Crônica sobre o argumento de autoridade

Como todo mundo sabe, o argumento de autoridade é uma falácia lógica segundo a qual a força da construção da conclusão sobre as premissas apresentadas baseia-se unicamente na credibilidade imputada ao interlocutor. Nele, pouco importa saber se as premissas apresentadas não se relacionam logicamente entre si, nem que delas se extraia uma conclusão. Importa apenas saber que “Fulano disse”. Logo, a conclusão “deve ser” verdadeira.

Do ponto de vista estrutural, o argumentum ad verecundiam classifica-se como falácia precisamente pela desconexão evidente entre as premissas. Por exemplo: Sócrates diz que beber ajuda a desenvolver o jogador de futebol. Nesse caso, Sócrates foi um grande jogador de futebol. E bebia feito uma esponja. Logo, é uma “autoridade” na dupla jogador de futebol-bebida.

Desconsidera-se, contudo, duas coisas. Primeiro, nem todo grande jogador de futebol foi um eminente biriteiro. Segundo, os males que o álcool causa ao organismo não compensam os eventuais ganhos com o desenvolvimento do jogo. Sócrates, aliás, foi prova disso, morrendo por conta da bebida que ingeriu durante a vida. Bebendo, portanto, é mais fácil a um jogador de futebol tornar-se um alcoólatra do que um craque da bola.

No fundo, o argumento de autoridade se resume a uma profissão de fé quanto ao que o interlocutor apresenta. E fé pode ser tudo, menos ciência. Em um debate científico, portanto, fuja dos argumentos de autoridade.

Isso, contudo, não se confunde com a experiência adquirida ao longo da vida. Nesse caso, é errado classificar o argumento baseado em uma experiência própria, quase sempre empírica, como um argumento de autoridade.

Certa vez, discutia com minha avó paterna o respeito à Lei de Uso e Ocupação do Solo em Fortaleza. Dizia eu, do alto da minha sabedoria dos 17 anos, que o único edifício da orla da cidade a respeitar a LUOS era o do antigo hotel Othon.

Como 11 em cada 10 cearenses fazem, pronunciei o nome do estabelecimento como uma paroxítona (Óthon). Ao que fui imediatamente corrigido por minha avó: “Othon”, com a ênfase na última sílaba, como se faria se fosse uma oxítona (Othón).

Diante da correção, orgulhoso como todo adolescente costuma ser, repliquei: “Óthon, Vó”. E ela novamente: “Othón, meu filho. É assim que se fala”.

Inconformado, invoquei de forma transversa o argumento de autoridade: “Vó, é claro que é Óthon. Todo mundo na cidade fala assim”. Ao que ela respondeu: “É Othón. Eu conheci o dono. Jantei na casa dele”.

No embate entre o argumento de autoridade e o argumento da experiência, fica claro quem leva a vantagem.

Case closed.

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2 respostas para Crônica sobre o argumento de autoridade

  1. Maria Rizzi disse:

    Sendo assim, em que um argumento pode ser baseado para ser verdadeiro?

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