Pensamento do dia

E que fique muito mal explicado

Não faço força para ser entendido

Quem faz sentido é soldado.

By Mário Quintana

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A tragédia da Covid sob uma perspectiva econômica

Muito já se escreveu, inclusive neste espaço, sobre a questão da pandemia de Covid-19. Invariavelmente, as análises se dão ou pela ótica do impacto que a doença provoca nos mecanismos internos de poder – pode me chamar de “Política Nacional” -, ou então sob as respostas que os estudos técnicos sugerem para algumas das muitas dúvidas que rondam o agora famoso coronavírus – pode me chamar de “Ciência”. Curiosamente, no entanto, poucos são os escritos sobre a perspectiva econômica dessa tragédia que ora vivenciamos todos os dias.

Claro, claro, desde o início a Economia é um dos aspectos que os analistas comentam quando falam dos impactos que a pandemia provocou no mundo. Todavia, quase sempre essas análises se restringem aos efeitos mais imediatos que a Covid provoca no ambiente econômico. Por exemplo: se houver lockdown, diminuirão as vendas do varejo; logo, cairá a arrecadação de impostos, lojas fecharão e aumentará o desemprego. Aliás, é muito por causa disso que tanta gente – inclusive gente muito poderosa – insiste na tal “dicotomia saúde x economia”. Contudo, quase ninguém parou ainda pra pensar no tamanho do desastre imposto pela morte maciça de cidadãos decorrente dessa maldita doença.

Deixemos de lado, por ora, o óbvio impacto social/humano que cada morte representa em um grupo familiar individual. Todo ser humano que parte deixa para trás não só a vida que levava, mas toda uma teia de relações construídas pelo afeto, que simplesmente ficarão na memória daqueles que ficaram. Sob esse prisma, dinheiro nenhum do mundo poderá suprir a lacuna deixada por quem se foi.

Mesmo assim, o drama não pára por aí. Para além do luto familiar, cada morte significa, em si, um impacto econômico grave, impacto este que pode ser quantificado. Quando um ser humano se vai, não morre apenas a pessoa, mas também o profissional, o sujeito que passou a vida inteira estudando e/ou trabalhando para dominar um ofício, e que dele tirava o pão para colocar em sua mesa.

Há, evidentemente, os casos óbvios. A morte de um pai ou de uma mãe que sejam arrimo de família, por exemplo, traz consigo não somente o luto, mas a possibilidade imediata de lançar-se todos aqueles que dele dependiam diretamente na pobreza. Como são pouquíssimas as famílias brasileiras que dispõem de alguma reserva de emergência ou mesmo um seguro de vida contra tragédias desse tipo, não há sequer remédio para mitigar a situação a curto prazo.

Mas os casos óbvios estão longe de serem os únicos. Imagine-se, por exemplo, um cidadão solteiro, sem mulher ou filhos, cujos pais não dependem dele para seu sustento. À primeira vista, a morte desse sujeito traria uma repercussão econômica baixa, pois somente a renda que ele auferia deixaria de circular na economia.

À segunda vista, no entanto, verifica-se que a repercussão econômica é muito maior. Não só todo o tempo e dinheiro que o Estado – ou mesmo algum agente privado – investiu para formar aquele profissional desaparece junto com ele, como também vai-se para o outro plano o conhecimento que aquele cidadão juntou em vida para, dentro do seu ofício, pôr para funcionar a roda da economia.

Os mais cínicos (e desalmados) poderão alegar que, caso um borracheiro morra p. ex., o sistema econômico não sofrerá grande impacto. No entanto, transporte esse mesmo exemplo para um alto executivo de um grande conglomerado econômico e você poderá ver o tamanho da asneira que está pensando.

E esses nem são os exemplos mais gritantes. Imagine – bate na madeira! – por exemplo a morte de um grande esportista profissional, como Lionel Messi ou Roger Federer. É gente que representa não só a fortuna pessoal que amealhou em vida, mas que embute em cada evento do qual participa um potencial econômico muitas vezes difícil de ser mensurado. Ou alguém acha que a quantidade de gente que vai ao estádio ver ao vivo – ou mesmo assiste a uma partida pela TV – não é influenciada pela presença ou não desses feras em campo (ou na quadra)?

A suposta “dicotomia saúde x economia”, de resto uma falsidade desde sempre, ignora também, portanto, os danos que a Covid-19 está a causar a longo prazo no tecido econômico do país. Quanto mais gente morrer, maiores serão os danos sociais e maior ainda será a dificuldade para reerguer uma economia arrasada por essa guerra que estamos vivendo. Espera-se, apenas, que as autoridades e os agentes econômicos atentem para a necessidade de salvar o máximo de vidas o mais rapidamente possível. Do contrário, poderá ser tarde demais.

Literalmente…

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Trilha sonora do momento

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

To be old and wise, you must first have to be young and stupid.

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1 ano de Covid – Parte II, ou O tamanho do drama brasileiro

Há pouco mais de duas semana, foi escrito aqui no Blog um post para recordar o “aniversário” de um ano da pandemia de Covid-19. No entanto, o post de então apenas observou a questão sob uma ótica vulgar, isto é, de qual era a percepção do Brasil (e do mundo) sobre os 365 dias que se passaram desde que houve o primeiro diagnóstico de coronavírus no país.

Todavia, em momento algum foi analisada a questão sob a ótica científica. É dizer: sabemos que o Brasil – para usar uma linguagem bem cara ao mercado financeiro – “performou” muito mal neste ano que passou. Mas, do ponto de vista da Ciência, como estamos e o que esperar desses próximos 365 dias que se avizinham?

Que estamos mal, toda a gente sabe. Acabamos de bater mais um recorde de mortos diários, com a média móvel dos últimos 7 dias já tendo batido a casa dos dois mil óbitos. E, até o final de março, não será surpresa pra ninguém se as mortes diárias ultrapassarem a casa do terceiro milhar. Traduzindo os números em eventos concretos, isso significa mais ou menos um ataque terrorista equivalente ao 11 de setembro ocorrendo por dia no Brasil. Todos os dias.

Em que pese todas as evidências em sentido contrário, ainda há gente por aí a defender que “é isso mesmo”. Por essa ótica míope e deturpada, não importam as mortes aos milhares de pacientes em filas de UTIs, porque os hospitais não comportam mais a quantidade de doentes que se avoluma em seus leitos. A “idéia” é fazer todo mundo pegar a doença, porque, assim, atingiríamos a tal “imunidade de rebanho”, sem precisar adotar medidas drásticas, como o lockdown. Sem meias palavras, trata-se de rematada tolice.

Para além da falta de evidências científicas que amparem minimamente essa “tese”, o fato é que já estamos há mais ou menos um ano empregando algo muito parecido com isso. Manaus é o exemplo mais bem acabado dessa tragédia. Tendo sofrido o pior pandemônio do país na primeira onda ano passado, repetiu o drama neste ano de forma muito pior. Não só o sistema de saúde colapsou por completo, como, em determinado ponto, nem sequer oxigênio houve para fazer frente às necessidades dos internados. Houve, portanto, pessoas que morreram não por covid, mas literalmente sufocadas pela falta de ar nos respiradores.

Manaus também é o exemplo mais emblemático do quão estúpida é essa idéia de que “ah, deixa todo mundo pegar, que uma hora todo mundo fica imune”. Errado. Como se viu com a variante amazônica, o descontrole desenfreado da pandemia permite que um vírus altamente volátil circule livremente, aumento exponencialmente os riscos de mutação. Resultado: uma variante (P.1) que escapa aos anticorpos de quem já desenvolveu a doença anteriormente, permitindo uma nova infecção mais contagiosa e letal.

Exatamente por conta disso, nosso drama é muito pior do que a maioria das pessoas imagina. Muita gente boa está se fiando no fato de que, por mais vagaroso que seja nosso ritmo de vacinação, uma hora a vacina vai chegar e nós vamos conseguir sair dessa. Ocorre, no entanto, que, se nós não começarmos a controlar a pandemia desde já, é possível que surjam novas variantes que escapem não somente às defesas que o organismo já desenvolveu naqueles que foram infectados, mas até mesmo às defesas que as vacinas estimulam.

Loucura?

Muito pelo contrário. O que se está falando aqui já acontece na prática. Basta saber que a vacina da Johnson & Johnson demonstrou uma eficácia superior a 85% contra o coronavírus “original”, por assim dizer. A mesma vacina usada contra a variante sul-africana, no entanto, demonstrou uma eficácia de somente 55%. Isso não foi suficiente para invalidar a vacina como um todo, mas é o bastante para demonstrar o quão perigoso é deixar o vírus correr solto livremente e arriscar novas variantes que simplesmente inutilizem as vacinas que hoje existem no mundo.

E o problema não pára por aí. Mesmo vacinas reconhecidamente eficazes, como as da Pfizer ou as da Moderna, comprovaram todo o seu poder de ação com a aplicação em massa nas populações de alguns países, tais como Israel e Estados Unidos. Ocorre, no entanto, que ninguém sabe ainda por quanto tempo essas vacinas garantem imunidade. Uma vez que não transcorreu tempo suficiente para análises, essa é uma pergunta ainda sem resposta.

A vacina da gripe, por exemplo, tem que ser renovada anualmente. Se o mesmo ocorrer com as vacinas contra a Covid, isso pode significar que, quando estivermos terminando de vacinar a população em 2022, as primeiras pessoas que estão sendo vacinadas agora terão de tomar uma nova dose de vacina já no ano que vem. E isso, destaque-se, se o ritmo de vacinação tão lento não permitir que pessoas ainda não vacinadas entrem em contato com pessoas já vacinadas e, por alguma infelicidade do destino, dêem origem a uma nova cepa que escape completamente ao controle vacinal.

Nossa corrida pela vida, portanto, é também uma corrida contra o tempo.

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Trilha sonora do momento

Em resumo…

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Pensamento do dia

Pior do que perder o sono de noite é encontrá-lo pela manhã.

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A decisão de Fachin sobre Lula, ou A biruta do Supremo

Impedido por problemas técnicos de produzir a atualização semanal que este pequeno espaço da Internet demanda, hoje vamos a ele.

E as 24h de atraso, nesse caso, vieram bem a calhar. Não por conta da demora, que fique claro. Afinal, o respeito pela fidelidade dos diletos 93 seguidores deste espaço sempre foi uma marca do Dando a cara a tapa.

Na verdade, o transcurso de uma rotação completa da Terra sobre seu eixo permitiu de certa forma que os confetes e a espuma gerados ontem com o discurso de regresso de Luís Inácio Lula da Silva pudessem amainar a visão e permitir um esboço mais fidedigno da realidade. E aí a opção que se impunha a este que vos escreve era: deveríamos retomar, pela décima milionésima vez, a disputa entre Bolsonaro e Lula?

Quem acompanha o Blog está careca de saber qual a opinião do Autor sobre o assunto. Como o 1/3 governista do eleitorado não vai mudar de idéia, muito menos o 1/3 oposicionista (o que não tem nada a ver com dizer que ambos são politicamente equivalentes), restaria discutir pra onde vai o terço “isentão” do eleitorado, que costuma definir os pleitos nacionais desde pelo menos 1946. E essa galera não vai definir o voto senão na véspera da campanha do ano que vem.

Resta, então, falar sobre o quê?

Resta, talvez, falar sobre um dos aspectos mais relevantes de toda a celeuma que se passou no Brasil desde a última segunda-feira, quando o Ministro Edson Fachin resolveu, com uma canetada só, anular as decisões condenatórias de Lula. Resta discutir que tipo de responsabilidade recai sobre o Supremo Tribunal Federal pelo estado de coisas em que o país se encontra.

Deixando-se de lado, por ora, qualquer juízo de valor sobre o conteúdo das decisões do STF, os fatos são esses:

1 – Condenado por Sérgio Moro e tendo sua sentença confirmada pelo TRF-4 ainda no começo de 2018, Lula caiu nos mecanismos da Lei da Ficha Limpa e ficou de fora da corrida presidencial daquele ano. Desde o início, suscitava algum espanto o fato de Lula estar sendo julgado em Curitiba (PR), por um triplex situado no Guarujá (SP), recebido por conta de corrupções havidas na Petrobras (sediada no RJ), cujas negociatas teriam sido acertadas em Brasília (DF). Lula foi denunciado por esse caso em 2016. Foram necessários cinco anos para que o Supremo se desse conta da incompetência territorial de Sérgio Moro para julgar esse processo?

2 – Em 2018, pressionado por um tuíte do então Comandante do Exército, General Villas Boas, o STF negou habeas corpus a Lula, permitindo a prisão de condenados em segunda instância. Já fora da cédula, Lula ficou de fora também da campanha. Pior. Em determinado momento, Lula não podia sequer falar ao público externo, dado que o Ministro Luiz Fux – atropelando uma decisão do colega Ricardo Lewandowski -, proibiu até que jornalistas o entrevistassem na cadeia. A mordaça imposta ao ex-presidente foi revogada no ano seguinte, e a prisão, quase dois anos depois. Que tipo de prejuízo o Supremo causou à campanha de Fernando Haddad ao negar liberdade e voz ao seu principal cabo eleitoral?

3 – Desde junho de 2019, o escândalo da Vaza-Jato demonstrara a parcialidade com que Sérgio Moro conduziu os processos do ex-presidente da República. A suspeição do então todo-poderoso Ministro da Justiça de Jair Bolsonaro ficara patente até para um segundanista de Direito. No entanto, o habeas corpus que discutia essa tema foi engavetado por um “perdido de vista” do Ministro Gilmar Mendes, depois de dois votos contrários a Lula (Edson Fachin e Carmen Lúcia). Gilmar resolveu desengavetar o processo de súbito só nesta terça, um dia depois de Fachin anular as condenações de Lula. O que teria acontecido se o STF tivesse reconhecido desde então a evidente parcialidade do ex-juiz de Curitiba?

Independentemente da análise que se faça sobre cada um desses julgamentos, o fato é que todos eles evidenciam um Supremo que se guia muito mais pelo teor e pelas implicações políticas de suas decisões do que propriamente pela correta aplicação das normas legais que se ajustam ao caso. A mera constatação de que o vai-e-vem do STF poderia alterar radicalmente o cenário político do país caso tivesse decidido de outra forma demonstra que há algo de errado com a jurisdição constitucional nestas paragens.

Nunca se deve esquecer que, ao contrário dos políticos, que recebem sua legitimidade diretamente do povo, através do voto, os juízes não são eleitos. Enquanto a justificativa do poder dos representantes da Nação dá-se de forma apriorística, por meio do sufrágio, a legitimidade do poder dos juízes justifica-se a posteriori, com a fundamentação técnica de suas decisões. Por isso mesmo, quando se verifica que as mesmas normas podem ser levadas de um extremo a outro conforme a conveniência do intérprete, ou, mais especificamente, que tribunais podem mudar de entendimento sobre determinado assunto com a mesma naturalidade com que uma criança troca de fraldas, a confiança na Justiça como instância de poder vai pelo ralo.

Muito se diz – inclusive neste espaço – que os militares não devem se imiscuir em assuntos civis (assim como civis não devem se imiscuir em assuntos militares). E é verdade. A mistura do pessoal da caserna com a política nunca deu certo mundo afora e foi experimentada por pelo menos três vezes por aqui, com resultados conhecidos. Quem sabe, um dia, o país descubra que a mesma regra também deve ser observada pelos seus tribunais.

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Trilha sonora do momento

Autoexplicativo.

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Pensamento do dia

A pior coisa de ficar velho é que, quando você acha que já sabe tudo, começa a esquecer.

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