Dando sequência aos festejos do 13º aniversário do Blog, vamos ver hoje o que o Dando a cara a tapa espera para este 2024 recém-nascido.
Se o ano de 2023 foi marcado pela infâmia do golpe frustrado de 8 de janeiro, o de 2024 se inicia ainda sob a ressaca golpista daquele espetáculo dantesco transmitido para todo o país, ao vivo e em cores. Sim, porque apesar de o golpe ter malogrado, nada do que se passou de lá até aqui indica melhora concreta do cenário. Pelo contrário. O odor fétido da maldita tradição nacional pelo “apaziguamento” começa a ser sentido para além dos bastidores.
Pra começo de conversa, Bolsonaro continua livre, leve e solto. O principal responsável pelos acontecimentos que levaram àquele fatídico domingo golpista em Brasília não tem sequer denúncia formulada contra si ainda. Tudo bem que Augusto Aras – a mais triste figura a ocupar o cargo de Procurador-Geral da República em toda a sua história – ficou no cargo até setembro, e dele é que não viria nada contra Bolsonaro, mesmo.
Ainda assim, é difícil acreditar que apenas a costumeira lentidão da Justiça brasileira seja a responsável pelo ex-presidente ainda não ser réu em nem sequer um único processo criminal. Material para denunciá-lo é o que não falta: desde a política deliberada de sabotagem da vacinação durante a pandemia, passando pelo escândalo das jóias sauditas afanadas do acervo geral da Presidência, até desaguar, claro, no seu envolvimento no 8 de janeiro.
Ao invés de estar correndo atrás de advogados e tentando elaborar uma estratégia para escapar de uma eventual condenação penal, o que se assiste – para espanto geral – é Bolsonaro articulando a céu aberto candidaturas nas próximas eleições municipais, como se nada devesse à Justiça. Mais fácil é acreditar que tudo esteja sendo deliberadamente postergado, naquela velha prática da política brasileira de deixar tudo como está, para ver como é que fica. Idéia ruim.
Do lado militar, tampouco se vê qualquer melhora no horizonte. Depois do 8 de janeiro, Lula teve nas mãos a chance, pela ordem, de: 1) extinguir o GSI; 2) enquadrar os militares por terem abraçado o bolsonarismo que desaguou no golpe malogrado; 3) estabelecer uma nova forma de lidar com o Congresso Nacional. Até agora, o que Lula fez foi: 1) aumentar o número de militares no governo; 2) adotou uma política de “acomodação” com a caserna, pela qual projetos e privilégios dos milicos ficaram à frente, por exemplo, de pautas da Educação; e 3) segue refém do Centrão e sua insaciável fome por emendas parlamentares, secretas ou não.
Há duas hipóteses para explicar o que ocorreu em 2023. Em ambas, parte-se de uma premissa básica: Lula tem exata noção de que é um presidente politicamente fraco, tanto por ter ganhado a eleição contra Bolsonaro no photochart, como também por ser absolutamente minoritário em um Congresso que se acostumou à “terceirização” do orçamento inaugurada por Bolsonaro.
À vista dessa certeza, a dúvida é se: 1) Lula acha que pode reverter esse quadro adverso fazendo a economia “bombar”; ou 2) Lula já entregou os pontos nesse governo, esperando que uma eventual reeleição permita um rearranjo de forças mais favorável que lhe permita sair das cordas.
Supondo que a primeira resposta seja a correta, um eventual sucesso de Lula neste ano depende fundamentalmente de resistir à tentação de “Dilmar”. Com gente como a inacreditável Gleisi Hoffmann e o insuperável Aloizio Mercadante a assoprar-lhe “subsídios” aos ouvidos, há o risco concreto de que Lula jogue seu Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao mar, embarcando numa reprise da ignóbil política de “gasto é vida” que desgraçou o país por meia década.
Nesse caso, teríamos um brevíssimo vôo de galinha (talvez nem isso), na vã esperança de que as eleições de outubro venham a sorrir para os candidatos governistas. O custo disso? Os dois últimos anos de governo em crise constante, com dólar e juros na lua, bolsa em queda e o cenário perfeito para um revival de Bolsonaro ou algum proxy seu em 2026.
No entanto, caso a resposta seja a segunda alternativa, Lula ficaria na incômoda posição de capitão de uma caravela cujo mastro foi derrubado. Completamente à mercê dos ventos, a sobrevivência do governo do ex-torneiro mecânico ficará na dependência de uma sucessão de fatores, a saber: 1) que a economia mundial não passe por nenhuma grande crise; 2) que algum acaso do destino impeça Donald Trump de voltar à Casa Branca; e 3) que Paulo Gonet demonstre que não compartilha do mesmo instinto natural de acomodação de seu padrinho e ex-sócio, Gilmar Mendes, vindo a denunciar Bolsonaro por todo o extenso rol de malfeitos que praticou durante seu mandarinato.
Enquanto não tivermos resposta para essa questão, o baile político de 2024 seguirá como de hábito, com deputados e senadores fugindo de Brasília para fazer campanha pelos seus candidatos a prefeito, enquanto o governo tenta derramar dinheiro nos municípios para ajudar seus aliados. Na superfície, ficará parecendo que tudo voltou ao normal.
Mas não voltou.
E o povo só se dará conta disso no ano que vem…