Pensamento do dia

People do not decide their future. They decide their habits, and their habits decide their future.

By F.M. Alexander

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Recordar é viver: “Decifrando as opções políticas”

Já que a história de voltar a comercializar sangue doado por voluntários, vamos recordar um dos posts mais antigos deste espaço.

Porque, a depender do posicionamento que você decida nessa matéria, querendo ou não você estará fazendo uma opção política.

É o que você vai entender, lendo.

Decifrando as opções políticas

Publicado originalmente em 24.5.11

Em outro post critiquei os chamados “empreendedoristas”, ou seja, os “políticos” que abandonam a política e se apresentam à população como meros gerentes de um grande supermercado. Naquele post, disse – e repito – que um cargo político deve representar uma opção política de quem vota. Vou tentar explicar, com um exemplo bem inocente, as implicações práticas do que quis falar: o caso das doações de sangue.

Em todo o planeta existem hemocentros destinados a recolher sangue daqueles que pretendem doar. É óbvio, por necessidade médica e até mesmo humanitária, todo governo tem uma política própria para angariar mais doadores e, com isso, tentar ao menos minimizar o sofrimento daqueles que necessitam de sangue. Para fazer isso, os governos geralmente têm de optar entre duas possibilidades: estimular a doação voluntária não remunerada, ou pagar para estimular as pessoas a doarem.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a doação é remunerada. O estímulo, portanto, é puramente financeiro: doa-se por dinheiro. Até aí, tudo bem, porque a doação continua sendo voluntária. Quem não precisa do dinheiro (não é nenhuma fortuna, algo em torno de US$ 25,00) e não quer doar, não doa.

No Brasil, ao contrário, a doação não é remunerada. O benefício, portanto, é somente o sentimento de fazer bem ao próximo por parte de quem doa. Estimula-se, entretanto, sentimentos mais nobres do que o mero interesse financeiro; a solidariedade, por exemplo.

Agora, suponha que você seja presidente. Você manda fazer um estudo para saber, percentualmente, o índice de doadores na população nos países que pagam pela doação e nos países que não pagam.

Se o resultado for, por exemplo, que o número de doadores nos que pagam é o dobro do que países que não a remuneram, você – como governante responsável – não deve hesitar: paguem-se as doações. Entre estimular a solidariedade e aumentar o número de doadores, mais vale garantir a saúde da população.

Agora, se o resultado for semelhante, ou seja, se a quantidade de doadores for igual tanto nos países que pagam como nos países que não pagam, a pergunta que se deve fazer é a seguinte: eu prefiro morar num país em que as pessoas doam sangue por dinheiro, ou num país em que o fazem sem nenhum retorno financeiro?

Eu sei que, diante de tantos problemas mais urgentes no país, é difícil ficar pensando em opções dessa natureza quando se vota em um candidato. Mas insisto: deve haver uma opção ideológica por trás dos dedos que apertam os números na urna eletrônica. Se não, daqui a pouco o horário eleitoral será substituído pelo Big Brother, e os candidatos concorrerão pelo grande prêmio no horário nobre da Globo, ao invés de o fazerem no horário eleitoral

Publicado em Recordar é viver | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Já que o negócio é comercializar sangue, vamo de Cidade Negra na veia.

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Eu gostaria que houvesse uma maneira de doar gordura da mesma forma com que você doa sangue.

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Filme queimado, ou O novo jeito de encarar o brasileiro no exterior

Houve um tempo em que sair do Brasil ostentando a cidadania tupiniquim era quase um sinônimo de status no mundo. Não que fôssemos reconhecidos pela elegância dos ingleses, ou pela pontualidade dos suíços, mas era difícil viajar por aí sem que, do outro lado do balcão, um sorriso largo não aparecesse ao você informar de onde vinha.

Muito disso se devia a Pelé, claro, com sua majestade futebolística servindo de cartão de visitas do país no mundo. Isso, porém, não explicava tudo. Para além de nem todo estrangeiro ser ligado em futebol, para as gerações mais novas (aqui e lá fora), falar de Pelé é quase como falar da Roma Antiga; uma era tão passada no tempo que só quem está interessado em livros de História saberá do que se está falando.

Não, absolutamente. Por maior que tenha sido o Rei, havia algo mais a nutrir essa simpatia quase imediata aos brasileiros que viajam pelo mundo. Provavelmente, como o espécime nativo sempre é retratado nos filmes como um sujeito alegre e bem-humorado, o estrangeiro – que não está acostumado ao trato fácil e desembaraçado tão presente ao sul do Equador – sente uma vontade natural de “contagiar-se” dessa alegria de viver. Daí porque procura estabelecer rapidamente uma empatia com seu interlocutor brasileiro, de modo a receber aquela lufada refrescante de vida que por vezes faz falta nos chamados “países do primeiro mundo”.

No entanto, para infelicidade geral da Nação, esse roteiro feliz de filme da Sessão da Tarde deixou de ser verdade. Não que sejamos agora tratados a pontapés, que fique claro. Mas aquela felicidade recíproca que você conseguia sentir ao entrar em contato com um estrangeiro deixou de existir. Ou, pelo menos, deixou de ser tão imediata e natural quanto um dia o foi. Agora, é como se o sujeito de outro país quisesse primeiro te “testar” e te “avaliar”, para só então se permitir um sorriso e uma camaradagem que eles costumam sonegar aos próprios conterrâneos.

O que terá acontecido?

Numa avaliação empírica, sem base científica alguma, arrisco a dizer que devemos esse “favor” aos quatro anos de governo Bolsonaro. Antes, quando você viajava por aí, um brasileiro era só um brasileiro; o sujeito alegre, camarada, de bem com a vida, cheio de amor pra dar. Agora, o estrangeiro olha para um brasileiro e pensa: “Mas quem será esse sujeito? Será ele um ativista anti-vacina? Será ele um combatente militante do ‘globalismo’? Estarei eu diante de um perigoso elemento de extrema-direita? Toda essas perguntas, que nem sequer eram cogitadas há menos de dez anos, passaram a fazer parte do imaginário popular, queimando de forma irremediável o filme nacional mundo afora.

E se engana quem acha que a desgraça pára por aí. Imagina só com que imagem ficaram os brasileiros perante o mundo depois de ver nas manchetes do mundo inteiro o que aconteceu no 8 de janeiro. Como se fosse uma republiqueta de bananas, o planeta inteiro viu bestializado uma tentativa canhestra de golpe militar, com direito a toda a sorte de escatologias que costuma acompanhar o extremismo bolsonarista (destruição de relíquias, despejo de dejetos humanos nas sedes dos três poderes, etc.)

Pra piorar, o cidadão que respondeu pela Presidência até 31 de dezembro do ano passado viu-se metido em um escândalo baixo, de quinta categoria, digno dos periódicos mais toscos da imprensa que transita entre o jornalismo e a comédia desbocada. Por que quem iria acreditar que um Presidente da República pudesse sair por aí vendendo jóias que recebeu na condição de mandatário simplesmente para “fazer caixa”? Com que cara fica o próprio país quando a mais alta autoridade da República é vista mercadejando presentes no mercado negro como se fosse um muambeiro quebrado, precisando de dinheiro para pagar os boletos no final do mês?

Não bastasse tudo pelo que a gente passou nesses quatro anos, ficamos agora com mais essa. O sorriso do outro lado do balcão está agora mais difícil e, em alguns casos, até mais arredio.

Parabéns aos envolvidos.

Publicado em Variedades | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

Vou dar a volta no mundo

Eu vou…

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Dormir é grátis. Levantar é que custa.

#FicaaDica

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Trilha sonora do momento

I love Paris in the fall…

Publicado em Trilha sonora do momento | Com a tag , , , | Deixe um comentário

Pensamento do dia

Não me leve a mal. Me leve a Paris.

#FicaaDica

Publicado em Pensamentos do dia | Com a tag , , , , | Deixe um comentário

Recordar é viver: “A piada da imprensa brasileira”

Saindo um pouco da mesmice, pero no mucho, vamos recordar um texto de meado da década passada, quando se analisava a baixa qualidade e o autismo dos veículos de imprensa no Brasil.

E a triste constatação de que, quase uma década depois, nada mudou. Aliás, mudou sim. Para pior.

É o que você vai entender, lendo.

A piada da imprensa brasileira

Publicado originalmente em 22.6.16

No meio de um cenário tão confuso, com escândalos se sucedendo numa velocidade assustadora, muita coisa acaba passando despercebida. E é nessas horas que aqueles que se omitem nos momentos mais decisivos acabam encontram a tão desejada oportunidade para fazer as “pazes com a história” e posar de bonzinhos para a posteridade. Não, não se trata aqui de nenhuma das personagens que tem assaltado (ops!) o noticiário nos últimos tempos. Trata-se, na verdade, de algo muito mais prosaico e sobre a qual pouca gente pára para refletir: a imprensa brasileira.

Que a imprensa brasileira é um desastre, ninguém mais discute. Ensimesmada dentro de uma programação endógena, na qual o entretenimento e a alienação desempenham papel preponderante, os veículos de comunicação no Brasil – com as honrosas exceções de praxe (destaque para a Revista Piauí) – desde há muito deixaram de praticar jornalismo em seu sentido estrito. Quando não assumem descaradamente um lado na guerra política travada entre os grupos de poder do país, limitam-se a reproduzir mecanicamente as notícias que são divulgadas pelos canais oficiais.

Veja-se, por exemplo, o caso da penúltima delação da Lava-Jato: a do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Até as pedras da Praia de Iracema sabiam das inúmeras falcatruas cometidas pelo ex-senador cearense. Seus esquemas em vários órgãos do Estado eram conhecidos de toda a população e tratados abertamente em qualquer roda de bar. Quando Machado foi alçado à presidência de uma das maiores estatais do ramo de petróleo, todo mundo estava careca de saber a razão pela qual ele tinha sido nomeado.

E o que fez a imprensa cearense? Nada. Por longos 12 anos, toda a mídia local “fez-que-não-viu” o passado ficha-suja de Sérgio Machado e limitava-se a relatar suas ações como presidente da Transpetro. Quando se quis trazer um estaleiro para o Ceará, a única coisa que se discutiu foi se um dos concorrentes deveria ou não o erguer no Serviluz. A ninguém ocorreu investigar a razão pela qual se estava discutindo a localização do empreendimento antes mesmo de definido quem iria construir os navios.

Hoje, graças à Lava-Jato, sabe-se que a cada obra tocada pela Transpetro era acrescido um percentual destinado ao bolso de Machado e ao dos políticos que o apadrinharam. Como não existe cegueira seletiva, se a mídia cearense não quis enxergar a corrupção desenfreada do ex-presidente da estatal, fê-lo por opção, não por incapacidade.

Mesmo depois do escândalo, a postura inerte continuou a mesma. Uma vez que a cobertura de todos os escândalos do ex-presidente da Transpetro era liderada pela grande mídia, os principais periódicos nativos limitaram-se a reproduzir as notícias que vinham do Sul do país. O máximo que a imprensa cearense se permitiu produzir fora do script ditado pelos grandes jornais foi descrever os termos do encarceramento negociado com Machado. Numa manchete que choca pelo grau de autismo em relação a todo o escândalo, “O Povo” colocou no último domingo em letras garrafais “A vida após a delação”, descrevendo a prisão domiciliar ao estilo “Ilha de Caras” a que vai se submeter o ex-senador. Sobre as jogadas passadas de Sérgio Machado, nada; nem uma linha sequer.

Esse “privilégio”, registre-se, não é exclusivo da mídia cearense. A rigor, quase toda a imprensa nacional padece do mesmo mal. Há dezenas de larápios que passam o dia a distribuir entrevistas como se fossem alguma espécie de oráculo, quando todo jornalista conhece os rumores dos esquemas sórdidos através dos quais fizeram fama e fortuna. Ao invés de investigá-los e colocá-los contra a parede, boa parte da mídia tupiniquim prefere cortejar os maganos, para com isso não perder suas preciosas “fontes” jornalísticas. É o que ocorre, por exemplo, com José Sarney.

Embora ninguém duvide, não se sabe ao certo se as acusações formuladas por Sérgio Machado contra o ex-presidente são verdadeiras. Mesmo assim, todo mundo que viveu ou que estudou história conhece o desastre que foi sua presidência. Poucos políticos foram tão absurdamente incompetentes no desempenho do ofício presidencial quanto o todo-poderoso maranhense.

Convidado a participar do prestigiado programa “Roda Viva” no ano de 2005, Sarney foi entrevista por uma bancada de jornalistas do mais alto gabarito. Estavam lá, por exemplo, Ricardo Noblat, Paulo Markun e Eliane Cantanhêde. Pois esse time de jornalistas foi incapaz de colocar um político com o “currículo” de José Sarney nas cordas. Não lhe perguntaram sequer sobre a estratosférica hiperinflação que ele legou ao país. Pior. Assistiram passivamente ao ex-presidente falar ao final do programa, na cara dura, que “os nossos fundamentos macroeconômicos eram muito bons”.

Pode-se argumentar que o papel da imprensa é informar, não investigar. Mas a linha que separa uma coisa da outra é muito tênue, e não seria exagero dizer que defender uma atividade midiática sem investigação encerra uma visão muito redutora do que vem a ser  jornalismo.

Não custa recordar que o escândalo de Watergate foi levado a cabo por dois jornalistas do Washington Post. O escândalo de corrupção da Fifa veio à baila depois de anos de intenso trabalho investigativo de um insólito repórter escocês da BBC. E o acobertamento dos casos de pedofilia por padres da Igreja Católica nos Estados Unidos só foi descoberto após a galera do Spotlight jogar luzes sobre o problema. O contraste da atuação da imprensa estrangeira nesses grandes escândalos apenas acentua a desfaçatez da nossa, perdida no seu mundinho político de Brasília.

Ao invés de fingir-se de morta e colocar a cabeça debaixo da terra, bem que a mídia brasileira poderia começar a fazer o seu papel. Afinal, como dizia Millôr Fernandes, imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.

Publicado em Recordar é viver | Com a tag , , , | Deixe um comentário