The world breaks everyone and afterwards many are strong at the broken places.
By Ernest Hemingway
The world breaks everyone and afterwards many are strong at the broken places.
By Ernest Hemingway
Encerrando esta semana comemorativa desta década e meia de Dando a cara a tapa, vamos ver o que Blog espera para o mundo neste novo ano.
Como de hábito, analisar o contexto geopolítico do mundo implica, necessariamente, entender o que se passa na Roma dos nossos tempos. Tendo eleito um carbonário, que transita perigosamente entre uma versão moderna de Calígula e outra de Nero, os norte-americanos não tocaram fogo apenas no seu próprio parquinho. Tocaram fogo no mundo inteiro. Embora muita gente boa dissesse – com um certo grau de desconexão da realidade, que misturava a um só tempo ingenuidade e devaneio – que “não seria nada daquilo”, pois Trump iria “moderar”, um ano de Laranjão 2.0 parece ter sido suficiente para desfazer todas as ilusões. Ele não só está fazendo o que havia prometido, como está fazendo coisa muito pior.
Depois de ter dado início a uma guerra tarifária inconstitucional e sem sentido contra o resto do mundo, Trump decidiu investir contra a própria ordem mundial. Desmontando todos os sistemas de governança mundiais que, bem ou mal, levaram o mundo ao maior período sem grandes guerras em mais de 500 anos, o Nero Laranja resolveu acabar com qualquer resquício de relações internacionais baseadas em regras. Daqui pra frente, na visão de Donald Trump, só uma coisa prevalece: a força bruta.
Logo no alvorecer deste ano, Trump mandou sequestrar Nicolas Maduro. Ninguém contesta que Maduro era um ditador ilegítimo, que fraudou o resultado das últimas eleições para permanecer no poder. Mas daí a admitir que um outro país invoque uma espécie de “jurisdição universal” para invadir uma nação soberana e levar à força o seu chefe de Estado vai uma grande distância. Para além da duvidosa acusação de que Maduro realmente liderasse um cartel de drogas, se alguém deveria julgá-lo seria a justiça venezuelana ou, na pior das hipóteses, o Tribunal Penal Internacional, não uma corte qualquer nos Estados Unidos.
A coisa fica ainda mais cínica quando se observa que, do ponto de vista prático, nada mudou na ditadura venezuelana. Os mesmos chavistas que controlavam o país antes continuam controlando-o agora. Aliás, a facilidade com que Maduro foi levado embora e a “parceria” da sua vice com o governo sequestrador de Trump denunciam que, muito provavelmente, houve um acordo de bastidores entre o chavismo e os americanos: “Vocês me entregam o petróleo e eu me comprometo a não acabar com a ditadura de vocês”. Coincidência ou não, desde o sequestro de Maduro não se ouviu mais falar em navios com “narcotraficantes” sendo bombardeados pelas forças navais dos Estados Unidos.
Empoderado pelo fato de que ao sequestro de Maduro não lhe sucedeu nada (nem sequer uma reprimenda digna de nota dos “aliados” do chavismo China e Rússia), Trump parece ter se sentido liberado para fazer o que lhe desse na telha. Daí o recente avanço agora contra a Groenlândia. Território dinamarquês há mais de três séculos, a ilha gelada agora está literalmente envolvida numa disputa de conquista entre a terra de Hamlet e os Estados Unidos.
Do ponto de vista lógico, a disputa não faz sentido. Trump argumenta que a ilha é necessária para a segurança nacional dos Estados Unidos. Ainda que isso fosse verdade, um tratado firmado pelo governo Truman com a Dinamarca em 1951 já concede aos Estados Unidos o direito de instalar bases e equipamentos militares na Groenlândia, sem que para isso seja necessário tornarem-se senhores de direito daquela terra. Se o problema fosse econômico, os dinamarqueses já deixaram claro que não se oporiam a que os ianques explorassem as terras raras da ilha. Nesse contexto, a questão da Groenlândia parece resumir-se a uma disputa de War para o Nero dos nossos tempos (conquiste 24 territórios à sua escolha).
Esse “redesenho” da ordem mundial para retroceder quase dois séculos no tempo para voltarmos à época dos impérios, em que o mundo era dividido em zonas de influência. Até onde a vista alcança, do Atlântico para a esquerda todo mundo estaria sob jugo dos Estados Unidos. Na Ásia, caberia à China tomar conta do pedaço. A Rússia, nesse contexto, estaria liberada para enxergar com olhos gulosos a Velha Europa. Não por acaso, os antigos “aliados” europeus estão em pânico, espremidos numa guerra em duas frentes: ao leste, pela Rússia (que ataca a Ucrânia); e a oeste, pelos Estados Unidos (que querem tomar a Groenlândia).
A situação, portanto, é complicada para o mundo. No concerto das nações, ninguém ainda se aventurou a encarar a besta-fera de frente. As duas potências que eventualmente poderiam fazê-lo – Rússia e China – não só não tem disposição para isso, como, ainda, estão a calcular quanto ganharão com esse rearranjo das placas tectônicas. Se não há mecanismos de freio a nível internacional, quem poderá frear o Nero dos nossos tempos?
Só os próprios norte-americanos. Dois fatores podem mudar a balança de poder da Roma dos nossos tempos:
O primeiro deles é a Suprema Corte. Em algum momento, the highest court on the land vai ter de decidir sobre a ilegalidade das tarifas impostas por Trump. Como dificilmente haverá argumento que sustente que o presidente pode contornar a competência constitucional do Congresso para tributar comércio exterior, a Suprema Corte pode quebrar uma das pernas sobre as quais se assenta o regime neofacista do Laranjão.
O segundo fator são as midterms. Hoje, o Partido Republicano controla as duas casas do Congresso. Essa maioria dá ao Nero dos nossos tempos tranquilidade suficiente para tacar fogo onde quiser sem risco de sofrer impeachment. Caso perca a maioria na Câmara (mais provável) ou no Senado (menos provável), o dique de proteção congressual estará rompido. Daí pra frente, poderemos assistir a um declínio lento, gradual e inevitável do poder de Trump.
O problema é que ninguém sabe quando a Suprema Corte vai soltar sua decisão no caso das tarifas e as midterms só acontecem em novembro. Até lá, portanto, grandes emoções nos esperam.
Pernambuco agora é o Brasil no Oscar, minha gente.
Muita gente está ao seu lado, mas não do seu lado. Não confunda.
Dando sequência ao especial de aniversário do Dando a cara a tapa, vamos ver o que o Blog espera para este 2026 que ora se inicia.
No Brasil, até o passado é incerto, brincam os historiadores. Que dirá o futuro, ainda mais em tempos de Instagram, Twitter e TitTok, no qual os algoritmos ditam as regras do debate público e influenciam a forma de pensar e agir de dezenas de milhões de pessoas. Mesmo assim, por se tratar de ano de eleições presidenciais, é seguro dizer que, a partir de abril deste ano, não se falará em outra coisa senão no pleito de outubro.
E por que abril?
Porque em abril encerra-se o prazo eleitoral para desincompatibilização de qualquer um que pretenda concorrer e ocupa cargos no Executivo (salvo os que concorrem à reeleição. Neste ano especificamente, esse “qualquer um” tem nome e sobrenome: Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo.
Cria do bolsonarismo, Tarcísio segue a linha de João Dória e tantos outros que se vendem como “técnicos”, “gestores” ou qualquer outra designação que não seja de “político”. Tendo ocupado cargos no governo Dilma e Temer, Tarcísio alcançou projeção no desgoverno Bolsonaro. Em um ministério que transitava entre o bizarro e o burlesco, o então Ministro da Infraestrutura destacou-se por ser o mais “normal”. Seguindo a lei do contraste, segundo a qual, se eu estou no meio de um monte de gente feia e não sou tão horroroso assim, logo eu sou bonito, Tarcísio conseguiu projetar sucesso quando era apenas medíocre.
Preferido do pessoal de “O Mercado” – que acha que vai poder retomar a jogatina da privataria que rolou nos dois governos Fernando Henrique – e do Centrão fisiológico – que acha que poderá manobrá-lo para aumentar ainda mais o seu quinhão no orçamento federal -, Tarcísio é vendido por essa gente como um “bolsonarista moderado” (risos).
Além de o rótulo ser falso (para saber mais, clique aqui), resta saber que tipo de roupa um candidato desse tipo iria vestir para ir ao baile das eleições. Sim, porque se há uma coisa intrínseca ao bolsonarismo é o radicalismo. Se o candidato “bolsonarista” não for radical o suficiente, a malta ignara que segue essa gente achará algum doidivanas para chamar de seu. Foi o que ensinou a eleição municipal paulista, em que o “bolsonarismo ideológico” de Pablo Marçal quase atropelou o candidato oficialmente apoiado pelo “Mito”: Ricardo Nunes. E, se a busca for por moderação, a primeira coisa que o sujeito tem de fazer é renegar Bolsonaro e seus radicais. A menos que Tarcísio seja uma espécie de “candidato quântico”, que pode ser uma coisa e seu contrário ao mesmo tempo, esse arranjo não tem como se sustentar.
Fora isso, com o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro pelo pai, Jair, as vias à direita parecem interditadas para qualquer um que pretenda sair por essa faixa do eleitorado. Indicado a governador de São Paulo na base do dedazo, Tarcísio jamais se lançaria candidato contra alguém com o sobrenome do seu criador. Além da certeza de ser bombardeado pelo gabinete do ódio bolsonarista e de ser tachado por boa parte do eleitorado de “traidor”, se Tarcísio se lançar candidato a presidente, isso significa que ele deu all in na sua carreira política. Se ganhar, leva tudo (inclusive o posto de novo líder da direita). Se perder, fica sem cargo nenhum. E, convenhamos, não deve ser fácil abrir mão da cadeira que rege o segundo maior orçamento da República: o do Estado de São Paulo.
Parte do Centrão e de “O Mercado” parece estar em negação quanto a isso. Tem gente que acha que algum “milagre” de última hora fará com que Flávio Bolsonaro retire sua candidatura em favor de Tarcísio. Mas o fato é que não há razão política alguma para que Bolsonaro abra mão do seu capital político em favor de alguém estranho à sua família. Atormentado pela idéia constante de que será traído, Bolsonaro não confiou sequer na sua mulher, Michelle, para indicar como candidata à presidência. Sabendo disso, chega a ser cômico imaginar que tem gente por aí achando crível uma chapa “Tarcísio-Michelle” à presidência.
Do lado da esquerda, o jogo está jogado. A menos que surja alguma questão de saúde de última hora, o candidato será ele, sempre ele: Luís Inácio Lula da Silva. Dominante no campo jacobino do espectro político desde que derrotou Brizola e cavou a vaga no segundo turno contra Fernando Collor em 1989, Lula esteve – em nome próprio ou por interposta pessoa – em todas as eleições desde então. Não seria agora, sentado na cadeira e comandando a máquina do governo federal que ele abriria mão do posto que ele considera eternamente seu.
Tendo ganhado cinco vezes (três em nome próprio e duas com Dilma Rousseff), Lula joga com as brancas sabendo a receita do sucesso numa eleição. Por ter perdido outras quatro vezes (três em nome próprio e uma com Haddad em 2018), o torneiro bissílabo de São Bernardo sabe exatamente quais erros conduzem a uma derrota numa disputa presidencial. Seria no mínimo ingenuidade acreditar que, seja qual for o cenário, Lula não seja franco favorito para ganhar mais uma eleição.
Claro, a turma petista adora aprontar das suas e pode causar estragos numa contenda acirrada. O famoso caso dos “aloprados” custou o segundo turno a Lula em 2006, quando deveria ter ganhado no primeiro turno contra seu então adversário Geraldo Alckmin. Além disso, Lula vez por outra gosta de calçar o salto alto de achar que ninguém sabe nada e só ele sabe tudo. E a arrogância – todos sabemos – costuma ser má conselheira. Ainda assim, Lula precisa errar muito mais do que acertar para perder a condição de favorito.
O futuro a Deus pertence. Mas, a preços de hoje, projeta-se uma disputa entre Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva. Sem alguém que sequer lhe faça sombra à esquerda e contando com a provável indisposição do Centrão para tentar tirar dos Bolsonaro o posto de “líderes da direita”, não será surpresa se virmos uma “antecipação” do segundo turno, ou seja, a resolução da disputa já no primeiro turno. Com a rejeição ao sobrenome do seu pai, Flávio Bolsonaro pode – sozinho – tornar-se o maior cabo eleitoral de Lula.
Quem viver, verá.
E agora o Laranjão quer a Groelândia.
Nessa toada, só a galera do Queen pra ajudar a desopilar um pouco.
Você nunca verá uma árvore insistindo para a folha ficar.
Pois é, meus amigos. Dando o pontapé inicial nos festejos dos quinze anos do Dando a cara a tapa, comecemos pelo nosso tradicional embate entre os chutes descarados deste que vos escreve e os palpites disfarçados de “análise” do pessoal de “O Mercado”.
Para quem chegou agora na festa, o papo é o seguinte: todo ano, o Blog pega as estimativas do primeiro Boletim Focus do Banco Central e a elas contrapõe os seus próprios chutes. Quem acertar mais leva. Apesar do Focus ser tão relevante a ponto de influenciar as decisões do BC quanto à subida ou descida da taxa de juros, até agora o placar registra um vexaminoso 8×3. Registre-se, ainda a benevolência do “regulamento”: o pessoal de “O Mercado” tem o benefício de “jogar em casa”. Isto é: em caso de empate, a vitória vai para os çábios.
Sem mais delongas, vamos ao apanhado dos números do ano passado (quem quiser consultar, pode clicar aqui):
“1 – Inflação:
– Focus: 4,99%.
– Blog: 4,42%.
2 – Dólar:
– Focus: R$ 6,00.
– Blog: R$ 5,40.
3 – PIB:
– Focus: 2,02%.
– Blog: 2,5%.
4 – Saldo da balança comercial:
– Focus: US$ 74,20 bilhões.
– Blog: US$ 80 bilhões.
5 – Taxa de juros ao final do ano:
– Focus: 15%.
– Blog: 11%”.
Logo no primeiro quesito, o Blog já acerta o primeiro chute e abre o placar. Enquanto os çábios de “O Mercado” chutaram 4,99% (e subiram esse número várias vezes durante o ano, para só então começar a baixá-lo), o Dando a cara a tapa cravou que a inflação fecharia 2025 em 4,42%. Segundo o IBGE, o IPCA de janeiro a dezembro do ano passado acumulou uma alta de 4,26%. Não foi na mosca, mas convenhamos que o Blog chegou bem perto. 1×0 no placar.
No segundo quesito, o Blog aumenta a diferença. Enquanto o Focus previu apocalípticos R$ 6,00 para cada US$ 1,00, o Blog foi bem mais otimista (na verdade, realista) e chutou R$ 5,40. No último pregão do ano passado, o dólar encerrou o dia valendo R$ 5,48. Novamente, o Dando a cara a tapa não acertou o olho da mosca, mas chegou bem perto. No placar, o marcador agora mostra 2×0 para o Blog.
No terceiro quesito, o Blog já mata a parada. Sem dar qualquer chance de reação aos adversários de “O Mercado”, o Dando a cara a tapa anota o terceiro tento. Embora o IBGE ainda não tenha soltado o dado oficial, estima-se que a economia no ano passado cresceu 2,36%. Como os çábios chutaram 2,02%, não há dúvida de que o chute do Blog (2,5%) chegou mais perto. 3×0 inapeláveis no placar.
No quarto quesito, a galera de “O Mercado” finalmente tira o zero do seu marcador. Em relação ao saldo comercial, o Blog foi mais otimista que os çábios e chutou US$ 80 bi de superávit, enquanto os “analistas” chutaram US$ 74,2 bi. No final das contas, o saldo apurado das transações comerciais ficou em US$ 68,3 bi. Tudo bem que o tarifaço do Trump pode ter atrapalhado alguma coisa, mas é bem provável que, mesmo sem o tarifaço do Laranjão, o chute dos çábios ficasse mais próximo do que o do Blog. No placar, agora, 3×1 para o Dando a cara a tapa.
Encerrando a disputa, temos a famigerada taxa Selic. Depois de uma campanha de terrorismo intensa durante todo o ano passado, o pessoal de “O Mercado” conseguiu convencer o Banco Central a levar – e a manter – a taxa básica de juros em pornográficos 15% ao ano. Mesmo com a inflação tendo ficado dentro da meta, essa bizarrice se manteve e, pelo menos até março, ninguém espera uma queda da Selic. Seja como for, o fato é que os çábios cravaram essa e fizeram mais um gol. Inútil a essa altura, mas pelo menos não ficou sendo a lavada que se desenhava.
No apurado final, portanto, temos 3×2 em favor do Dando a cara a tapa, aumentando a distância do vexame para inacreditáveis 9×3 no cômputo geral.
E o que isso prova?
Como todo fiel leitor deste espaço já sabe, absolutamente nada. O Blog reconhece que é incapaz de prever o futuro. A única diferença em relação ao pessoal de “O Mercado” é a humildade em enxergar o óbvio, e não ter a pachorra de sair vendendo “previsões” como se Economia fosse uma ciência exata, cujos indicadores pudessem ser previstos por pessoas incapazes de enxergar um palmo à frente do nariz. Se você quiser tomar uma decisão financeira, estude (e muito) e tome a decisão por si mesmo. Não terceirize a pessoas que, de gênios, não têm nada (muito pelo contrário).
Vamos, agora, aos chutes deste ano de 2026
1 – Inflação:
– Focus: 4,06%.
– Blog: 3,8%.
2 – Dólar:
– Focus: R$ 5,50.
– Blog: R$ 5,00.
3 – PIB:
– Focus: 1,8%.
– Blog: 2,3%.
4 – Saldo da balança comercial:
– Focus: US$ 66 bilhões.
– Blog: US$ 70 bilhões.
5 – Taxa de juros ao final do ano:
– Focus: 12,25%.
– Blog: 12,5%.
Alea jacta est. Daqui a um veremos quem esteve com o chute mais calibrado.
Quem viver, verá.
E como ontem foi Dia de Martin Luther King, aí vai uma das mais tradicionais do Blog.