E se…?

Com os votos de Xandão e Flávio Dino hoje, o jogo está jogado. No julgamento da intentona bolsonarista, as únicas dúvidas que restam é saber se a condenação será por unanimidade – não se sabe se de fato Luiz Fux vai divergir quanto ao mérito do processo -; e qual será o tempo que os integrantes do Alto Comando do Golpe irão passar na cadeia. O caminhão de provas despejado por Xandão e o didatismo de Flávio Dino não deixam margem para que ninguém ali de uma condenação que toda a gente já sabia incontornável.

Não quero aqui tratar do passado que prenuncia um sol quadrado para os ex-todo-poderosos da administração anterior. O que quero propor aqui é um exercício de pura especulação: e se Bolsonaro tivesse ganhado a eleição de 2022?

“Se meu avô usasse saia, seria minha avó”, diz o ditado. Lembremo-nos, contudo, que faltou pouco, muito pouco, para que isso ocorresse. Se as blitz criminosas da PRF tivessem sido um pouco mais eficientes em impedir os eleitores do interior do Nordeste de votar, ou se houvesse só mais uma semana até a eleição, tempo suficiente para que os bilhões despejados na economia pela PEC Kamikaze tivessem tido efeito, a história seria bem outra.

Mas como ela seria?

Contadas as urnas, Bolsonaro – não Lula – ganha a eleição. Para além do baque generalizado na esquerda e no centro democrático que se aliou ao PT para derrubar o pretendente a autocrata, pode-se dar de barato que Jair Bolsonaro iniciaria um segundo mandato não sob a égide da conciliação, mas com o propósito de fazer tudo aquilo que ele não tinha conseguido fazer nos primeiros quatro anos de mandato. Ao contrário do que muita gente pensa, o que se seguiria não seria uma mera continuação, mas uma radicalização total do projeto em curso. Como o ex-presidente falou por diversas vezes durante a campanha, ele iria “trazer para dentro das quatro linhas” todos aqueles que se opunham ao seu projeto ditatorial.

Quem viveu sabe que o primeiro mandato de Bolsonaro foi um laboratório de testes de resistência das instituições. Com a PGR virtualmente inoperante, sob o comando de Augusto Aras, coube basicamente ao Supremo resistir ao processo fascistóide. Contudo, com a “benção” das urnas, seria difícil que o STF mantivesse-se sozinho na trincheira pela defesa da democracia. Um segundo mandato de Jair traria consigo, sem a menor sombra de dúvida, uma campanha de ocupação definitiva das instituições. Bolsonaro, empoderado pelo voto popular após uma campanha baseada em ataques sem nuances ao sistema eleitoral, interpretaria a vitória não como um aval para governar para todos, mas como um cheque em branco para silenciar de vez os “inimigos”.

Como desgraça pouca é bobagem, a derrota de Kamala Harris para Donald Trump tiraria do cenário um potencial adversário contra a “ditadurização” do regime. Com Trump de novo na Casa Branca, estaria consolidado um eixo de apoio político mútuo. O Brasil se transformaria no satélite mais reluzente da “internacional neofascista” (by Christian Lynch), o movimento populista da extrema-direita global. O Brasil deixaria de ter uma política externa independente e passaria a adotar, docemente, uma subserviência voluntária ao projeto ideológico do Laranjão. A China, que vem usando inteligentemente as patadas do Nero Laranja para se aproximar ainda mais do Brasil, seria escanteada pra longe. Make Brazil a Colony Again seria o lema dos “patriotas”.

Nenhum alvo, contudo, seria mais reluzente do que a careca da Nêmesis do Bolsonarismo, Alexandre de Moraes. Se Jair tivesse sido reeleito, seria inevitável um confronto aberto e direto com o Supremo, em geral, e com Xandão, em particular. Nesse cenário, a reeleição de Bolsonaro seria lida como um veredicto popular contra a Corte. O que no primeiro mandato eram “apenas” ataques verbais se transformaria em ações concretas.

A pressão para um pedido de impeachment de Moraes seria constante e viria diretamente do Planalto. O objetivo claro seria conseguir o impeachment de Xandão. Caso por um milagre esse não fosse possível, a batalha para mantê-lo na Corte seria tão árdua que todo mundo que se opusesse ao avanço contra as instituições entenderia bem o recado: resistir tem um preço alto, e ele é bem alto. A ironia trágica aqui é que o grande “argumento” para justificar essa investida contra o Supremo seria a “defesa da democracia”, supostamente aviltada pelo “ativismo judicial” dos ministros.

Mas não seria somente na seara política que teríamos problemas. Na economia tampouco haveria refresco, principalmente porque o segundo governo Bolsonaro teria de enfrentar o próprio monstro que criou. O rombo orçamentário deixado para 2023 era gigante. Não nos esqueçamos de que a estratégia de sobrevivência eleitoral do bolsonarismo passou por uma verdadeira orgia de gastos em 2022: o Auxílio Brasil foi inflado para valores em torno de R$ 600, mas só até dezembro, sem qualquer garantia de manutenção desse valor em 2023. A “mágica” foi feita através da PEC Kamizase, que, ultrapassando todo e qualquer limite constitucional, driblou simultaneamente o teto de gastos e a regra de ouro (segundo a qual o governo não pode se endividar para cobrir gastos correntes), criando uma fonte de despesa sem a indispensável contrapartida de receita.

Para além disso, Bolsonaro reeleito não teria o bode expiatório de Lula para culpar. Ele próprio teria de lidar com o buraco. A equipe econômica, fosse o Posto Ipiranga Paulo Guedes ou outro tecnocrata qualquer, seria obrigada a implementar o ajuste fiscal que sempre prometeu, mas nunca entregou. A contradição seria espetacular: o governo anti-sistema, campeão do liberalismo no discurso, teria de cortar gastos, congelar salários do funcionalismo e, muito possivelmente, tentar reformas impopulares para abrir espaço no orçamento e acalmar os mercados.

Com a junção de crise política e crise econômica, Bolsonaro teria o caldo perfeito para jogar o futuro numa mão de cartas. Sem as amarras que lhe foram impostas no primeiro mandato e empoderado pela vitória nas urnas, seria apenas uma questão de tempo e de oportunidade até que o ex-capitão do Exército fechasse o regime de vez e conseguisse, enfim, realizar o sonho do reacionarismo brasileiro de devolver o país a uma ditadura civil-militar.

Em resumo, um segundo governo Bolsonaro não seria apenas uma repetição do primeiro. Seria a sua versão definitiva, desinibida e radical. Um experimento de desmonte completo das frágeis instituições democráticas brasileiras, conduzido em sintonia com os ventos autoritários internacionais, além de uma crise econômica autoinfligida como pano de fundo. Disso, pelo menos, conseguimos escapar. Mas foi por pouco.

Muito pouco…

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