“A maior Copa de todos os tempos”, ou O saldo da Copa do Mundo de 2026

Há uma tradição da mídia esportiva que insiste em afirmar, edição após edição, que a Copa do Mundo em curso é a melhor de todos os tempos. Foi assim com a Copa de 2006, na Alemanha. Foi assim com a Copa do Mundo na África do Sul, em 2010. E foi assim até com a Copa do Brasil, em 2014 (chamada à época de “Copa das Copas”).

Trata-se de marketing puro, ninguém duvida. O raciocínio por trás dessa equação de grandiosidade é lógico: quão mais grandioso o evento possa parecer, maior tende a ser a audiência; quanto maior a audiência, mais caro o intervalo comercial; quanto mais caro o intervalo comercial, mais grana no bolso de quem veicula o evento. Com a CazéTV assumindo a lideranças das transmissões, não seria a Copa de 2026 que fugiria à regra. Mas, se no quesito quantitativo a afirmação de que esta foi a “maior Copa de todos os tempos” parece correta – afinal, foi a primeira a contar com 48 seleções -, em outros quesitos não foi exatamente assim.

No quesito técnico, há de se reconhecer que esta Copa superou em muito o que dela se esperava. Quando a maioria dos analistas receava um padrão técnico de várzea, pela quantidade absurda de seleções incluídas no certame – o que levou inclusive ao ajuste bizarro da fase de “dezesseis-avos-de-final” (sic) -, a Copa da América do Norte apresentou um nível técnico absolutamente surpreendente.

Compará-la à Copa do México em 1970 é heresia, tanto quanto comparar Messi a Pelé. Mesmo assim, a Copa deste ano está longe de fazer feio a outras edições históricas, como a de 1982 na Espanha, ou mesmo a sempre subestimada Copa da França, em 1998. Além de ser superior na média de gols (2,91 por partida, contra 2,81 em 1982 e 2,67 em 1998), a Copa deste ano consagrou um nível de paridade entre as equipes poucas vezes visto em campeonatos desse gabarito. Ou alguém haverá de esquecer que a finalista Argentina quase caiu em dois jogos épicos, para a estreante Cabo Verde e para o Egito (zero tradição em Copas)?

Se no campo a Copa foi uma festa, fora dele a coisa muda de figura.

Com a principal sede sendo nos Estados Unidos de Donald Trump, boa coisa não seria de se esperar. E boa coisa foi o que não veio. Antes mesmo da bola rolar, houve o bizarro impedimento imposto à seleção do Irã para pernoitar em solo norte-americano. Isso contrariava não só o bom senso, como também o próprio regulamento da Fica para a Copa. A palhaçada de cunho estritamente político – lembrando que foi o Laranjão quem atacou o Irã primeiro, e não o contrário – obrigou o escrete iraniano a instalar em Tijuana, no México, para em todo dia de jogo cruzar a fronteira e estar apta a voltar para a sua concentração. Esse, porém, não seria o único favor que a Dona Fifa faria aos donos da casa.

Numa situação estapafúrdia e sem precedentes na história das Copas, o atacante da seleção norte-americana Balogum teve o cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus simplesmente anulado por Gianni Infantino após receber uma ligação do Nero Laranja pedindo para passar a mão na cabeça do rapaz. Mesmo com o histórico de décadas da Fifa propalando aos quatro ventos que as suas decisões disciplinares eram isentas de qualquer pressão política, o presidente da Fifa passou por cima de todo mundo na entidade para atender aos caprichos do Laranjão. Felizmente, a bola fez justiça e a seleção norte-americana foi eliminada por inapeláveis 4×1 para a Bélgica.

Para piorar, o alinhamento ideológico de Javier Milei a Trump e o potencial comercial e midiático de Lionel Messi levaram a acusações sistemáticas de favorecimento da Argentina pelas arbitragens nos jogos. Foram vários os episódios em que intervenções discutíveis dos árbitros levaram a decisões discutíveis dentro de campo. O exemplo maior talvez tenha ocorrido no jogo contra o Egito, no qual uma suposta falta não marcada no início da jogada levou a uma anulação estranhíssima do VAR de um gol que, para todo mundo que estava assistindo à partida, pareceu mais do que legítimo.

E por falar em Argentina, a final merece uma análise à parte. Embora a Copa inteira tenha sido pródiga em nos brindar com jogos emocionantes e de grande qualidade técnica, a disputa pela taça foi quase um anti-clímax do campeonato. Trata-se da final mais desequilibrada desde pelo menos quando as Copas passaram a ser transmitidas pela ao vivo pela televisão. De maneira patética, a Argentina renunciou ao futebol e deu seu primeiro ao chute a gol somente nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação. Não fossem os dois gols anulados de maneira duvidosa, o placar teria sido de justíssimos 3×0. Fora isso, o anti-jogo dos argentinos levou ainda a seis cartões amarelos, uma expulsão e uma confusão típica de jogo de várzea após consolidada a derrota.

Para a posteridade, pode-se intuir que o os livros de história terão dificuldade em organizar um legado único e coerente sobre esta Copa de 2026. Dentro de campo, o torneio foi prenhe em qualidade e viu desfilar alguns dos melhores atletas de todos os tempos – casos de Haaland, Mbappé, Lamine Yamal e do próprio Messi. Nas arquibancadas, cobraram-se os ingressos mais caros da história, cortesia do modelo de “preços dinâmicos” que a Fifa adotou ao estilo Uber. E, fora de campo, assistimos com clareza quase cínica à desfaçatez de um sistema corrompido e decadente de administração do esporte mais popular do planeta.

Em 1970, o México entregou a Copa mais bonita da história. Em 2026, os Estados Unidos entregaram uma Copa quase tão bonita, mas tão suja quanto as piores que a Fifa já produziu. A diferença foi que, dessa vez, ao menos ninguém fingiu que não estava vendo.

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