Copa das Copas? ou Qualidade x Emoção

Quem dissesse que estava esperando o que se viu desde que a Copa do Mundo começou estaria mentindo. Tudo bem que ninguém esperava algo semelhante à horrorosa Copa de 2010, mas o nível de futebol praticado nas primeiras rodadas do Mundial do Brasil tem se mostrado assustadoramente alto. Jogadas geniais, viradas de placar e uma quantidade de gols que não se via desde a Copa de 1982. Enfim, todos os ingredientes para que se possa dizer, sem medo de errar, que, dentro de campo, a Copa tem sido um sucesso. Mas será esta a melhor Copa de todos os tempos, a “Copa das Copas”?

Nesse ponto, a porca entorta o rabo.

Deixemos de lado, por ora, a constatação evidente de que o Mundial ainda não se encerrou (ainda vamos assistir às quartas-de-final). Como a última impressão – nesse caso, o jogo final – é o que normalmente fica, é ainda arriscado fazer um prognóstico definitivo de como esta Copa será vista daqui a uma ou duas décadas. Mesmo assim, o apanhado geral já permite esboçar algum tipo de análise quanto ao tipo de futebol jogado até o momento

Diferentemente de outros mundiais, não há uma “seleção sensação”. Nenhum time encantou ainda o público, ou, pelo menos, nenhum o fez de forma consistente. Ao contrário, por exemplo, da Hungria de 54 e da Holanda de 74, que massacraram todos os seus adversários até perderem a final contra a Alemanha, não há nenhuma seleção impondo seu jogo às demais. Promessas da primeira fase, como a Holanda (5×1 na Espanha) e Alemanha (4×0 em Portugal), penaram nos jogos seguintes e, em ambos os casos, passaram às quartas com as calças na mão, jogando contra adversários teoricamente mais fracos (México e Argélia).

Por outro lado, esse aparente equilíbrio geral tem gerado partidas emocionantes. Tivemos quase 10 jogos com viradas de placar. Grande parte dessas viradas ocorreu nos últimos quinze minutos de partida. Pra melhorar, cinco dos oito jogos das oitavas foram à prorrogação, com as partidas sendo decididas nos derradeiros cinco minutos de disputa (vide os casos já citados de Alemanha e Holanda). Somando-se a isso tudo a boa média de gols até aqui, pode-se dizer que emoção é o que não está faltando na Copa de 2014.

Mas é possível dizer que esta é a melhor Copa de todos os tempos?

Bom, se nós entendermos “melhor” como a de “maior qualidade técnica”, a resposta é um sonoro não.

Em muitas partidas, vê-se uma quantidade razoável de gols, mas disso não decorre necessariamente um jogo de alto nível técnico. Por exemplo: Itália 2 x Inglaterra 1 foi um jogo muito melhor do que Argélia 4 x Coréia do Sul 2, embora tenha contado com metade dos gols desta partida.

Embora seja sempre temeroso comparar gerações distintas, a Copa de 1970 continua ostentando o primeiríssimo lugar no ranking de “Melhores Copas de Todos os Tempos”. Não só porque o Brasil tinha uma seleção com Pelé, Rivellino, Tostão e Gérson, mas porque a Alemanha tinha Beckenbauer, a Itália tinha Gigi Riva e até mesmo o modesto Peru tinha Cubillas para encantarem o público. Fora isso, os dois jogos mais emocionantes da história das Copas – segundo votação mundial realizada pela Fifa – são justamente da Copa de 70: Itália 4 x Alemanha 3 na semifinal; e Brasil 4 x Itália 1, na final.

Depois de 1970, a Copa de 82 aparece ainda em um mui honroso segundo lugar. Claro que, nesse quesito, pesa muito o Brasil do quarteto mágico Zico-Sócrates-Falcão-Cerezo. Mas há ainda de se considerar a França de Platini, Fernandéz e Tigana, a Argentina de Maradona e Passarella, a Alemanha de Matthäus e Müller e a própria Itália de Conti e Paolo Rossi. O posto vem não porque todos eram craques da bola, mas porque protagonizaram duelos tecnicamente impecáveis, como a semifinal Alemanha 3 x França 3 (5 x 4 nos pênaltis).

Hoje, pelo menos na minha modesta opinião, o terceiro lugar fica com a Copa de 1998. O Brasil nem tinha uma seleção das melhores, mas várias seleções apresentaram um futebol de primeira, que dava gosto de ver: Inglaterra (Beckham), Argentina (Verón), Dinamarca (Laudrup) e, obviamente, a França (Zidane). Alguns jogos ainda não me saíram da memória e entrariam fácil na lista dos mais-mais das paradas: Brasil x Dinamarca, Inglaterra x Argentina e Brasil x Holanda, só pra citar três.

Com alguma sorte, se as retrancas inevitáveis das fases finais não atrapalharem, podemos passar a Copa da França e tomar-lhes o terceiro lugar. Mas é quase um sacrilégio desportivo chamar esta Copa de “a melhor da história”. Poderemos nos orgulhar, no entanto, de termos sediado o Mundial mais emocionante de todos os tempos.

E esse título, pelo menos pelo que se viu até agora, já está no papo. É só esperar pra ver.

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