Um Conto de Natal

Eu sempre costumo insistir com quem me é próximo que ler é um santo remédio. “Mas ler o quê?”, é o que sempre me perguntam em seguida. Começar pelos clássicos é a melhor forma de aprender muito e poupar tempo na busca. Nesse sentido, talvez nenhum deles seja mais fascinante do que Um Conto de Natal.

Todo mundo – ou, pelo menos, quase todo mundo no Brasil – já viveu a experiência de se sentar à mesa no dia 24 de dezembro, na véspera da data que, segundo o calendário cristão, marca o nascimento de Jesus Cristo. Família reunida, enfeites por toda a casa, árvore cheia de presentes e um belíssimo peru ao centro da mesa. Pouca gente, no entanto, tem noção de que devemos tudo isso a uma só pessoa: Charles Dickens.

Em 1843, a Inglaterra vivia o auge da Revolução Industrial. Ao lado da imensa riqueza que geraria o famoso “Império-onde-o-Sol-não-se-põe”, grassava também a miséria. Historiadores costumam chamar esse período de The Hungry Forties, ou Os Famintos Anos 40 (do século XIX). Crianças de oito anos trabalhavam catorze horas por dia em minas de carvão. Uma lei de 1834 (alô, Renan Santos?) determinava que a ajuda aos pobres só seria prestada em instituições propositalmente degradantes, projetadas para “desencorajar” a pobreza (como se ela fosse uma opção).

Nesse mesmo período, o parlamento britânico abriu uma espécie de CPI para investigar as condições degradantes em que vivia a população. Quando ao final o relatório foi publicado, toda a gente se escandalizou. O relato sobre o trabalho infantil era especialmente devastador para as pessoas de bom coração.

Dickens teve acesso ao relatório. Ao lê-lo, foi tomado por um misto de tristeza e raiva. Para o escritor, aquele tipo de relato não tinha de abstrato. Dickens tinha doze anos quando seu pai foi preso por dívidas e forçado a trabalhar numa fábrica infestada de ratos. É o tipo de trauma que qualquer pessoa carrega consigo pelo resto da vida. Para Dickens, o retrato das crianças nas ruas de Londres não eram senão um espelho do que ele havia sido. Felizmente, o escritor transformou a fúria em escrita.

E assim nasceu A Christmas Carol (“Um Conto de Natal”).

Em pouco mais de 100 páginas, Dickens praticamente redesenhou a forma com a qual celebramos o nascimento de Cristo. Até então, o Natal era comemorado em festivais comunitários nas ruas, quase como um carnaval, regado a muita bebida. O foco não era a família, nem as crianças, muito menos a caridade e a reconciliação. A idéia era simplesmente celebrar as colheitas de inverno e encher a cara. Nada muito diferente de como os romanos celebravam o 25 de dezembro antes do surgimento do cristianismo (para saber mais, clique aqui).

A história gira em torno de Scrooge, um velho avarento que odeia o Natal e tudo o que o rodeia. Na véspera do feriado, ele recebe a visita de três espíritos: o do Natal Passado, o do Natal Presente e o do Natal Futuro. Em resumo, os espíritos conduzem Scrooge por uma jornada pessoal. Não é um conto de terror (embora tenha fantasmas). Não é um sermão (embora esteja recheado de moral). No fundo, trata-se de uma história de redenção. E ela funciona justamente porque Dickens compreende que as pessoas não mudam por obrigação. Elas só mudam – quando mudam – quando confrontam, com honestidade, o que se tornaram e o que perderam pelo caminho.

Originalmente, a idéia de Dickens era escrever uma espécie de manifesto político. Um amigo, entretanto, convenceu-o do contrário. Panfleto sobre política ninguém iria ler, dizia ele (não sem alguma razão). Ao invés de ficar com raiva ou praguejar contra o amigo, Dickens agradeceu o conselho, mas não sem antes avisá-lo de que escreveria no lugar do manifesto algo que teria o impacto de “um golpe de marreta” na consciência da sociedade. Em apenas seis semanas, caminhando de madrugada pelas ruas escuras da Londres vitoriana, Dickens escreveu a obra de cabo a rabo.

O impacto foi imediato e, como se verificou depois, permanente. Donos de fábricas começaram a fechar as portas das fábricas no Natal. Melhor: começaram a mandar presentes aos seus funcionários. Leitores escreveram a Dickens relatando que haviam perdoado parentes com quem estavam brigados há anos. Críticos que raramente cediam ao sentimentalismo renderam-se completamente. Um deles escreveu que o livro havia “fomentado mais atos concretos de caridade do que todos os sermões da cristandade”.

Eu sei, eu sei. Não foi Dickens quem inventou a história da árvore de Natal. A idéia veio do Príncipe Albert, marido da Rainha Vitória, herança de sua origem alemã. Tampouco veio de Dickens a história do Papai Noel. Mesmo assim, deve-se a ele a transformação de uma festa de rua cheia de álcool numa celebração intimista, dentro de casa, reunindo a família e consagrando a generosidade. Não haverá, portanto, qualquer exagero em dizer que devemos o que hoje chamamos de “Espírito de Natal” ao autor inglês.

Ao contrário de outros, o livro não é daqueles clássicos “pesados”. Pelo contrário. É um texto fluido, bastante amigável e pode ser lido numa única tarde sem muito esforço. Quem começa a lê-lo sente-se obrigado a terminá-lo. Se isso é raro para qualquer livro, imagine para um que foi escrito há quase duzentos anos.

Quem ainda não leu Um Conto de Natal está, tecnicamente, celebrando o Natal de Dickens sem ter sido sequer apresentado ao seu autor. Este dezembro, corrija essa injustiça. Você tem uma tarde. Dickens tem uma história que vai durar o resto da sua vida.

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