A despedida de Sean Connery, ou O adeus ao maior ator do século XX

Com algum atraso devido a condições técnicas imprevistas, a atualização semanal deste blog não poderia ser outra coisa senão a derradeira homenagem ao escocês mais querido de todos os tempos: Sean Connery.

Ex-James Bond, ator Sean Connery morre aos 90 anos | Poder360

Quem acompanha o Dando a cara a tapa há mais tempo certamente deve ter percebido o quanto o Blog reverenciava o grande ator britânico. Desde um primeiro post na primeira infância deste espaço (aqui), passando por um paralelo de um de seus melhores filmes (Encontrando Forrester) com o futebol brasileiro (aqui), e até numa servido de mote para uma edição comemorativa da Despontando para o anonimato (aqui), Connery sempre foi uma presença constante neste espaço. E, claro, também uma grande inspiração.

Mas o que faz de Sean Connery, ao menos na modesta opinião deste que vos escreve, o maior ator do século XX?

À primeira vista, a afirmação parece quase heresia. Para além de desconsiderar totens de priscas eras da Sétima Arte, como Clark Gable e Humphrey Bogart, mesmo atores mais “novos” poderiam facilmente se encaixar nessa categoria. Quem, em sã consciência, poderia excluir de qualquer lista do gênero figuras como Al Pacino, Robert de Niro e Jack Nicholson, pra ficar apenas nos três exemplos mais óbvios?

À segunda vista, no entanto, a conclusão chega quase a ser óbvia. Em primeiro lugar, Sean Connery foi o responsável por construir aquele que, talvez, tenha sido a maior personagem cinematográfica de todos os tempos: Bond, James Bond. E repare no verbo utilizado: “construir”. Até Dr. No, Bond só existia nas páginas de Ian Fleming. Sean Connery foi o responsável por dar ao espião assassino, mulherengo e arrogante um carisma e uma credibilidade que nenhum outro ator talvez pudesse fazer. Roger Moore, o segundo Bond e preferido de Fleming para o papel, teria transformando facilmente o 007 em um canastrão de comédia pastelão. Daniel Craig, o Bond de plantão, talvez transformasse o espião numa versão mais refinada dos filmes de Bud Spencer.

Mas construir Bond não foi a única proeza de Sean Connery. Na verdade, sua maior proeza foi conseguir se desvencilhar da personagem. Atores que fazem grandes papéis por vezes ficam marcados para sempre com a marca da personagem, como se houvesse uma simbiose entre o ator e o papel, de modo que não seja mais possível distinguir one começa um e onde termina outro. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Mark “Luke Skywalker” Hamill, ou mesmo com Luis “Beto Rockfeller” Gustavo, para ficar em um exemplo mais próximo da nossa realidade. Esse efeito torna-se ainda mais grave quando sua participação na interpretação se prolonga em alguma forma de sequência. E Connery fez nada menos do que sete filmes como James Bond (sem ter praticamente nada de relevante para apresentar antes disso).

Não. Connery não só conseguiu construir uma carreira para além dos filmes de James Bond como carregou grande parte do que emprestou à personagem para uma série de papéis que não teriam qualquer credibilidade se não fosse o ator escocês a interpretá-los. Quem poderia levar a sério, ainda que somente para popcorn purposes, um senhor sexagenário lutando contra a elite dos fuzileiros Seal dos EUA em A Rocha. Ou mesmo contracenar, sem parecer bizarro, com um par romântico do naipe de uma Catherine Zeta-Jones no auge de sua forma em A Armadilha?

Connery, portanto, era o ator perfeito para transformar mesmo papéis menores ou pouco credíveis em marcas diferenciais de um filme. E foi assim que ele fez com o capitão Marko Ramius, de Caçada ao Outubro Vermelho, com o policial James Malone em Os Intocáveis e, claro, como o pai do lendário Indiana Jones em A última cruzada.

Nenhum desses papéis, contudo, alcança a magnanimidade que ele confere a William Forrester em Encontrando Forrester. Um roteiro super previsível, com um elenco que estava longe de ser estelar, transformou-se quase numa obra-prima graças à credibilidade que ele confere ao recluso escritor escocês que resolve se esconder no Bronx. Connery não só empresta o necessário carisma àquele ser recluso, como ainda não se intimida ao interpretar a si mesmo como escocês temperamental, chegando mesmo a fazer piada disso. Somente alguém com suficiente segurança de sua própria capacidade é capaz de produzir essa façanha sem cair no ridículo.

Fica, pois, essa pequena homenagem do Blog àquele que foi o maior ator do século XX, com uma breve cena daquele que deveria ter sido seu último filme na telona:

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