A menos de 48h do início do maior evento esportivo do planeta, a pergunta é incontornável:
“A Copa vai flopar”?
Conforme já explicado aqui certa feita, o neologismo anglicista é um pretendente a verbo intransitivo, guardando com seu congênere inspirador o mesmo sentido: “fracassar”. O novo verbo tem sido largamente empregado para designar situações em que, ao contrário do que normalmente se esperaria, o evento ansiado acaba resultando em frustração. Nesse sentido, a Copa do Mundo deste ano talvez revele o exemplo mais bem acabado para utilização dessa nova forma de linguagem.
Não que não haja razões para a má vontade. Pelo contrário. Há eventos que funcionam como espelhos impiedosos. No caso da Copa do Mundo deste ano, existe a impressão de que tudo,tudo o que precisava ser dito já o foi muito antes do primeiro apito. O que era pra ser uma festa do futebol transformou-se numa extensão da política externa ensandecida do Nero dos nossos tempos. Enquanto os jogos deveriam ser uma celebração da paz, aqui a personagem nem um pouco oculta em cada um dos palcos é a guerra.
Comecemos pelo óbvio. Esta será a primeira Copa do Mundo, desde sua criação há quase 100 anos, na qual a nação anfitriã receberá uma seleção de um país com o qual está em guerra. Meses depois, lá estão os jogadores iranianos para bater uma bola na terra do Tio Sam. Receber os atletas já pareceu “ousadia” demais, razão pela qual os norte-americanos permitiram o ingresso dos persas somente no dia das partidas. Com isso, construiu-se a bizarra situação na qual os atletas de uma seleção que compete na Copa vão entrar no país para jogar uma partida e, finda a disputa, terão de pegar o avião de volta para o México. E com essa falta de noção morre também a idéia de paridade de armas numa disputa tão parelha.
Não bastasse o constrangimento logístico de ter a concentração em Tijuana, do outro lado de uma fronteira vigiada, a Federação Iraniana de Futebol anunciou que sua cota de ingressos para torcedores foi barrada pelos Estados Unidos às vésperas do início do Mundial. Ingressos regulamentares, cotas garantidas pela FIFA a todas as federações participantes, todos foram simplesmente revogados. A Federação Iraniana classificou a medida como “contrária ao espírito das competições internacionais”. Não se sabe o que o Nero Laranja achou da medida, mas é provável que a tenha aprovado.
Os torcedores de outros países não ficaram muito melhor. De 42 integrantes de uma associação oficial de torcedores de Marrocos que solicitaram visto, apenas dois obtiveram autorização para viajar. Torcedores do Haiti, do Senegal e da Costa do Marfim relataram obstáculos análogos. Enquanto isso, mais de 120 grupos da sociedade civil emitiram um alerta de viagem advertindo visitantes estrangeiros sobre riscos de prisão, deportação, monitoramento invasivo de dispositivos eletrônicos e tratamento degradante do ICE a imigrantes. Em Dallas, distribuíam-se apitos para que moradores sinalizassem a presença de agentes migratórios. Torce-se, apenas, para que eles não soem durante os jogos, para não confundirem com o apito do juiz.
E por falar em juiz, nenhum caso relata melhor o surrealismo da Copa nos Estados Unidos do que O o de Omar Artan. Árbitro da Somália, eleito o melhor da África em 2025, Ortan fora convocado formalmente pela FIFA para apitar o Mundial. Desembarcado em Miami, o somali foi levado imediatamente a uma sala de inspeção, onde passou cerca de 11 horas sendo interrogado por agentes de imigração. Pouco importava o visto e a documentação válida. O árbitro africano foi deportado de volta à Somália.
Convocada a se manifestar, a Fifa – como de hábito – preferiu sair pela tangente: “A FIFA não se envolve nos processos de imigração dos países sedes, incluindo concessões de vistos”. Trata-se da mesma FIFA que, na Copa do Brasil de 2014, exigiu legislação trabalhista específica, isenções fiscais e proteções contratuais extraordinárias do país-sede para “aceitar” fazer a Copa aqui. Gianni Infantino, o ridículo presidente da Fifa que já presenteou o Laranjão com um infame “Prêmio da Paz”, achou melhor tirar o time de campo. Entre manter o espírito da competição ou desagradar o bufão anfitrião, dane-se o árbitro somali.
Como se tudo isso não bastasse, o escrete canarinho chega a mais uma Copa carregando possivelmente o maior descrédito de sua história. Classificada na bacia das almas (quinto lugar das eliminatórias), com um suposto craque que nem sequer consegue entrar em campo (Neymar) e tendo de recorrer a um técnico estrangeiro para juntar os frangalhos (Carlo Ancelotti), poucas vezes se viu uma seleção tão sem alternativas e carente de talento para tentar levantar o caneco.
Ficamos, assim, condenados à esquizofrenia. Uma Copa organizada por um país em guerra ativa contra um dos participantes, administrada por uma entidade que finge não ter nada a ver com isso, disputada sob a ameaça de uma polícia migratória que pode aparecer nos estádios antes dos próprios torcedores, e com a Seleção Brasileira dependendo de um italiano para lembrar ao mundo que ainda sabe jogar futebol.
“A Copa vai flopar?”
A proposição, contudo, está formulada de maneira equivocada. A pergunta não é se a Copa “vai flopar”. A pergunta é se ela já não flopou…