Uma das coisas mais mal explicadas no vocabulário noticioso – seja político, seja esportivo, seja midiático – é o que se vem a entender como “experimento de Schrödinger”. Vira e mexe alguém usa a expressão e, mesmo para quem tem certa familiaridade com a matéria, às vezes parece complicado compreender a fundo do que se está tratando.
O experimento em si não é tão difícil de explicar. O ano era 1935. Um austríaco chamado Erwin Schrödinger encasquetou com a então recém-nascida “mecânica quântica”. Para contraditá-la, ele propôs o seguinte experimente mental:
Imagine uma caixa completamente selada. Dentro dela, há um gato, um frasco de veneno e um mecanismo conectado a um átomo radioativo. Se o átomo decair, o veneno mata o fato. Se não decair, tudo fica de boa e o felino não morre. Enquanto a caixa estiver fechada, o átomo – segundo a teoria da mecânica quântica – encontra-se em superposição: ele decaiu e não decaiu ao mesmo tempo. Logo, a serem verdadeiros os pressupostos da mecânica quântica, o gato também estaria simultaneamente vivo e morto.
Nesse contexto, a única forma de dar cabo a esse paradoxo seria fazer aquilo que qualquer pessoa normal faria diante de uma situação dessas: abrir a caixa. Somente a abrindo seria possível aferir com precisão se o gato está de fato morto ou vivo, acabando com a ambiguidade existente com a caixa fechada.
Schrödinger criou esse paradoxo para tentar demonstrar que a realidade não pode depender apenas de quem a observa. De certa maneira, contudo, a eleição presidencial deste ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2026 está colocando em xeque essa perspectiva.
Desde pelo menos o estouro do escândalo do Mensalão, um parcela relevante da nossa sociedade passou a desenvolver verdadeira ojeriza pelo partido da estrela vermelha. Se antes do governo a aversão poderia ser atribuída a puro e simples preconceito, agora esse eleitor “conservador” – e bota aspas nisso – tinha um dado concreto muito objetivo para justificar o seu voto: ele estava votando “contra a corrupção do PT”.
Muito bem. Façamos aqui um experimento mental acerca dos escândalos políticos da nossa era. Vamos imaginar, apenas por suposição científica, que todos, absolutamente todos os escândalos imputados aos principais candidatos envolvidos na refrega eleitoral deste ano sejam verdadeiros. Quem levaria “vantagem” nessa disputa?
Vamos começar pelo atual presidente.
Preso por 580 dias durante a Operação Lava Jato, Lula arrostou três acusações graves contra si. Na primeira delas (que levou à condenação de Sérgio Moro), ele teria aceitado reformas avaliadas em R$ 3,7 milhões em um triplex que comprara no Guarujá. Da mesma forma, empreiteiras amigas teriam reformado o famoso sítio de Atibaia, gastando um ervanário de pouco mais de R$ 1 milhão. Para terminar, havia ainda o caso do Instituto Lula, que teria recebido R$ 12 milhões da Odebrecht para que o torneiro bissílabo de São Bernardo abrisse as portas do governo Dilma aos seus interesses.
Admitamos, portanto, que tudo isso seja verdade. Tudo somado, Lula teria amealhado algo em torno de R$ 16 milhões na conta da corrupção. Antes que alguém venha a querer contraditar esse número, são os mesmos valores indicados por Deltan Dallagnol e Sérgio Moro nos processos em que atuaram. E não passa pela cabeça de ninguém que o ex-promotor e o ex-juiz da Lava Jato “favorecessem” Lula atribuindo-lhe valores menores do que os que teriam sido “roubados”.
Vamos, agora, às contas de Flávio Bolsonaro.
O escândalo da Rachadinha na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, que catapultou para o estrelato o infame ex-policial Fabrício Queiroz, teria resultado sozinho em um desvio de R$ 2 milhões em salários de assessores. Some-se a isso, os R$ 134 milhões solicitados pelo filho 01 de Jair ao notório Daniel Vorcaro, o banqueiro picareta que estruturou o esquema de pirâmide que atendia pelo nome de “Banco Master”. E vamos ser ainda mais bonzinhos, descontando desse valor o que Vorcaro deixou de pagar. Resta um saldo de R$ 61 milhões efetivamente recebidos, que trafegaram por vias tortas e fundos no exterior para supostamente financiar a cinebiografia do pai. Por último, há ainda R$ 1,5 milhão de notas emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro para empresas de fachada ligadas à estrutura de Vorcaro.
Após 93 dias, a prestação de contas do filme prometida pelo próprio Flávio Bolsonaro não apareceu. Das 41 notas fiscais emitidas pelo escritório, 38 permanecem desconhecidas. Somando tudo — e presumindo que tudo seja verdade, como o experimento que estamos montando exige —, o valor envolvido nos escândalos de Flávio chega a aproximadamente R$ 64 milhões.
Na ponta do lápis, R$ 64 milhões são exatas quatro vezes mais do que o montante de dinheiro atribuído por corrupção a Lula (R$ 16 milhões). Então, se ambos são corruptos – presumindo-se que tudo seja verdade – e sendo certo que Flávio, nessa perspectiva, teria “roubado” mais do que Lula, como admitir que um eleitor possa votar o atual presidente “por causa da corrupção do PT”?
Aparentemente, esse tipo de eleitor comporta-se de acordo com os princípios da mecânica quântica ironizados pelo experimento de Schrödinger. Esse mesmo eleitor que adora vociferar aos quatro ventos contra a corrupção do PT é o mesmo que, para próprio conforto mental, passa pano para as acusações de corrupção contra Flávio e toda a família Bolsonaro.
Enquanto a “caixa política” está fechada, esses dois estados mentais podem coexistir simultaneamente. Mas, se a caixa for subitamente aberta, a ambiguidade colapsa diante da realidade. Por isso mesmo, todo eleitor “conservador” recusa-se terminantemente a discutir evidências. Para não encarar as próprias contradições, ele simplesmente se recusa a “abrir a caixa” para enxergar o que há de fato lá dentro. Numa lógica de “coerência” completamente distorcida, nenhum fato é capaz de se contrapor às suas opiniões, por mais impactantes e incontornáveis que sejam as evidências.
Contudo, para desespero desse tipo eleitor, a Física eventualmente resolve – a contragosto, é verdade – essa ambiguidade. No nosso caso, a caixa será aberta em outubro. Haverá uma eleição e o eleitor será obrigado a colapsar sua superposição quântica numa escolha concreta. Não dá para votar simultaneamente “contra a corrupção” e a favor do candidato com o maior volume de acusações em valores da disputa. É uma contradição insuperável que nem o mais empedernido dos anti-petistas vai conseguir superar.
O problema é que Schrödinger nunca viveu numa república onde o eleitor decide em qual realidade prefere acreditar antes de olhar para dentro da caixa.
E é aí que mora o perigo das próximas eleições…