Recordar é viver: “A visita do Papa, ou Francisco mostra um rosto”

Escrito seis meses depois da posse de Francisco, esse post da década passada retrata o que viria a ser o papado de Jorge Mario Bergoglio.

É o que você vai entender, lendo.

A visita do Papa, ou Francisco mostra um rosto

Publicado originalmente em 29.7.13

Depois de uns 10 dias de catarse coletiva às margens da belíssima praia de Copacabana, o papa Francisco se despediu das terras brasileiras. Deixou para trás uma legião de fiéis e seguidores encantados pelo modo simples e simpático com o qual se portou tanto nas aparições públicas como nas privadas. Tudo isso e mais o fato de nunca ter havido tamanha comoção pela visita de um argentino a terras brasileiras.

Poderia aqui desancar a organização do evento e a total incapacidade do Rio – e, de resto, do Brasil como um todo – para sediar eventos dessa magnitude. Se o bordão “Imagina na Copa…” já assusta quem tem um mínimo de senso, “Imagina nas Olimpíadas…” é capaz de tirar o sono de quem consegue antever quantidade semelhante de pessoas reunidas em uma só cidade por um mês inteiro (a Jornada Mundial da Juventude durou metade disso). No entanto, meu interesse aqui é outro. É mostrar que, do ponto de vista religioso, Jorge Mario Bergoglio finalmente começou seu pontificado.

Eleito em março passado, Bergoglio era um ilustre desconhecido para a maioria dos católicos. Salvo os argentinos que o viam às turras com os Kirchner, pouca gente tomara conhecimento da existência desse prelado portenho. Assim como Karol Wojtyla em 1978, a multidão na Praça de São Pedro respondeu ao anúncio de Habemus Papam com sonoros 2 segundos de silêncio, nos quais era possível ouvir os pensamentos dos fiéis: “Quem?!?”

Já na sacada da Basílica de São Pedro, Bergoglio deu duas importantes indicações do que viria a ser o seu mandato. Primeiro, o bom humor, ao mencionar que o colégio cardinalício fora buscar um papa “quase no fim do mundo”. Segundo, a humildade de quem reconhece as limitações de sua condição terrena ao pedir à multidão: “Orem por mim”.

Pouco a pouco, Jorge Mario Bergoglio foi sendo descoberto pela mídia e pelos católicos. Recusou-se a ter a conta do hotel paga pela Santa Sé. Abdicou da cruz e do anel de ouro, assim como todos os paramentos monárquicos que dão ao Bispo de Roma a condição de Chefe de Estado do Vaticano. E renunciou aos aposentos papais, preferindo hospedar-se no Ospizio Santa Marta.

Até aí, os gestos de Jorge Mario Bergoglio conferiam-lhe um ar simples e despojado que atraía simpatia, mas que não ia além disso. Afinal, Bergoglio não fora eleito para ser simpático, mas, como disse o Arcebispo de Viena Christoph Schönborn, para “fazer a faxina” que precisava ser feita.

De início, o pontificado não pareceu muito alentador. Afinal, o tão criticado cardeal Tarcisio Bertone permaneceu na Secretaria de Estado do Vaticano. E, com ele por lá, poderia se esperar muita coisa, menos mudanças.

Mas Bergoglio é infinitamente mais astuto do que este que vos escreve. Provavelmente, deve ter intuído que não faria bem à imagem da Igreja um papa que “chegasse chegando”, batendo o pé na porta. Era preferível tomar pé da situação e arquitetar uma forma de transição menos traumática a simplesmente tocar o terror na Cúria Romana.

Bertone não foi destituído, mas, hoje, sobrevive empalhado. Da outrora toda-poderosa Secretaria de Estado do Vaticano, não se ouve falar há bastante tempo. Todas as atenções se voltam para duas comissões nomeadas pessoalmente pelo papa: uma, para cuidar da reforma da Cúria Romana; outra, para tratar da maior dor-de-cabeça dos papas de todas as épocas, o Instituto para as Obras da Religião, ou, como é mais conhecido, o Banco do Vaticano.

Na entrevista concedida ao repórter Gérson Camarotti e em todos os discursos realizados, ao público e aos membros do clero, Bergoglio mostra uma clareza de raciocínio e uma firmeza de propósitos difíceis de se encontrar hoje em dia. Francisco parece ter a noção clara de que a Igreja perdeu a sua autoridade moral no mundo e, para reconquistá-la, deve abandonar as pretensões seculares escondidas por trás de palácios suntuosos, carros de luxo e paramentos medievais. Para voltar a ser o que era, a Igreja precisa descobrir-se pobre. Mais do que isso. Deve abraçar a pobreza ao mesmo tempo em que a combate, pois não há como haver conforto espiritual para quem passa fome. Esse foi mais ou menos o sentido do sermão que Bergoglio deu aos bispos latino-americanos.

Francisco também tocou em um ponto muito importante para a Igreja: a perda de fiéis. Mais uma vez, Bergoglio mostra ter a exata dimensão de que o abandono da Igreja pelas pessoas se dá menos por questões doutrinárias e mais pela falta de presença física de membros do clero na comunidade. A questão é fundamentalmente esta: as pessoas precisam de conforto espiritual. Se não o encontram no catolicismo – porque a igreja da cidade não tem padre -, vão buscá-lo em outras religiões. O exemplo da mulher de Buenos Aires citado pelo Papa ilustre bem essa realidade.

Bergoglio tampouco fugiu das polêmicas. Assoprou a Cúria, ao dizer que nela há “muitos homens santos”. Mas a mordeu em seguida, ao citar o penúltimo escândalo de lavagem de dinheiro no IOR. Afirmou claramente que o monsenhor envolvido no caso “obrou mal” e, portanto, deve ser punido. Para quem estava acostumado a ver as malfeitorias do Banco do Vaticano jogadas para debaixo do tapete e protegidas pela extraterritorialidade vaticana (como no caso do Monsenhor Paul Marcinkus), trata-se de uma mudança radical.

Menos de seis meses depois de assumir, Francisco já disse a que veio. Fica claro que carregar a própria mala ao avião e dispensar as mordomias do Vaticano não são exageros de uma personalidade excêntrica, mas antes um plano de governo. O rosto que o Papa apresenta não é somente o do portenho culto e simpático que anda pela cidade de carro popular, com os vidros abaixados. É o do jesuíta com uma idéia na cabeça e a Bíblia nas mãos. Com a faca nos dentes, Francisco exibe a face de quem parece pronto para enfrentar qualquer parada.

Vida longa ao Papa.

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Trilha sonora do momento

Uma breve homenagem à Nana Caymmi, que deixou este plano da existência.

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Pensamento do dia

Em regra, chamamos de destino as besteiras que cometemos.

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A função econômica da Previdência, ou Por que termos um sistema de aposentadoria público?

Com o escândalo dos descontos da aposentadoria no ar, talvez seja uma boa hora para abordar um tema que, depois de tantos anos, nunca foi abordado propriamente no Blog: a função econômica da Previdência. No fundo, trata-se de responder a uma simples pergunta: por que é vantajoso para os países construir um sistema de seguridade social que garanta uma aposentadoria os trabalhadores na velhice?

Muita gente defende, sem compreender inteiramente, sistemas como o chileno ou o chinês. No Chile, por exemplo, vigora um sistema de capitalização. Ao contrário do Brasil, onde existe um sistema de repartição (os trabalhadores da ativa contribuem para pagar os proventos de quem já se aposentou), lá vigora a lei do “cada um cuida do seu”. Cada cidadão faz uma poupança para si mesmo e, ao atingir os requisitos para gozar do benefício, passa a gozar da aposentadoria de acordo com o que contribuiu. Existem algumas exceções, mas, regra geral, esse é o modelo.

Na China “comunista”, o esquema é ainda mais radical. Simplesmente não existe sistema de aposentadoria pública. Se o sujeito guardou dinheiro na fase produtiva, beleza. Se não, lascou-se. Não por acaso, a China exibe uma das maiores taxas de poupança interna do mundo (45% do PIB, quase o dobro do Japão, por exemplo). Ninguém quer ficar velho e morrer de fome.

Mas como a organização de um sistema de previdência pública ajuda a dinamizar a economia? Não significa só mais gastos para o Governo e, portanto, para todo mundo ?

À primeira vista, a resposta parece óbvia. Se houver um sistema de previdência pública, o Governo vai gastar mais. Gastando mais, alguém terá que cobrir essa conta. Como o Governo não sobrevive só de imprimir dinheiro (o que causa inflação), essa grana tem de vir dos pagadores de impostos. Logo, seria melhor deixar cada um cuidando da sua reserva para a velhice. À segunda vista, porém, a coisa é bem mais complicada do que parece.

Imagine acordar um dia e descobrir que, além de pagar contas, trabalhar e planejar férias, você também precisa guardar uma fortuna para não passar fome depois dos 60 ou 70 anos. Assustador? Pois é. A previdência pública existe, portanto, para evitar que a terceira idade se transforme em um reality show de sobrevivência. É ela que permite transformar um futuro incerto em um plano de pagamento fixo. Saber que, mesmo após os 60 ou 65 anos, você receberá um salário mensal é como ter um seguro contra a síndrome do “E se eu viver até os 100?”. Sem esse sistema, as pessoas seriam obrigadas a guardar cada centavo como se estivessem preparando um bunker para o apocalipse zumbi. Resultado? Ninguém gastaria dinheiro em nada além de arroz, feijão e latas de sardinha.

É justamente por isso que organizar um sistema de previdência pública dinamiza a economia. Quando as pessoas têm segurança, elas consomem mais. Em vez de enterrar dinheiro no jardim (ou em investimentos ultraconservadores), elas compram geladeiras, viajam, frequentem restaurantes e dão presentes aos entes queridos. Essa movimentação financeira mantém empresas ativas, gera empregos e faz a economia girar.

Para além disso, os aposentados configuram peça-chave na economia. Graças à aposentadoria pública, milhões de idosos nas pequenas cidades do interior mantêm, além do poder de compra, a economia dos municípios menores rodando. Isso significa que farmácias, planos de saúde, mercadinhos e até cinemas continuam recebendo clientes fiéis.

Sem a previdência, muitos idosos dependeriam exclusivamente da família, sobrecarregando os orçamentos domésticos de quem também deveria usar o dinheiro para consumir. Em vez de comprar gastar grana com a educação dos filhos, eles estariam pagando conta de remédio. Em vez de gastar com lazer ou viagens, estariam preocupados em estocar recursos para fazer frente às necessidades dos pais. A previdência pública, portanto, funciona como um “divisor de águas” econômico: ela libera gerações mais jovens para gastar com outras coisas, enquanto “salva” a geração anterior da miséria.

Em resumo, a previdência pública não é só um salva-vidas para idosos; é um motor econômico. Ela transforma o medo do futuro em consumo no presente, reduz custos sociais e distribui oportunidades. Claro, como todo sistema, esse também precisa de ajustes (ninguém quer trabalhar até os 75 anos ou ver o governo desperdiçar recursos). Mesmo assim, é muito melhor, tanto do ponto de vista social quanto econômico, ter uma previdência pública do prescindir dela. Isso, claro, não elide a responsabilidade de quem comete malfeitorias com o dinheiro dos velhinhos.

Isso, porém, é tema para outro post…

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Trilha sonora do momento

E já que estamos em tempo de conclave…

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Pensamento do dia

Quem você está se tornando é mais importante do que quem você já foi.

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Pânico merecido

“No mercado, você pode fazer de tudo, só não pode panicar”.

Eis o lema de onze em cada dez traders que pagam de influencers nas redes anti-sociais. O mandamento nem chega a ser ruim. Afinal, decisões tomadas de cabeça quente dificilmente levam a coisa boa. E quanto tem dinheiro envolvido, então, é que a porca realmente entorta o rabo.

Otávio, contudo, sempre fez pouco caso do conselho. Seu negócio era operar alavancado. A alavancagem, para quem não sabe, permite que o sujeito opere um volume muito maior do que ele dispõe em carteira. Com um mini-contrato de dólar, por exemplo, você consegue montar uma posição equivalente a US$ 10 mil. Com o dólar a quase R$ 6, isso significa que o sujeito toma um risco equivalente a R$ 60 mil. Para negociar esse tipo de contrato em esquema de day trade – isto é, comprar e vender no mesmo dia – as corretoras costumam exigir garantias ridículas, algo como R$ 100 reais de patrimônio somente.

Por que alguém faz isso?

Bom, com os valores acima, se o sujeito compra um mini-contrato de dólar com a cotação a R$ 6 e ela vai a R$ 7, ele embolsa a bagatela de R$ 10 mil, Como variações desse nível são difíceis e demoradas, quem está em busca de dinheiro rápido e fácil multiplica a quantidade de contratos. Com 100 mini-contratos, por exemplo, o sujeito ganha os mesmos R$ 10 mil caso a cotação avance um mísero centavo. Nem é necessário dizer que, caso a operação vá na mão contrária, o sujeito perde o mesmo valor pra banca. Caveat emptor (o risco é de quem compra), diriam os romanos.

Ao contrário de Otávio, Luiz Fernando fazia o gênero mais comedido. Ressabiado e desconfiado dos lucros do papelório, rejeitava qualquer forma de alavancagem. Seu esquema era crescer um pouquinho por dia, mas sempre na mesma direção. Para isso, fazia o que a galera do mercado chama de “análise fundamentalista”. Lia balanços, estudava cenários, analisava o contexto macroeconômico, etc. Era do tipo que não abria nem a mão (por hábito), nem a guarda (por temperamento).

Amigos de faculdade, Otávio e Luiz Fernando de vez em quando costumavam trocar idéias sobre investimento. Com duas linhas de atuação tão diferentes, era difícil que houvesse concordância em alguma coisa. Mesmo assim, eles se falavam com frequência, com Otávio sempre tentando convencer Luiz Fernando a embarcar na aventura:

“Avalancar é como andar de skate em montanha-russa, Luiz Fernando. Se você não cair, é lindo!”, costumava brincar um sempre bem-humorado Otávio.

Numa determinada manhã, porém, Otávio estava especialmente eufórico. Descobrira um novo tipo de derivativo: contrato futuro de café. O sujeito nem sequer tomava café, mas estava certo de que o gráfico estava dando sinal de que ia subir que nem foguete. Luiz Fernando ainda tentou argumentar contra, lembrando de quando Otávio confundira o ticker de Cosan (CSAN3) com o de CSN (CSNA3) e quase teve que vender um rim para cobrir a margem na operadora. O apelo, contudo, foi em vão.

“Coloca pelo menos um stop na operação, Otávio…”, disse um preocupado Luiz Fernando.

“Stop é para os fracos!”, rejeitou Otávio de plano a sugestão.

Por óbvio, aconteceu o esperado. Aliás, aconteceu o inesperado. Não só o café não subiu, como havia previsto Otávio, mas despencou 5% em apenas uma hora. Com um lote gigantesco de contratos na mão, os R$ 20 mil que a figura tinha na corretora foram reduzidos a ridículos R$ 2,75. Ironicamente, o saldo na conta não era o suficiente nem para comprar um cafezinho na bodega da esquina.

“E agora?!?”, perguntou um desesperado Otávio ao amigo Luiz Fernando.

Luiz Fernando foi breve, porém certeiro:

“Agora é hora de panicar, Otávio. Você fez por merecer”.

E foi assim que Otávio descobriu que existe merecimento mesmo nos momentos de pânico…

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Trilha sonora do momento

Tô nessa vibe. Literalmente.

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Pensamento do dia

O inconformismo é o primeiro passo para a evolução de uma pessoa.

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Trilha sonora do momento

Fato.

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