A operação contra o Digimais, ou Explicando o esquema Ponzi

A piada às vezes nasce pronta.

Nesta terça-feira, a Polícia Federal deflagrou uma operação contra o Banco Digimais. Propriedade do Bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, o Digimais funcionava como mais daqueles bancos tipo o Master: longe dos olhos do grande público, mas perto, muito perto, de onde o dinheiro grosso costumava rolar. O nome da operação não poderia ser mais profético: “Miragem”.

Numa só canetada, a Justiça bloqueou R$ 670 milhões do banco e de seus administradores. O motivo era o de sempre: o Digimais teria manipulado demonstrativo contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação do seu balanço. Por meio de uma alegada contabilidade picareta, os administradores do banco estariam tentando simular uma solvência que há muito tinha deixado de existir. O esforço de maquiagem, contudo, não pareceu suficiente para enganar os olhos dos agentes federais.

Como de hábito, banco e administradores negam todas as falcatruas. Nos bastidores, já se começa a ouvir sussurros da velha e batida “tese de defesa” utilizada por quem não tem como se defender com argumentos razoáveis: tudo é fruto de “perseguição”. Independentemente do que tenha de fato acontecido e do desfecho criminal que o caso possa vir a ter, o caso do Digimais serve de mote para explicar a história do sujeito que elevou as fraudes financeiras à categoria de arte. O nome dele era Charles Ponzi.

Nascido Carlo Ponzi, em Lugo, na Itália, Charles ganhou a alcunha americanizada do nome ao desembarcar em Boston, em 1903. Com um punhado de dólares no bolso e uma ambição desproporcional à quantidade de dinheiro que carregava, Ponzi não demorou muito para conhecer a hospitalidade das prisões norte-americanas, após ser preso por falsificação e contrabando de imigrantes.

Não se sabe se Ponzi fez especialização em pilantragem depois de curtir uma temporada na cadeia, mas o fato é que ele saiu de lá um bandido muito mais sofisticado do que quando entrou. Começando com um esquema que envolvia selos e dinheiro de países de moeda fraca, Ponzi logou enxergou no marketing agressivo de anunciar retornos boçais em curto espaço de tempo uma espécie de mel a atrair todo tipo de mosca.

Foi com essa estratégia que ele começou a anunciar a investidores retornos de 50% em 45 dias e de 100% em 90 em troca de quem se dispusesse a lhe confiar a grana. Como seria de se esperar, a ganância da galera acabou por fazer a maior parte cega à impossibilidade material de um “investimento” que pudesse dar retornos tão grandes em tão pouco tempo. Em poucos meses, Ponzi estaria recebendo cerca de US$ 1 milhão por semana.

No final das contas, aquilo que entraria para a história como “Esquema Ponzi” estava estruturado em uma mecânica quase ofensiva de tão simples que era. Uma vez que não havia qualquer atividade produtiva real por trás dos anúncios de investimento, o esquema só poderia funcionar enquanto houvesse um fluxo crescente de novos aportes de investidores incautos. Com a grana nova que entrava, Ponzi pagava os credores antigos, mantendo a fachada de legalidade da operação.

O problema, como parece óbvio a qualquer néscio, é que esse tipo de operação é insustentável por longos períodos de tempo. Não é necessário sequer haver queda real nos investimentos. Basta que a quantidade de novos investidores comece a desacelerar para que a pirâmide formada comece a mostrar suas trincas. Quem está no topo tem mais chance de escapar (especialmente se foi quem bolou a pilantragem). Mas, para quem está na base que sustenta a figura triangular, normalmente o que sobra é só o prejuízo.

Obviamente, há várias diferenças do ponto de vista técnico entre um esquema Ponzi clássico e eventuais fraudes cometidas por gente como Daniel Vorcaro do Banco Master (e talvez dos administradores do Digimais). Enquanto no esquema Ponzi há a venda direta e despudorada de uma riqueza fantasiosa, os bancos geralmente trabalham com maquiagem de balanços destinada a manter uma solvência de fancaria. Se diferem na forma, contudo, ambos os esquemas equiparam-se no conteúdo: em algum momento, descobre-se que o dinheiro prometido não existe. Era apenas uma ficção contábil.

No caso de Ponzi, o esquema durou alguns meses. Quando o castelo de cartas arquitetado por ele enfim ruiu, Ponzi voltou a curtir uma temporada na cadeia. Depois de dez anos preso, Ponzi foi libertado. E para onde ele decidiu vir? Sim, você acertou. Aqui mesmo, no Brasil. O italiano radicado norte-americano veio curtir as belezas naturais do Rio de Janeiro, onde morreu em 1949, na miséria, morando em um quarto alugado, sustentado somente pela caridade de estranhos.

A lição que Ponzi e seu esquema deixaram é bastante simples: toda promessa de retorno extraordinário sem risco correspondente encerra algum tipo de fraude. A diferença entre o vigarista clássico e uma instituição financeira regulada pelo Banco Central encontra-se tão-somente na qualidade do embuste oferecido. A aritmética que conduz à ruína, entretanto, é rigorosamente a mesma.

Disso tudo, o que sobra é uma lição tão antiga quanto a própria ganância: se o banquete oferecido for farto demais, desconfie; o prato principal pode ser você.

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