O IPO da SpaceX, ou O mercado mais manipulado da história

Enquanto os olhos do mundo estão voltados para a Copa do Mundo, outro evento de impacto muito maior e mais profundo vai acontecer nos Estados Unidos. Amanhã, estreará na Nasdaq – a bolsa de tecnologia norte-americana – a SpaceX, a empresa interplanetária do multibilionário Elon Musk. Com o IPO da empresa que lança foguetes e pretende colonizar Marte, Musk deve se tornar oficialmente o primeiro trilionário (com T) da história da humanidade.

Não é pra menos. Precificada a US$ 135,00 por ação, a SpaceX chegará ao mercado valendo nada mais, nada menos do que US$ 1,75 trilhão (com T também). Para se ter uma idéia da dimensão disso, basta pensar que empresas já estabelecidas há muito tempo, como a Coca-Cola (US$ 360 bi) e a General Eletric (US$ 350 bi) não chegam nem perto disso. Mesmo no setor de tecnologia, no qual valuations acima de 1 trilhão de dólares são arroz de festa, o patamar do IPO da SpaceX impressiona. Trata-se de quase 60% do valor da Microsoft (US$ 3 tri) e 40% da Apple (US$ 4,3 tri).

Tendo superado logo de cara todas essas grandes empresas, a precificação da SpaceX parece ter superando também o bom senso. No ano passado, a empresa faturou US$ 18 bi, tendo um prejuízo – sim, PREJUÍZO – de US$ 5 bi. Trata-se possivelmente do maior caso de cash burn da história. Em que pesem os números desfavoráveis, a empresa pede ao mercado um valuation equivalente a 87 vezes a sua receita projetada. Isso é o dobro do múltiplo que a Nvidia atingiu no auge da histeria com IA em 2023. Quem compra uma empresa por esse preço, com essas condições, não está fazendo investimento. Está simplesmente apostando.

Para entender por que o mercado está disposto a engolir essa boçalidade de mais de um trilhão, é preciso olhar para o circo armado ao redor.

Parte do delírio vem de Washington. Desde fevereiro, o S&P 500 virou refém do roteiro geopolítico envolvendo o Irã. O padrão é previsível a ponto de ser patético: Trump ameaça atacar, o mercado cai; Trump dispara um tweet recuando da ameaça, o mercado sobe. Pelo levantamento da CNN americana, o Laranjão fez isso nada menos do que 37 vezes desde o começo do conflito. Quem sabe antecipadamente dessa informação faz fortuna em poucos minutos. Isso não é livre mercado. É um cassino com cartas marcadas, no qual a house – aliás, a White Housealways wins.

Nem tudo, entretanto, é só manipulação. Ou, pelo menos, não é manipulação grosseira fundada em insider trading. Há a mecânica intrínseca do mercado de opções. Quando um investidor compra uma call (que é uma opção de compra de um papel), o market maker (ou seja, os grandes bancos que vendem essas opções) compram essas ações justamente para se protegerem caso a ação venha de fato a subir.

Esse movimento de hegde é chamado tecnicamente de gamma squeeze. Trata-se de um fenômeno curiosíssimo. Como os “sardinhas” – ou seja, os pequenos investidores – gastam centavos por cada call adquirida, o mercado acaba subindo numa espécie de retroalimentação: mais opções = mais compra do próprio papel para hegde. O S&P sobe puxado pela própria inércia de proteção, como uma roda financeira gigante girando no vácuo.

Mas, enquanto as ações festejam no melhor estilo oba-oba, na renda fixa já soou o alarme de incêndio.

Os juros das treasuries americanas estão nas máximas dos últimos anos: o título de 10 anos bateu 4,6%, e o de 30 anos ultrapassou 5,1%. A inflação ao consumidor está em 4,2% ao ano, o dobro da meta do FED (2%). Com o petróleo beirando os US$ 95 graças à guerra no Irã, o Fed não tem margem para cortar juros. Pelo contrário. A hipótese mais provável agora é de que o BC norte-americano suba os juros ainda este ano.

Sites especializados já mapeiam as rachaduras no casco. Jamie Dimon (JPMorgan) já disse que o risco de correção é muito superior àquela que o mercado precifica. Michael Burry, o lendário investidor que shorteou o mercado imobiliário em 2008, acumula posições vendidas gigantescas contra as empresas de tecnologia. Mais importante: estrategistas do Deutsche Bank já tratam essa enxurrada de mega-IPOs (SpaceX, OpenAI, Anthropic) como o último suspiro da euforia, espelhando o topo da bolha das pontocom nos anos 2000.

Historicamente, essas avaliações fazem todo o sentido. Afinal, tradicionalmente grandes IPOs marcam o ápice da festa antes de a luz apagar de uma vez. Foi assim com a compra da Time Warner pela AOL (2000). Foi assim com os IPOs das empresas de Eike Batista no Brasil em 2008. E foi assim com a abertura de capital do Facebook em 2012.

Elon Musk aproveita a euforia ensandecida do mercado financeiro para pedir que lhe paguem por ação de sua empresa (que dá prejuízo) o equivalente a 87 vezes da sua receita. Isso no meio de uma tempestade inflacionária, juros nas máximas e manipulação de mercado descarada. Se a história nos ensina algo, o IPO da SpaceX deve marcar oficialmente do topo deste ciclo de mercado por um bom tempo.

Quem diria? A SpaceX, a empresa que promete mandar o homem para o espaço, pode acabar fazendo a mesma coisa com o mercado de ações. Como diria Morpheus, fate, it seems, is not without a sense of irony.

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