Pensamento do dia

A saúde do corpo começa com a educação da mente.

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Castillo de cartas, ou “Esse negócio de golpe – Parte II”

Parece até piada, mas aconteceu de verdade.

Um presidente minoritário, eleito no photochart de uma eleição acirradíssima, resolve – de uma hora pra outra – que ser presidente numa ditadura é muito melhor do que numa democracia. Numa só canetada, manda dissolver o Congresso, decretar estado de emergência e convocar novas eleições. Nesse meio tempo, aproveitará para “reordenar” o Judiciário e o Ministério Público, que vivem às turras com ele.

Faltou só combinar com os russos.

Quando Pedro Castillo foi à TV para fazer um daqueles clássicos pronunciamientos latino-americanos, que parecem saídos de outra era, o jogo já estava jogado. Com o Congresso à beira de votar seu terceiro pedido de impeachment contra ele, sem apoio das Forças Armadas e sem articular o golpe de mão sequer com seus ministros (que renunciaram minutos depois do seu discurso), não havia saída da qual resultasse salvação para o governo do ex-líder sindical peruano. Desde o nascimento, seu golpe estava destinado ao fracasso.

Por quê?

Como já se escreveu aqui certa feita, esse negócio de golpe é muito difícil. Ernesto Geisel, mestre na arte, alertou isso inúmeras vezes a todos os seus interlocutores, antes e depois de deixar a presidência. Era sua resposta padrão à pergunta de como conseguiu derrubar o então poderoso Ministro Sylvio Frota, em 1977 (e, com isso, restaurar a autoridade do Presidente sobre o Exército); assim como para quando era perguntando sobre um hipotético golpe contra a posse de Tancredo Neves, em 1985.

Conhecendo como poucos os meandros dos mecanismos que são acionados quando se quer derrubar a ordem democrática, o Alemão tranquilizava a todos: “Não vai acontecer nada”. E, se isso era verdade no fim dos anos 70 e começo dos anos 80, com mais razão será verdadeiro agora. No mundo ocidental civilizado, simplesmente não há mais espaço para golpes do tipo “tanque-na-rua-fecha-o-Congresso-prende-todo-mundo-da-oposição”.

Para que um golpe de estado tenha lugar, é necessária a concorrência de tantos fatores que não seria exagero dizer que seria quase como um “milagre às avessas”. A menos que o sujeito esteja disposto a uma guerra civil (coisa que mesmo militares golpistas não gostam de encarar), o pretendente a ditador tem de exibir, a um só tempo: o suporte das Forças Armadas; a conivência das forças de segurança; o apoio da imprensa e do empresariado; forte apoio popular. Para além disso, é sempre de bom tom obter aprovação internacional à empreitada, sob pena de transformar a chanchada golpista numa vitória de Pirro, decorrente da transformação do país em pária entre as nações.

No caso em apreço, Pedro Castillo não dispunha de absolutamente nenhuma delas. Dadas as suas origens esquerdistas, era simplesmente inconcebível que as Forças Armadas ou as forças de segurança pudessem lhe servir de instrumento de repressão. O Congresso, por sua vez, estava quase inteiramente tomado pela oposição e jamais admitiria cair em silêncio. O PIB peruano, que nunca morreu de amores por Castillo, jamais lhe serviu refresco. Quanto à legitimidade internacional, bem, já não estamos mais na década de 60 e os golpes com tanques na rua ficaram um tanto démodé.

A bem da verdade, Castillo – tal qual um Jânio Quadros redivivo – concebeu um golpe desconexo, no qual não havia lugar sequer para apoiadores, senão para súditos. Como um castelo de cartas, seu golpe nunca apresentou qualquer chance de sucesso. Não por acaso, a comédia-pastelão encerrou-se rapidamente em poucas horas, com ares de ópera-bufa. O presidente peruano dirigiu-se à nação ao meio-dia, foi impedido pelo Congresso às 14h e preso pelas forças de segurança às 16h. Se o Guiness tomar nota de casos assim, tem-se aí provavelmente o recorde mundial do percurso golpe-prisão de um pretendente a ditador.

Se há alguma lição a tirar desse tosco exemplo do nosso vizinho, é que os receios difundidos durante a campanha eleitoral de que Lula da Silva tentaria algo do gênero por estas bandas são completamente infundados. Lula pode ser muita coisa na vida, mas não é burro. Se mesmo Bolsonaro – que pelo menos tinha apoio majoritário das Forças Armadas – dificilmente conseguiria dar um golpe por aqui, imagine algo semelhante se passando com um presidente “comunista”. É mais fácil pensar que Lula terminaria o dia preso mais rapidamente do que Castillo, do que imaginar que o torneiro bissílabo de São Bernardo pudesse se tornar ditador do Brasil.

No fundo, no fundo, o risco do “comunismo” só existe na cabeça paranóica de gente que ainda vive com a mentalidade do século passado. Mesmo com nossa frágil e solapada democracia em frangalhos, a possibilidade de um golpe de esquerda vir a vingar no Brasil é virtualmente nula. Desse risco, portanto, estamos salvos.

Resta, contudo, saber o que podemos fazer para não nos tornarmos um novo Peru…

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Trilha sonora do momento

Depois do autogolpe mais rápido e patético de todos os tempos, nada melhor do que recorrer ao Mestre Caetano.

Porque a letra continua tristemente atual:

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos

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Pensamento do dia

Sempre siga o seu coração, mas não se esqueça de trazer o seu cérebro junto com ele.

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“Há, a, à”, ou A morte do verbo haver

Faz um bom tempo desde a última vez em que aqui se escreveu sobre nossa tão amada e maltratada língua portuguesa. Para reparar a falta e resgatar do limbo a seção preferida da minha amiga Icsa, vamos oferecer aqui novamente Dicas de Português. Neste caso, para tratar de um dos maiores males das redes sociais em geral, e da comunicação através do WhatsApp, em particular: a virtual morte do verbo haver.

Utilizado em regra na sua modalidade transitiva direta, o verbo haver pode assumir múltiplas acepções em um discurso qualquer. Por exemplo, ele pode ser utilizado na forma reflexiva, com o sentido de “entender-se” ou de “ajustar contas”(Se algo der errado, ele vai se haver comigo). Ele também pode ser empregado no sentido de “dignar-se” ou “resolver”(Eu hei por bem não xingar pessoas na rua).

Outro uso bastante difundido do verbo haver ocorre quando ele é utilizado em tempos compostos, com o sentido de “ter”. Os exemplos são vários: “Havíamos comprado todos os doces que existiam na loja” ou “havíamos feito de tudo para impedir a derrota”. Em ambos os casos, o verbo haver, na condição de verbo auxiliar é flexionado normalmente, enquanto o verbo a indicar a ação principal obrigatoriamente coloca-se no particípio.

Até aí, tudo bem; todo mundo mais ou menos compreende e erra pouco. O problema começa a aparecer quando o verbo haver assume o mesmo sentido do verbo “existir”, “ocorrer” ou “acontecer”. É aí que a porca entorta o rabo.

Quase todo mundo aprende no primário que o verbo haver, quando possui o sentido de “existir”, é impessoal. Isso significa, em resumo, que o verbo não será conjugado conforme a pessoa, como ocorre em regra com os verbos “normais”. Poucas pessoas são capazes de errar, por exemplo, conjugações simples, como “o jogador participou da jogada”, mas “os jogadores participaram da jogada”. Mas quando o verbo haver entrada na parada, a coisa fica mais complicada.

Quando o verbo haver é empregado com o sentido de existir ou indicar passagem de tempo, ele deixa de respeitar as regras básicas de concordância e somente se conjuga na 3a. pessoa do singular. Por exemplo: “Houve muitas faltas naquela partida” ou “Eu fiz isso há dois anos” (e, por favor, deixe de lado a forma redundante “atrás”, uma vez que a idéia de passado é intrínseca ao próprio verbo). Em outras palavras, faça chuva ou faça sol, você sempre utilizará o verbo haver conjugado na terceira pessoa do singular, independentemente do sujeito empregado na frase.

Entretanto, sabe-se lá Deus por quê, o fato é que o verbo haver foi praticamente assassinado nas comunicações instantâneas nossas de cada dia. Por alguma razão que foge à nossa compreensão, a conjugação básica do verbo haver para indicar a passagem de tempo passou a ser “substituída” de forma bizarra pelo artigo definido “a”. Quando o interlocutor é, digamos, mais “refinado”, o velho e bom “há” curiosamente cede passo ao “à”(como se de alguma forma o emprego da crase fosse admitido nesse caso).

No final das contas, não há grandes dificuldades na utilização do verbo haver tributando o devido respeito ao bom uso da norma culta. Basta um pouquinho de atenção para saber quando empregar “há”, “a” ou “à”. No caso de indicar-se transcurso de tempo, sempre você vai utilizar “há”(O Brasil foi pentacampeão HÁ vinte anos). Quando a idéia for individualizar de forma precisa alguma coisa do gênero feminino, será o caso de recorrer o artigo definido “a” (Ganhamos a partida mais importante das nossas vidas). Se, no entanto, houver uma preposição “a” antecedendo o artigo definido “a”, aí, sim, será o caso de empregar o acento grave (ou o famoso “a craseado” – Vamos à farmácia) (para saber mais sobre o uso da crase, clique aqui).

A despeito de seu virtual assassinato nas redes insociáveis, é nosso dever como amantes da língua ressuscitar o correto emprego do verbo haver nas nossas comunicações instantâneas. Não é difícil, o esforço é mínimo e, com o tempo, o uso correto acaba por se impor a essas estranhas modalidades utilizadas no nosso dia a dia.

Do contrário, sabe-se lá aonde vai parar a nossa derradeira flor do Lácio…

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Trilha sonora do momento

E como nesta semana se comemoram 40 anos do melhor clipe de todos os tempos, nada mais justo do prestar aqui o devido tributo a essa obra prima do Rei do Pop.

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Pensamento do dia

Existem duas soluções para tudo nesta vida: o tempo e o foda-se.

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A ditadura argentina, ou Argentina, 1985

A melhor notícia do ano – disparado – vem do cinema argentino.

Está em cartaz, no streaming da Amazon, Argentina, 1985. Com direção de Santiago Mitre e contando com Ricardo Darín no papel principal, o filme trata do julgamento histórico da última das ditaduras que se abateu sobre o nosso maior vizinho.

Para explicar a razão pela qual esse é o maior filme deste ano de 2022, convém antes explicar o contexto histórico que conduziu à história nele retratada.

Na virada do século XIX para o século XX, a Argentina era uma potência. Sétima maior economia do mundo, nuestros hermanos fizeram fama e fortuna como uma espécie de celeiro global, vendendo grãos e carnes para as maiores potências da época (a Inglaterra, em particular). Tudo começou a desandar, contudo, no dia 27 de outubro de 1943. Foi nesse dia em que alguém teve a “brilhante” idéia de nomear um oficial de média patente para o então obscuro Departamento Nacional do Trabalho. Seu nome era Juan Domingo Perón.

Para o bem e para o mal (muito mais para o mal), Perón mudou para a sempre o destino da Argentina. Bem articulado politicamente, Perón conseguiu atrair o apoio dos poderosos sindicatos portenhos. Simultaneamente, fazia-se querido na tropa e indispensável na burocracia de uma ditadura recém-instalada em junho de 1943. No caos social que permeava aquela época, Perón emergiu como a liderança mais popular do país.

Em pânico, os mesmos militares que haviam permitido sua ascensão tentaram desligá-lo da tomada. Demitido, Perón foi preso e detido no dia 12 de outubro de 1945. Seus adversários apressaram-se em decretar seu veredicto: “Perón agora não passa de um cadáver político”. Cinco dias depois, no famoso 17 de octubre, 300.000 pessoas saíram às ruas para exigir sua libertação. A partir daí, numa sucessão de eleições, golpes e contragolpes, Perón dividiria para sempre a política argentina entre peronistas e anti-peronistas.

Exilado por um golpe de Estado desde 1955, Perón nunca deixou de tramar um retorno triunfal à presidência de sua terra natal. Uma vez que sua amada Evita – “patrona dos descamisados” – morrera também em 1955, Perón buscou uma figura feminina que pudesse lhe servir de substituta. E ele foi encontrá-la justamente em um cabaré na cidade do Panamá.

Maria Estela Martínez Cartas nascera na Argentina e formara-se bailarina. Por admirar a rainha Isabel de Portugal, adotou como nome artístico Isabelita. Não se sabe exatamente se foram seus atributos físicos ou seu talento como dançarina que atraíram a atenção de Perón, mas o fato é que o caudilho portenho entregou-se completamente à paixão, a ponto de envolver a nova esposa no seu plano de regresso ao poder.

Em 1973, haveria novas eleições presidenciais na Argentina. Candidato a presidente, Perón resolve colocar como vice sua própria esposa, Isabelita (que, mais por conveniência política do que por obrigações cartorárias, resolveu adotar o sobrenome do marido, tornando-se “Isabelita Perón”). Juntos, Juan Domingo e Isabelita Perón foram eleitos com 62% dos votos.

Mas a alegria duraria pouco.

Menos de um ano depois de assumir o cargo de presidente pela terceira vez, Perón morreu. Em seu lugar, assumiria uma mulher sem nenhuma experiência administrativa, com histórico político nulo e desprezível capacidade de articulação. Sem saber governar e sem ter a quem recorrer, Isabelita resolveu buscar ajuda aonde? Nas Forças Armadas. E aí aconteceu o que todo mundo sabe quando se colocam militares em posição de poder: um desastre.

Quebrada, corroída pela inflação e vendo o caos social brotar por todos os poros, a Argentina entrou numa espiral de violência poucas vezes vista. Grupos armados começaram a promover ações de guerrilha contra o seu governo, incluindo assaltos, assassinatos e até o sequestro de um avião. Diante da débâcle, os militares nem precisaram fazer muita força para dar um golpe; boa parte da população praticamente implorou por ele.

Uma vez no poder, os militares foram à forra. Instaurou-se a mais cruel, sanguinária e desumana das ditaduras latino-americanas no século XX (e olha que a disputa nesse campo é feroz). Em resposta aos guerrilheiros, a ditadura prendeu, torturou e matou milhares de pessoas. Apenas para ilustrar o tamanho da perversidade dos militares argentinos, basta dizer que muitos dos presos eram arremessados, dopados e amarrados, de aviões de carga da Força Aérea no meio do Oceano Atlântico. Os corpos somente apareciam – quando apareciam – semanas depois, quando já chegavam sem vida às praias.

Nenhuma crueldade seria maior, contudo, que o sequestro indiscriminado de crianças. Fundada numa esdrúxula e abominável “doutrina” de que a ideologia se transmitiria hereditariamente, militares argentinos sumiram com quase 500 bebês tomados aos presos da ditadura. Muitos foram “adotados” no cárcere, pelos mesmos carrascos que prenderam seus pais. Foi em reação a essa sistemática violação aos princípios mais básicos de humanidade que surgiu o corajoso e tocante movimento das “mães da Plaza de Mayo”.

Depois do fracasso incontornável da Guerra das Malvinas, a ditadura argentina caiu de podre. Organizou-se uma transição de poder entre os militares e os civis, de modo a reorganizar institucionalmente o país. Na eleição de 1983, elegeu-se Raúl Alfonsín. Radical na concepção e firme nos propósitos, Alfonsín decretou desde logo uma espécie de “comissão nacional da verdade” e determinou que todos os líderes das juntas militares fossem a julgamento.

É aí que entra o filme de Santiago Mitre.

Argentina, 1985 mostra a história de como os argentinos tomaram para si a missão de impedir a repetição de todos aqueles abomináveis atos, contando a história improvável de um experiente promotor, Julio Strassera, e sua equipe de jovens dedicados à causa da Justiça. Apesar do tema “pesado”, o filme se desenvolve numa narrativa leve e dinâmica, bastante amigável mesmo a quem não é muito afeito a filmes históricos.

É claro que o filme, em si, não é isento de erros. Para além das “licenças fáticas”, a película às vezes escorrega em clichês bem batidos do cinema mundial, como o do processo de recrutamento da equipe que irá ajudar a acusação nesse processo. Todavia, o conjunto como um todo prevalece. O destaque fica por conta da soberba atuação de Ricardo Darín no papel de Julio Strassera.

Como não poderia deixar de ser, o filme de Santiago Mitre foi o indicado pela Argentina para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano que vem. Se ainda houver alguma justiça na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, a película certamente estará entre os 5 finalistas do prêmio (e provavelmente levará a estatueta). Mas, como justiça e Oscar são palavras que normalmente caminham em direções opostas, convém colocar as barbas de molho.

Seja como for, independentemente do que acontecer a nível artístico, nuestros hermanos argentinos sempre poderão se vangloriar de terem sido os únicos habitantes desta Terra de meu Deus que julgaram seus militares pelos crimes que cometeram no transcurso de uma ditadura. Graças a isso, eles podem orgulhosamente dizer a toda a gente, em alto e bom som:

“Nunca más!”

Abaixo, o trailer do filme, para quem quiser assistir:

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Trilha sonora do momento

E lá se foi o gigante Erasmo Carlos.

Que, além de ser um dos maiores cantores e compositores da história da MPB, era também grande benemérito do Clube de Regatas Vasco da Gama.

Contrariando a tradição de sempre homenagear the faithful departed com uma canção do próprio autor, nesse caso acho justo abrir uma exceção para recorrer a uma composição que o amigo de fé, irmão camarada Roberto Carlos dedicou a ele.

Porque de fato ele dizia as verdades em frases abertas.

E era o mais certo das horas incertas…

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Pensamento do dia

Toda história tem dois lados, até aparecerem os prints do WhatsApp.

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