Recordar é viver: “Pacificar o quê?, ou O falso debate da anistia”

Com a aprovação dessa patuscada da dosimetria, vale a pena recordar um post de três meses atrás.

É o que você vai entender, lendo.

Pacificar o quê?, ou O falso debate da anistia

Publicado originalmente em 30.9.25

A mais nova piada que corre nos ares desérticos do Planalto Central é a história da “pacificação”. Suposta panacéia para todos os males nacionais, a tal da pacificação viria através da “anistia”. Por meio de um projeto de lei do Congresso, a idéia seria perdoar todos os golpistas do 8 de janeiro – inclusive a cúpula do golpe e seu beneficiário-mor, Jair Bolsonaro -, como se nada do que aconteceu e do que se descobriu até aqui tivesse acontecido. Vendida como remédio, a solução é veneno.

Pra começo de conversa, os defensores da “anistia ampla, geral e irrestrita” têm o dever de explicar o que é que se pretende pacificar exatamente com esse projeto. Por acaso o país está conflagrado? Estamos numa guerra civil fratricida, contando centenas de mortos por dia? Há greves ou desabastecimento generalizado? Há pelo menos piquetes nas ruas?

Não, nada disso. O país vive em sua mais plena normalidade democrática. Na verdade, a maior normalidade democrática de sua breve história de quarenta anos de redemocratização. Pela primeira vez desde a Proclamação da República, generais e civis golpistas foram às barras dos tribunais serem condenados por atentarem contra o Estado de Direito. As ruas permanecem tranquilas e, salvo o saudável exercício da democracia que terminou no enterro da PEC da Bandidagem, continuam quietas. Oficiais de quatro estrelas foram sentenciados a duas dezenas de anos de cadeia e não se ouviu sequer murmúrio vindo das Forças Armadas contra o STF.

Cadê o conflito? Cadê a confusão? Salvo as arruaças promovidas pela turma do dedo no c* e gritaria da extrema-direita congressual, não existe um único elemento sequer que autorize pensarmos numa anistia para “pacificar” o país. No final das contas, a “pacificação” não passa de um discurso fajuto destinado a passar pano para quem tentou, por meio da força. derrubar a ordem democrática após ter perdido a eleição. Para além de Bolsonaro e seus generais golpistas, a ninguém – absolutamente ninguém – interessa o perdão generalizado aos crimes que foram cometidos.

Ademais, discutir anistia nos termos em que estão sendo propostos é um acinte até mesmo a quem tem ojeriza à esquerda. Qualquer tipo de perdão tem de começar, necessariamente, com o reconhecimento da parte a ser perdoada de que errou. Em todos os casos e em todas as épocas que se decidiu pela anistia verdadeira, houve um processo de distensão entre dois lados que partiram para os extremos. Para promover uma reconciliação nacional, perdoam-se todos e vida que segue.

Aqui, não. Não há dois lados que se atacaram mutuamente, à margem da legalidade. O que há, de um lado, são terroristas bandidos que tentaram abolir o Estado de Direito e, do outro, um lado que simplesmente quer ver a lei aplicada. E o que é pior: os golpistas nem sequer reconhecem que tentaram um golpe de Estado. O que eles querem, no fundo, é somente a impunidade pelos crimes que cometeram. Como, então, cogitar-se de anistia?

Na verdade, o que existe é um balé de elefantes, no qual um liberticida mimado encontra-se em franco desespero por, pela primeira vez na vida, ver-se diante da possibilidade de responsabilização pelos seus atos; e, do outro, o Centrão dinheirista, interessado somente no cesto de votos que Bolsonaro tem para tentar eleger um tecnocrata que possa ser comandado pelo grupo a partir de 2027. O favorito dessa galera é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas eles topam fazer negócio pelo do Paraná, Ratinho Jr.

O problema, como foi antecipado aqui, é que falta combinar com os russos. Ou, mais especificamente, com os Florida Boys, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. Se o Centrão se arranjar com o chefe do clã, Dudu Bananinha já avisou que se lançará sozinho à presidência, liderando o que ele mesmo diz ser uma “linha mais ideológica”. Variante do Talibã, a extrema-direita “eduardista” pretende correr na faixa aberta por Paulo Marçal, canibalizando uma possível concorrência da “direita permitida”, expressa nas candidaturas de Tarcísio de Freitas ou Ratinho Jr.

O que fica claro, portanto, é que o único setor nacional que precisa de pacificação é a extrema-direita bolsonarista. Quanto ao resto do país, vai bem, obrigado.

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Trilha sonora do momento

The graduate.

Entendedores entenderão.

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Pensamento do dia

A decisão certa também dói.

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Trilha sonora do momento

Para quem foi para os Estados Unidos.

Pra nunca mais voltar, pelo visto…

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Pensamento do dia

Você não está cansado do que faz. Você está cansado de não saber por que faz.

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A palhaçada da dosimetria, ou A briga de foice no escuro da extrema-direita

Não tem outro nome para definir. Palhaçada é o que aconteceu no Senado com a votação do tal “PL da dosimetria”.

Substituto da já enterrada anistia aos golpistas do 8 de janeiro, esperava-se que o projeto de lei relatado pelo deputado Paulinho de Força fosse arquivado ou, pelo menos, melhorado no Senado. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Não só o texto não foi à gaveta, como o que de lá saiu continuou tão ruim quanto antes. Antes de explicar os pormenores do projeto, convém antes falar um pouco sobre o contexto no qual ele foi parido.

Sabendo o que fez nos verões passados, Jair Bolsonaro passou a defender, desde o fatídico 8 de janeiro, uma “anistia” para quem tinha tentado dar um golpe de Estado no país. De início, dizia-se que a passada de pano ficaria restrita aos bagres que depredaram as sedes dos três poderes naquele dia. Como ninguém acreditasse em tal marmota, algum tempo depois o próprio Jair fez verbalizar que a fuga da cadeia deveria incluir também o Alto-Comando do Golpe, inclusive e especialmente ele próprio. Do contrário, nada feito.

O problema é que não havia voto pra aprovar esse escárnio. Sem alternativas à mão, restou à família Bolsonaro recorrer à estratégia suicida de enviar o filho 03 do chefe do clã aos Estados Unidos. A idéia era que, com a providencial ajuda de Donald Trump, os Bolsonaro “sequestrassem” o país. O resgate, claro, seria a anistia para Jair e toda a sua trupe.

Como se viu depois, a “estratégia” de Dudu Bananinha deu com os burros n’água. Embora tenha conseguido inicialmente convencer o Laranjão a taxar os produtos do Brasil em 50% e sancionar Alexandre de Moraes com a Lei Magnitsky, a falta de efetividade do ataque norte-americano à nossa soberania obrigou o próprio Nero Laranja a corrigir o rumo da sua nau diplomática.

Com a inflação dos alimentos a corroer-lhe a popularidade e vendo que nenhuma dessas medidas implicaria uma mudança de regime do país, Trump achou melhor se acertar com Lula. Depois de terem se cruzado rapidamente na ONU no final de setembro – o suficiente para rolar uma “química” –, Lula e Trump trocaram telefonemas, se encontraram na Malásia e parecem ter acertado todos os ponteiros.

Hoje, a maior parte da pauta de exportação brasileira para os Estados Unidos está isenta ou, na pior das hipóteses, taxada em 10%, como todo o resto do planeta. As sanções contra Xandão e sua esposa já foram revogadas. Nos próximos meses, deve-se ter o restabelecimento pleno da relação entre os dois países.

A rapidez com que o castelo de cartas erguido por Bananinha desmoronou dá a exata medida da loucura que foi acreditar nessa “estratégia”. Em menos de três meses, o Laranjão deu o dito pelo não dito, lançou Bolsonaro ao mar e se tornou quase best buddy do presidente brasileiro. Uma mudança tão radical, em um espaço tão curto de tempo, mostra como Trump deve ter farejado que ficar abraçado com os Bolsonaro seria um mau negócio.

Sem os Estados Unidos para fazer o papel de “irmão mais velho”, restou aos Bolsonaro recorrer à estratégia do “homem-bomba”. Ou, mais especificamente, da “candidatura-bomba”. Com meio mundo do mercado financeiro e boa parte do Centrão articulando uma candidatura de Tarcísio de Freitas à presidência, Bolsonaro resolveu lançar seu filho Flávio como sucessor. Resultado: a bolsa derreteu e o dólar disparou.

Assim como no caso das sanções norte-americanas, a estratégia dos Bolsonaro agora é clara como água de bica: se o Centrão não desse um jeito de conseguir a anistia aos golpistas, Jair iria “explodir” o campo da direita. Com a candidatura de seu filho 01, o caminho para um eventual segundo turno contra Lula ano que vem estaria interditado. Tarcísio já avisara que não concorreria contra um Bolsonaro e, pior, as pesquisas depois do anúncio colocavam Flávio como candidato mais bem posicionado do que o governador paulista.  Logo, ou eles entregavam a anistia, ou iriam todos perder para Lula em 2026.

Como o Centrão pode ser tudo, menos bobo, saiu-se com a proposta da dosimetria para oferecer um doce à extrema-direita bolsonarista. A idéia era aprovar a redução das penas agora e, caso Tarcísio ganhasse ano que vem, se voltaria a discutir a anistia em 2027. A questão é que, como já foi alertado aqui, o projeto da dosimetria – tal como formulado – passa a mão na cabeça não só dos golpistas de 8 de janeiro, mas também de um monte de criminosos.

Fora isso, por trás desse balé de elefantes na sala, há uma verdadeira briga de foice no escuro entre o Centrão e os Bolsonaro. O Centrão quer os votos de Jair, mas não quer que ele lidere mais coisa alguma, já que ele é hoje o político mais rejeitado do país. As raposas do Centrão querem que Jair indique outra pessoa para sucedê-lo – necessariamente alguém de fora da família – para no momento seguinte passar-lhe a perna e tocar o barco sem as convulsões ideológicas e sociais que o bolsonarismo traz consigo.

Jair tanto sabe disso que até o momento se recusou a ceder à chantagem do Centrão. Quis uma espécie de “pagamento à vista” de um apoio a ser concedido a prazo. Daí o “sequestro” da candidatura da direita por Flávio Bolsonaro. Porém, o Centrão erra se acredita que o pagamento do “resgate” da dosimetria será suficiente para fazer com que Bolsonaro nomeie um sucessor escolhido pelo grupo. Bolsonaro não confiou sequer na mulher, Michelle, para essa tarefa (por isso escolheu seu filho mais velho). Por que haveria de confiar em alguém de fora da família para sucedê-lo (ainda mais alguém que pretende montar vôo solo)?

Mesmo que o Senado aprove essa palhaçada, Lula haverá de vetar pelo menos as partes do projeto que beneficiam diretamente Bolsonaro. Como o final de ano se avizinha, qualquer discussão sobre os vetos ficaria, na melhor das hipóteses, para depois do carnaval. E, claro, ainda haverá o julgamento sobre a constitucionalidade do troço na Supremo (spoiler: é inconstitucional). Para lançar Tarcísio a presidente, o Centrão precisaria que tudo estivesse arranjado até, no máximo, abril do ano que vem, quando termina o prazo para desincompatibilização do governador de São Paulo.

Vai dar tempo?

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Trilha sonora do momento

Vale tudo?

#ironiaON

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Pensamento do dia

Aquilo que causa a noite dentro de nós também pode deixar estrelas.

By Victor Hugo

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Trilha sonora do momento

Here we go again… :-/

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Pensamento do dia

Não vai acontecer do dia pra noite. Mas, se você desistir, não vai acontecer nunca.

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