A miopia da imprensa, ou Da necessidade de mudança no horário das escolas

Não é segredo pra ninguém a opinião deste que vos escreve acerca da imprensa nacional. Não que eu seja contra a imprensa em si, é claro, mas o que critico é o mau uso de um instrumento potencialmente transformador da realidade. Um dos principais problemas da imprensa deriva de sua miopia prognóstica. Traduzindo: em 99,99% dos casos, os repórteres se limitam a retratar um fato passado para o distinto público, sem projetar quais as implicações desse fato na realidade. Assim como o efeito borboleta, todo fato histórico, por mais ínfimo que seja, acabará fatalmente transformando de maneira definitiva o futuro que se avizinha.

Um bom exemplo do que pretendo dizer pode ser visto no caso da aprovação da PEC das domésticas. Além de retratar o óbvio – a PEC equipara as domésticas aos demais trabalhadores – o máximo de projeção futura que a imprensa é capaz de enxergar são os (eventuais) reflexos dessa mudança no mercado de trabalho. E, ainda assim, de maneira sumamente limitada. A mudança vai aumentar o custo do trabalhador, logo vai aumentar o desemprego na área. Ninguém explora, por exemplo, o fato de que o inevitável aumento da renda do trabalhador doméstico acabará por impor qualificação maior aos próprios trabalhadores e, por conseguinte, restringirá ainda mais a quantidade de pessoas capazes de pagar pelo serviço.

Como as necessidades da classe média não vão mudar tão cedo, algumas mudanças de hábito acabarão se impondo: gente que não estava acostumada a passar roupa ou a cozinhar no final de semana vai ter que se virar pra ajeitar o paletó e a janta quando a empregada estiver de folga. Fora isso, como o sujeito não terá mais capacidade financeira para bancar uma equipe de serviçais na sua casa, inevitalmente ele terá de optar entre uma delas. Quem tem uma empregada e uma babá, por exemplo, vai ter que optar entre uma delas. Como a empregada normalmente faz mais falta que a babá, a segunda vai rodar. E aí surge o problema: o que fazer com as crianças no período em que elas não estiverem na aula?

Uma das saídas será reverter uma das maiores infâmias cometidas diuturnamente contra crianças e adolescentes de todo o país: mudar o horário das aulas dos estudantes.

Na maior parte dos países civilizados, as escolas funcionam em regime “integral”. É dizer: a criança ou o adolescente vai pra escola pela manhã, tem aula nesse período, almoça, tem aula à tarde e, ao final, ainda pode praticar alguma atividade física ou mental (aulas de língua, artes, etc.). Noves fora o fato de que a maior parte dos países – até os ultraliberais Estados Unidos e Inglaterra – garante esse tipo de educação de forma gratuita, a criança passa o dia inteiro sob a tutela da escola. Em regra, os jovens entram às 9h e só saem da escola às 17h, permitindo aos pais trabalhar de forma sossegada e pegar seus filhos somente depois do expediente.

Aqui, no entanto, o ensino é deformado. Desde sempre, as escolas brasileiras, movidas pelo lucro muito mais do que pelo desejo de ensinar, valem-se de uma esperteza: apertam o dia em dois horários (manhã, de 7h às 12h, e tarde, de 13h às 18h), fazendo com que o mesmo espaço físico acabe por servir ao dobro do contigente estudantil. Ganham dobrado, e não oferecem qualquer tipo de atividade física ou mental de maneira gratuita, salvo se os pais pagarem por fora.

As mais “ixpertas” ainda conseguem triplicar o lucro ao oferecer os sistemas de “educação integral”, cobrando aos pais quase o dobro do preço para oferecer o mesmo serviço prestado pelas escolas americanas e britânicas.

Não fosse o bastante a sanha financeira das escolas particulares, o próprio hábito de impor aos estudantes acordar às 6h da manhã para ir à escola revela-se uma tragédia. Estudos mil comprovam que o relógio biológico de crianças e adolescentes funciona de forma diferente da dos adultos. Eles precisam dormir mais horas. Faz parte do processo biológico do crescimento.

Além da constatação óbvia de que o jovem letárgico não consegue aprender quase nada na aula, ceifar as horas finais do sono ainda prejudica a parte essencial dele, na qual o cérebro consolida na memória as informações obtidas durante o dia.

Apenas para se ter uma idéia, uma escola britânica mudou seu horário de início das aulas das 9h (!) para as 10h(!!). Resultado? As faltas caíram 8% e a evasão escolar diminuiu em 27%. Não há dados acerca do desempenho dos estudantes, mas não é difícil prever que ele também dará um salto em relação ao horário anterior.

Evidentemente, as escolas – principalmente as particulares – vão chiar com a mudança no horário. Afinal, ninguém quer diminuir o seu rico dinheirinho. Mas, como também as mães não vão trocar o aumento do custo das empregadas pelo aumento do custo com as escolas, mais dia, menos dia, a queda de braço vai acabar prevalecendo, e as escolas terão de oferecer assistência full time, com horários menos cruéis para a garotada.

Do contrário, como ensina o velho e bom capitalismo, terão de fechar as portas. Quem sabe assim não se inicie uma campanha para melhorar a qualidade do ensino público fundamental?

Pense nisso.

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