foi que ela conseguiu fazer esse movimento de pinça, pra passar a mão em algo que nem existe direito”.

Em seguida, ambos caíram na gargalhada.

E foi assim que Carlo nunca mais inventou de fazer ciúme para a namorada…

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