Recordar é viver: “Babando pelas Meninas”

Já faz algum tempo que não rola nada na seção das Artes deste espaço.

Para reparar a falta, aí vai um dos primeiros posts sobre o assunto, sobre um dos quadros mais fantásticos que alguém um dia já pintou.

Babando pelas Meninas

Publicado originalmente em 21.3.11

 

Eu sei, eu sei: Mona Lisa é o quadro mais famoso do mundo. Foi pintado por Da Vinci, talvez o mais genial ser humano que já pisou por essas bandas. Tá no Louvre, o que significa que está Paris, a cidade que todo mundo quer conhecer.

Mas…

Quando você chega lá, a sensação – acredite – é de um pouquinho de decepção: “Ué? Mas é só isso o quadro?”

Por “só isso”, entenda-se: o quadro é muito pequeno. Quer dizer, é um quadro de dimensões normais; do tamanho de qualquer tela que você pode comprar numa feira de artesanato numa capital do Nordeste. Além disso, aquele catatau de gente querendo tirar fotos somada à desproporcional parede na qual ela está colocada aumenta ainda mais a sensação de miudeza do quadro. Isso para não falar na “simpatia” dos seguranças do museu.

A sensação que se fica é: “Quero mais”.

Bom, se você “quer mais”, se você quer ver um quadro e, ao vê-lo, pensar assim: “Puxa vida, é exatamente do jeito que eu imaginava”, mude seu destino. Pare um pouquinho antes de Paris; vá a Madrid.

Ok, Madrid não é lá a cidade mais fantástica do mundo. Não tem a mesma beleza de Paris, não é divertida como Londres, não é alegre como sua rival Barcelona. Mas tem o Prado. E só isso já vale a visita.

No Prado, há uma sala somente para algumas telas de Velázquez. Ao fundo, resplandecendo sobre todas as outras, fica Las Meninas, a obra-prima desse pintor espanhol:

Las Meninas

Diego Velázquez fora contratado em full time por Felipe IV, Rei da Espanha, para ser o pintor oficial da corte. Por que um pintor oficial? Bem, naquela época não havia câmaras – nem com filme nem digitais. Muito menos Youtube. Pintar, portanto, era uma forma de retratar os acontecimentos de modo que ficassem para a posteridade.

Não por acaso, você verá quadros de Velázquez pintando Felipe IV de todas as formas, em todos os ângulos, fazendo todo tipo de peraltice. Gordo, magro, novo, velho, cabelos brancos ou tingidos, não importava: “Ô, camareira, chama ali o Velázquez pra me pintar aqui enquanto faço as unhas”.

Bom, mas enquanto não satisfazia os desejos d’El Rey, Velázquez dedicava-se a pintar outras coisas. Mas, ironicamente, foi uma pintura da Família Real Espanhola a sua tela mais perfeita.

Las Meninas retrata a infanta Margarida de Áustria, primogênita do casal real (a loirinha no meio, de vestido branco). Ao seu lado, as suas acompanhantes, as damas de companhia da infanta. Curiosamente, os espanhóis as chamavam de Meninas, que é uma palavra portuguesa, para designar as damas de companhia. Se fossem realmente “meninas” em espanhol, o quadro se chamaria Las Niñas.

O que torna Las Meninas um quadro tão interessante é a perspectiva que Velázquez retrata. Note que, na cena, é o próprio Velázquez quem está à esquerda, pintando uma tela. Ao fundo, no espelho, há o vulto de dois personagens: Felipe IV (óbvio) e sua esposa, Mariana de Áustria.

Mas a sensação que se tem é que Velázquez está pintando você; todo mundo na tela parece que está olhando pra você. Daí a empatia natural que o observador desenvolve com a tela.

Las Meninas é um quadro de se admirar. Você entra na sala e, à medida que se aproxima, o quadro vai ficando maior, mais fulgurante, mais impressionante. Não se espante se de repente sua boca se abrir e você começar a babar; isso acontece com alguns. Puxe um lenço do bolso, passe na boca e continue a olhar. Desvie sua atenção do quadro um pouco e veja as pessoas ao seu lado fazendo o mesmo: se embasbacando pela tela. Tudo isso enquanto dois ou três pintores olham pra obra e a copiam (você pode depois comprar uma reprodução na saída).

Sim, sim, Madrid não é Paris. O Prado não é o Louvre. Mas, se o seu desejo é se embasbacar por uma tela, não deixe de ir à capital da Espanha. Você não vai se arrepender.

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