Naquela estação

Aproveitando que não há de nada de muito novo nas seções mais costumeiras aqui do Blog – Política Nacional e Política Internacional – vamos retomar uma das seções mais queridas deste espaço. Porque, embora sempre presente na Trilha sonora do momento, a Música nem sempre é contemplada com um post digno para chamar de seu. E, para não fazer feio, vamos falar daquela que é, na modesta opinião deste que vos escreve, a canção metaforicamente mais bonita da Música Popular Brasileira: Naquela estação.

Composta pelo trio João Donato, Caetano Veloso e Ronaldo Bastos, Naquela estação tornou-se nacionalmente famosa na voz melodiosa de Adriana Calcanhoto. Integrada à novela Rainha da Sucata, a canção compunha a trilha sonora da personagem Mariana, interpretada pela atriz Renata Sorrah. Só que, ao contrário da malvada Nazaré (outra personagem famosa vivida por ela), Mariana era a doce menina rica seduzida por um inescrupuloso alpinista social, só interessado na sua herança. A música em si não retratava muito bem o que era a relação entre os dois (amor de um lado e puro interesse do outro). Mas talvez captava como poucas a melancolia da personagem.

A metáfora, como todo mundo sabe, é uma figura de linguagem que estabelece uma comparação implícita entre duas coisas aparentemente não relacionadas. Através dela, é possível criar sentidos figurados que tornam a comunicação, embora menos intuitiva à partida, mais profunda após alguma reflexão. Assim é que dizer que uma pessoa que “tem um coração de pedra” (o que implicaria, no sentido literal, uma pessoa morta) é um sujeito avesso a sentimentos e incapaz de sentir empatia. Com poucas palavras, acaba-se dizendo mais do que o vernáculo “limpo” e “seco” seria capaz de dizer.

A canção narra o sofrimento de um amor em despedida. Ela começa com a moça reclamando que “você entrou no trem”, enquanto ela ficou “na estação vendo um céu fugir”. Obviamente, o sentido local de “estação” aí é puramente metafórico. O que a mulher diz é que o sujeito foi embora e ela, coitada, ficou ali sofrendo, a ver “um céu fugir”.

Tentando convencer-se a si mesma, a moça fala que “também não dava mais para tentar lhe convencer a não partir”. “E agora”, segue ela, “tudo bem”. O cidadão “partiu para ver outras paisagens”, isto é, ir atrás de outras mulheres com quem se relacionar. A despeito das tentativas, a moça ainda não foi capaz de esquecê-lo. Daí o trecho – numa belíssima construção indireta – segundo o qual “e o meu coração embora finja fazer mil viagens fica batendo parado naquela estação”.

A música prossegue basicamente numa repetição desses dois versos. Pode-se até questionar se o trio responsável por ela não poderia ter se esmerado em fazer uma construção um pouquinho mais longa. Não importa. O fato é que poucas canções na MPB conseguem transmitir de forma tão elegante e profunda toda a melancolia contida em um coração partido.

Abaixo, a versão original, para quem quiser tirar a prova dos 9:

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