Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo. Tal é a conclusão de quem se digna a analisar a conduta do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, no último mês.
Dirigindo o primeiro Banco Central formalmente independente da nossa história, coube a Roberto Campos Neto o inglório papel de capitanear a transição entre dois modelos econômicos e – por que não dizer – de mundo inteiramente díspares entre si. Assim como Lula está distante de Bolsonaro, Paulo Guedes também está a léguas de Fernando Haddad. Não se trata, por ora, de analisar o mérito de cada um deles, mas simplesmente de reconhecer que a visão econômica e política que orientou a nomeação de Campos Neto ao BC é absolutamente contrária à que vigora agora, sob gestão petista.
Nesse difícil e delicado papel, caberia a Campos Neto trabalhar para ser um algodão entre cristais, isto é, permanecendo firme em suas supostas convicções liberais, tentar não bater de frente com um governo que é, por cacoete e por ideologia, refratário à idéia de Bancos Centrais independentes e, em alguns casos, até mesmo à teoria econômica moderna. Se até outro dia pouco se podia dizer do comportamento de Campos Neto à frente do BC, de um mês e meio pra cá parece que o atual presidente da autarquia resolveu chutar o pau da barraca.
Na penúltima reunião do Comitê de Política Monetária, o Banco Central havia reduzido a taxa de juros em 0,5%. Para além disso, na ata da reunião ficara prevista uma nova redução de 0,5% na reunião seguinte, que ocorreria agora em maio último. Tratava-se daquilo que os economistas chamam de forward guidance, ou seja, uma espécie de diretriz para o futuro, indicando em que direção deve caminhar o preço do dinheiro (mais conhecido como taxa de juros) nos próximos meses. Em tese, isso ajuda a
Quinze dias antes da reunião, porém, numa reunião privada para investidores, estando fora do território brasileiro, Campos Neto – que conta em seu currículo com o título de tesoureiro da área internacional do Santander – resolveu “panicar”, como se diz no jargão do mercado. Como o Banco Central americano parecesse não cortar mais juros este ano, resolveu montar uma espécie de combo mental da tempestade perfeita: juros americanos mais altos por mais tempo (“higher for longer“); inflação interna pressionada por preços de commodities (petróleo e minério de ferro) em alta; e o famigerado “risco fiscal” (decorrente da mudança das metas de déficit para 2025 e 2026).
Subitamente, as apostas para a última reunião passaram a precificar um corte de 0,25%, metade do que fora previsto pelo próprio BC na reunião anterior. Quando enfim a reunião do Copom de maio aconteceu, o “pior cenário” para o mercado se materializou. Não só o prometido corte de 0,5% fora cortado pela metade, como ainda houve divergência entre os diretores do Banco Central. Os 5 nomeados por Bolsonaro votaram pela redução de 0,25%, ao passo que os 4 nomeados por Lula votaram para reduzir 0,5%.
Quando a ata dessa reunião foi publicada, ficou claro, no entanto, que todos os diretores do BC entendiam que o contexto macroeconômico havia se deteriorado na margem. Todavia, os quatro diretores que votaram pela redução de 0,5% entendiam – com razão – que havia um custo de imagem para uma autoridade monetária que descumpre o forward guidance que ela mesma havia traçado. Traduzindo: ao descumprir a palavra empenhada na última reunião, o BC perderia a própria credibilidade como condutor das expectativas do mercado.
E foi justamente isso que aconteceu.
Ao invés de considerar as razões dos quatro diretores que votaram pela redução de meio ponto percentual, para o pessoal de “o mercado” o recado dessa decisão era claro: os diretores nomeados por Bolsonaro seriam “guardiões da moeda”, enquanto os lulistas seriam “lenientes com a inflação”. Como o mandato de Campos Neto se encerra no final do ano, a conclusão para essa turma era óbvia: o próximo BC não vai estar nem aí pra inflação e, à la Tombini, vai tentar baixar os juros na marra. Resultado: as previsões de inflação e de juros futuros foram pra lua.
Produziu-se, portanto, uma situação esdrúxula. Mesmo ostentando a maior taxa de juros real do planeta (taxa Selic descontada a inflação futura), ainda assim as previsões de inflação e juros continuam subindo. Pior. Até mesmo o dólar – que deveria cair por conta do aumento do diferencial de juros – também subiu, atingindo a máxima do ano.
Como desgraça pouca é bobagem, Campos Neto parece ter entrado em parafuso em busca de dados que sustentem sua teoria de piora geral das condições macroeconômicas locais e mundiais. Ao contrário do que recomendaria a cartilha de qualquer banqueiro central, que ordena parcimônia no uso da palavra, o presidente do BC saiu destrambelhado dando entrevistas a toda hora. Dia sim, no outro também, tá lá o Campos Neto dando entrevista para falar de um cenário ilusório, em que o FED não cortará os juros, o mundo vai continuar com inflação alta e o Brasil – esse patinho feio da economia mundial – também vai ter que manter seus juros nas alturas.
Falta, contudo, combinar com a realidade. A inflação medida pelo IPCA só cai desde janeiro até agora. Idem para a inflação americana, cujo mercado prevê um corte na taxa de juros já na reunião de setembro. E, last but not least, hoje o Banco Central Europeu já começou a cortar sua taxa referencial. Ao contrário do que se espera de um Banco Central independente, o BC de Campos Neto não está conduzindo o mercado; está sendo conduzido por ele. E é exatamente por isso que as más línguas na esquerda começam a sugerir que toda essa espiral de pirações de Campos Neto não é fruto do acaso, mas, sim, de uma deliberada política de sabotagem, quiçá com interesses eleitorais futuros.
Ou Campos Neto reconhece o monumental erro que cometeu nos últimos tempos, tentando trazer de volta a racionalidade perdida ao mercado brasileiro; ou Alexandre Tombini em breve terá a companhia “desse cidadão” (apud Lula da Silva) na disputa pelo posto de pior presidente do Banco Central de todos os tempos.
É esperar pra ver.