Já se passou exata uma década e meia desde aquele hoje longíquo 18 de janeiro de 2011, quando este pequeno recanto da Internet veio à luz. Para quem, como eu, acreditava que a iniciativa não duraria mais do que duas semanas, é verdadeiramente espantoso ver que o Dando a cara a tapa agora é um jovem debutante.
O que mudou de lá pra cá?
Mudou o Brasil. Mudou a sociedade. Mudou a tecnologia. Mudou o mundo. Mudei eu mesmo, enfim. E chega a ser estranho olhar agora pelo espelho do retrovisor. Há uma certa ponta de inquietação ao não conseguir me enxergar completamente naquele jovem de quinze anos atrás. Foram tantas as mudanças – e elas foram tão profundas nesse período – que não será exagero dizer que a identidade do Blog também mudou em relação àquele início incerto e duvidoso. Os 150 leitores deste espaço, que acompanharam fielmente todas as transições do Dando a cara a tapa, haverão de concordar comigo quanto a esse diagnóstico.
De 2011 pra cá, o Blog acumulou quase 8 mil posts, distribuídos em 20 seções. 2.301 pessoas seguiram os conselhos deste que vos escreve e deram também a cara a tapa, deixando seus comentários por aqui. A audiência variou bastante ao longo destes quinze anos, mas já vamos nos aproximando da marca de 900 mil visitantes, patamar respeitável em épocas de TikTok e afins, especialmente para quem não faz propaganda de si mesmo e tampouco utiliza outras plataformas para divulgar este espaço.
Como de hábito, esta semana de comemorações contará com atualizações diárias. Nos próximos três dias, veremos o que o Blog espera para a economia, o Brasil e o mundo neste 2026 que se inicia.
Para quem depois de tanto tempo ainda vem por aqui de vez em quando gastar o seu precioso tempo para ler estas mal alinhavadas linhas, só me cabe deixar o meu sincero “muito obrigado”. Foi para vocês que este espaço foi criado.
Como de hábito, o Blog encontra-se no seu tradicional período de recesso de ano novo.
Com a graça do bom Deus, voltaremos às nossas atividades normais na semana do dia 18 de janeiro, para as comemorações dos 15 anos do Dando a cara a tapa.
Até lá, deixo-vos meu muito obrigado pela audiência e os votos de um 2026 melhor, mas muito melhor do que este 2025.
Que os Titãs são uma das maiores bandas de rock da história do país, ninguém discute. Que Arnaldo Antunes é um gênio da arte, tampouco é motivo de discussão. Mas quando a matéria é falar sobre uma música específica, aí o pau canta. E, nesse caso específico, talvez o Blog se arrisque mais do que o habitual ao cravar: é dos Titãs, pelas mãos de Arnaldo Antunes, que nasceu a canção sócio-filosófica mais profunda da Música Popular Brasileira: Comida.
Integrante do álbum Jesus não tem dentes no país dos banguelas, Comida também foi lançada como single em 1987, tal foi o sucesso que alcançou nas rádios. Mais do que uma mera crítica social, a música reflete uma obra filosoficamente densa, capaz de provocar uma reflexão profunda em quem se digna a prestar atenção na sua letra. Arnaldo Antunes começa a música já com uma voadora no meio dos peitos do ouvinte:
Bebida é água
Comida é pasto
Se à primeira vista o título poderia indicar a reivindicação de um direito básico de qualquer ser humano – alimentar-se -, não é preciso ser um grande literato para entender que, para Arnaldo Antunes, a existência humana não pode ser reduzida à mera sobrevivência biológica. Se fosse assim, bastaria – como basta para o gado – água e pasto. O buraco, para ele, é muito mais embaixo:
Você tem sede de quê?
Você tem fomo de quê?
Em um país recém-saído de uma atroz ditadura militar, Arnaldo Antunes começa a empilhar as verdadeiras necessidades do cidadão que enxergava a democracia com um misto de esperança e desolação:
A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte
Não seria exagero enxergar nessa enumeração de carências que transcende as necessidades orgânicas uma espécie de crítica à chamada “razão instrumental”, isto é, à lógica que reduz toda a existência humana a fins utilitários. Emulando um filósofo da Escola de Frankfurt, Arnaldo Antunes denuncia que, numa sociedade de consumo massificado, existe a necessidade de algo a mais do que uma vida na qual se trabalha para comprar comida, para poder manter-se vivo e trabalhar ainda mais. Essa perpetuação do nada conduz a um ciclo tão infinito quanto vazio. O ser humano não é – ou, pelo menos, não deveria ser – um animal cujo estômago domina plenamente suas ações.
A isso se segue o verso talvez mais radical e filosoficamente rico da canção:
A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer
Embora alguém possa enxergar um certo caráter hedonista na enumeração de atividades aparentemente fúteis, como bebida, diversão e balé, o ponto central aqui está em recusar a vida de subsistência para reclamar “a vida como a vida quer”. Trata-se de um verdadeiro manifesto no qual Arnaldo Antunes estabelece à la Nietzsche uma vida em que o desejo puro se sobrepõe a regras sociais e à moralidade repressora. Essa linha fica ainda mais evidente no verso seguinte, no qual o compositor diz:
A gente não quer só comer
A gente quer comer, quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer para aliviar a dor
Noves fora a evidente duplicidade de sentido estabelecida com o verbo “comer”, Arnaldo Antunes provoca o ouvinte a ir além da lascívia pura e simples do ato sexual. Também ele não pode ser reduzido à descarga hormonal da relação em si. É necessário ir além. Talvez o compositor não avance o suficiente para que se estabeleça um paralelo com o conceito de “vontade” de Schopenhauer, mas é razoável entender que ele define a premência de uma vida se amarras, autêntica, que não seja mero simulacro de regras preestabelecidas.
O último verso resume a crítica social de uma sociedade consumista, que é erguida e gira em torno de uma única coisa: dinheiro. Mas, como Arnaldo Antunes faz questão de frisar:
A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade
O ser humano, portanto, não se completa nem se contenta apenas com o material. Ele se nutre – “come” – também para o espírito. A vida é mais. A vida pode mais. É natural querer mais dela. Sem isso em mente, o homem fica confinado à mediocridade da existência e não se sacia nunca. Tudo que resta, por mais satisfeitas que estejam as necessidades básicas, é somente um imenso vazio.
Numa toada que mistura o funk ao rock, a música brilha com seu arranjo eletrônico, que acompanha sonoramente a letra entoada por seu compositor. Escrita numa época de inflação alta e desabastecimento, a canção transformou-se quase em um hino atemporal contra a miséria intelectual e espiritual que aflige a sociedade moderna. E é por isso mesmo que ela é celebrada até hoje.
Abaixo, o clip original, para quem quiser tirar a prova dos nove: