Twitter x Moraes, ou Afinal, o que quer Elon Musk?

De tédio não se morre neste país.

Eis a verdade universal de Pindorama, válida em qualquer tempo e lugar, seja de qual espectro político você for. Tal é a conclusão a que se chega depois de vermos o surreal “embate” entre o multibilionário sul-africano, naturalizado norte-americano, Elon Musk, contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre “Xandão” de Moraes.

Como as trufas bancas do Piemonte, a treta entre Musk e Xandão surgiu assim meio do nada, sem que alguém pudesse antecipar o fato ou mesmo o seu sentido. Retuitando uma postagem de algum tempo atrás, na qual Alexandre de Moraes parabenizava o ex-colega de STF Ricardo Lewandowski pela posse como Ministro da Justiça, Elon Musk atacou:

“Por que tanta censura no Brasil?”

Daí pra frente, o que se viu foi uma saraivada desembestada de ataques ao ministro Alexandre de Moraes, ao TSE e ao Supremo. Aparentando estar possuído pelo espírito de Carluxo, o filho 02 de Jair Bolsonaro, Musk chegou ao cúmulo de replicar aquelas teorias malucas que circulam no zap profundo da Bozolândia, segundo as quais o Judiciário “tirou Lula da prisão para colocá-lo na presidência”. Por isso, Xandão teria “Lula na coleira” (sic). Houve até menções bizarras ao acidente que vitimou o ex-ministro Teori Zavascki, em cuja vaga Alexandre de Moraes assumiu seu cargo no Supremo.

Que parte das críticas endereçadas a Xandão são pertinentes, não resta dúvida. Não faz sentido que, a esta altura do campeonato, ninguém saiba, com segurança, quantas e quais contas foram bloqueadas na rede social de Musk, muito menos as razões que levaram ao seu bloqueio. Mesmo assim, a idéia de que Elon Musk tenha resolvido atacá-lo motivado por algum desejo de “defender a liberdade de expressão no Brasil” é daquelas fantasias que só prosperam no ambiente putrefato e mentalmente perturbado do zap bolsonarista.

Pra começo de conversa, a primeira coisa que Musk fez depois que comprou o Twitter foi bloquear alguns jornalistas que ele próprio considerava “incômodos”, por perturbá-lo com perguntas “indesejadas”. Para além disso, Musk mantém relações mais do que amistosas com duas ditaduras universalmente reconhecidas como tal: a Arábia Saudita e a China. Quem quiser acreditar que Musk fez o que fez baseado na idéia de que “princípios importam mais do que dinheiro”, terá de explicar a razão pela qual o bilionário mantém a pleno vapor a maior fábrica de veículos de sua empresa automotiva Tesla, que funciona em Xangai.

Descartada a hipótese de que Musk tenha resolvido se insurgir contra a “censura” no Brasil movido por princípios humanistas, resta saber se a treta plantada por ele é movida pela mais antiga das ambições humanas: o vil metal.

Em favor desta tese, há o fato de que o Ministério da Educação revogou recentemente um edital que previa o fornecimento de internet de alta velocidade a escolas em todo o país. Nos moldes em que ele havia sido desenhado, uma única empresa estaria habilitada a prestar esse serviço: a Starlink. E a quem pertence a Starlink? Bingo. A Elon Musk.

No entanto, é difícil imaginar que o bilionário sul-africano, que fuma maconha em entrevistas enquanto gasta rios de dinheiro para levar o homem a Marte, esteja remotamente preocupado com os lucros que poderia auferir neste contrato específico do governo brasileiro. Convenhamos: atacar Xandão e o próprio Governo Federal somente porque estaria prestes a perder a oportunidade de ganhar um contrato de uma de suas empresas seria o mesmo que usar canhão para matar mosquito.

Há, ainda, as teorias que circulam em certos meios acadêmicos e na extrema esquerda, segundo as quais tudo que aconteceu até agora: o ressurgimento de Trump como candidato a presidente; a “hospedagem” de Bolsonaro na embaixada da Hungria, de Viktor Órban; as loucuras de Milei na Argentina; tudo faria plano de uma grande conspirata da “internacional neofascista”, da qual Musk seria o “braço midiático”. É difícil, contudo, imaginar que personagens tão díspares entre si, com interesses tão distintos de sobrevivência, viessem a se unir numa “cruzada da direita mundial” contra o…. Brasil. Imaginar que algo do gênero fosse possível implicaria, necessariamente, atribuir a Jair Bolsonaro uma importância que ele certamente não tem, ainda mais agora, fora da Presidência.

Restaria, por fim, a hipótese que de fato parece a mais plausível: a de que tudo não tenha passado de uma jogada para melar o projeto de regulamentação das redes sociais que tramita no Congresso. Aprovado no Senado há mais de um ano, o projeto repousa em berço esplêndido na Câmara dos Deputados, onde Arthur Lira o mantém numa mui bem acolchoada gaveta, sem direito a votação.

No mundo civilizado, as redes sociais – o ambiente mais propício para a circulação de discursos de ódio – têm sido alvo dos governos instituídos, como forma de controlar as bizarrices que levam gente a achar que vacina da Covid é uma forma de implantar um chip chinês no seu corpo, ou que Biden e Lula na verdade perderam as eleições de seus países, beneficiados que foram por uma “conspiração diabólica” dos illuminati com os reptilianos. Com base nas leis que foram aprovadas, a União Européia vem impondo pesadas multas a diversas redes sociais, tanto por violação à privacidade dos dados dos usuários, como também pela aparente malemolência em conter crimes e discursos de ódio propagados através delas.

E foi justamente esse o resultado imediato da “contenda” iniciada por Elon Musk. Alegando que o projeto de regulamentação brasileiro estava “morto”, Lira fez o que todo mundo em Brasília faz quando quer enterrar alguma coisa sem dizê-lo expressamente: criou um “grupo de trabalho”. Com isso, o projeto, que dependia de apenas uma votação na Câmara dos Deputados para ser aprovado, voltou à estaca zero. Ponto para Musk, que tirou um potencial obstáculo do caminho.

Embora essa seja a hipótese mais plausível para o imbróglio entre Xandão e Musk, não se pode ainda cravar com segurança que de fato o medo da regulamentação tenha motivado os ataques do multibilionário sul-africano às instituições brasileiras. Por mais que o Brasil seja o quarto maior mercado consumidor de Twitter no mundo, é incerto que Musk tenha feito o que fez somente para evitar problemas com a Justiça brasileira no futuro. Não nos esqueçamos: estamos falando de um sujeito montado numa fortuna de US$ 200 bilhões. O que representa o lucro do Twitter no Brasil para alguém com tanto dinheiro assim?

Chegamos ao final desta semana, portanto, da mesma forma com que começamos: sem saber o que raios motivou Musk a atacar Alexandre de Moraes. Seja como for, de algo se pode ter certeza:

Boa coisa é que não é.

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