Que o mundo está em crise, só as avestruzes não vêem. Da Ucrânia à Venezuela, de Israel à Argentina, os problemas pipocam por todo o lado. Quando não descambam para a guerra pura e simples (Ucrânia e Israel), as questões política acabam por gerar crises que podem eventualmente desaguar numa guerra (caso da Venezuela), ou numa convulsão interna potencialmente incontrolável (caso da Argentina).
Mas dizer que o mundo está em crise é dizer nada, ou, pelo menos, nada de novo. Desde quando Caim matou Abel os seres humanos estão canibalizando-se uns aos outros. A única diferença foi que a criação dos estados nacionais potencializou a escala da tragédia e, com o advento dos ditadores tirânicos autocráticos, as recaídas no precipício tornaram-se mais comuns. Não por acaso, a principal guerra do mundo é, hoje, comandada por um exemplar da espécie (Putin); e o segundo lugar é disputado entre uma facção ditatorial abertamente terrorista (Hamas), contra um pretendente a ditador (Netanyahu).
É óbvio que os exemplos acima citados são extremos, mas não podemos perder de vista o quão próximos eles estão da nossa realidade. Guardadas as devidas proporções, o que diferencia um Vladimir Putin de um Jair Bolsonaro? O que diferencia Jair Bolsonaro de Javier Milei? E por que, mesmo depois do 6 de janeiro (não confundir com nossa patuscada nacional, que aniversaria dois depois) Donald Trump é o favorito para retomar o posto de César da Roma dos tempos modernos (EUA)?
Aparentemente, o sistema representativo – base daquilo que conhecemos como “democracia” – está sendo colocado em xeque. Desde o fim da II Guerra Mundial, o “mundo livre”, por assim dizer, firmou um pacto: ditaduras são, por definição, ruins; e só a democracia consegue entregar progresso econômico e social, servindo as eleições como uma espécie de amortecedor para os choques entre visões de mundo diferentes. Em outras palavras, a maior parte dos países escolheu ser democrática porque, no final das contas, a democracia traz mais resultados a longo prazo.
De certa forma, isso parece ter se perdido na última década. A idéia de uma saída fácil, a partir da eleição de um “César” para assumir como ditador e promover paz e desenvolvimento social subitamente voltou à arena pública como uma alternativa política “aceitável”. Como o sistema político tradicional não consegue mais entregar resultados no volume que entregava, ou, pelo menos, no tamanho da necessidade atualmente demandada pela sociedade, a maior passou a achar razoável “chutar o pau da barraca” pra ver se a coisa vai pra frente.
É evidente que essa simplificação está errada, assim como esteve errada na Roma antiga, na década de 30 do século passado e em todos os “experimentos” recentes espalhados mundo afora, de que o Brasil do desgoverno bolsonarista é talvez o exemplo mais infame. Todavia, seria de uma ingenuidade atroz desconhecer que, se isso se repete em mais de um lugar do planeta, é sintoma de que suas causas não são puramente internas. Há, claramente, um zeitgeist (espírito do tempo) ditatorial vicejante nos tempos de hoje.
Curiosamente, a balança do equilíbrio democrática parece ter perdido o alinhamento quando o prato da direita resolveu emborcar de vez. A esquerda, que sempre foi tida como revolucionária e avessa à manutenção do status quo, passou por uma espécie de facelift e viu-se subitamente repaginada como defensora dos direitos democráticos. Ou não terá sido a esquerda a (ir)responsável pela ditadura maoísta, pela tragédia cubana, pelo exotismo stalinista da Coréia do Norte, ou pelo drama histórico da União Soviética, que viu ruir seu império quando não conseguiu mais impedir que seus cidadãos pulassem o muro para se entregarem ao tão endemoniado sistema capitalista ocidental?
Durante todo esse período, a direita – sim, ela mesma – foi a principal responsável por manter a roda girando, as instituições de pé, o sistema funcionando. Aliás, é isso que representa a própria definição da direita tradicional: o “conservadorismo”, isto é, a crença de que as coisas, em princípio, devem ser mantidas como estão, a menos que haja uma razão muito boa e palpável para mudá-las.
Subitamente, aquilo que vemos no noticiário descrito como “direita” são justamente os carbonários, aqueles que querem derrubar tudo, colocar fogo no circo. O que nos leva a uma de duas conclusões: ou temos que entender que, agora, a direita é revolucionária e a esquerda é conservadora (piada); ou o conservadorismo como alternativa eleitoral não parece mais viável, o que levou à radicalização das posições dos elementos de direita.
É justamente em razão disso que temos assistido a cenas verdadeiramente bizarras e imagináveis cerca de dez anos atrás. Para sair dos exemplos nacionais, contaminados pela maldita polarização política, vejamos o que se passa nos Estados Unidos. Alguém imaginaria, por exemplo, Mitt Romney, um mórmon ultraconservador, estrela do Partido Republicano, ex-candidato à presidência, anunciando voto em Joe Biden contra Trump? Ou Colin Powell, ex-general do Exército, secretário de Estado de Bush Jr. quando da invasão ao Iraque, fazer o mesmo? Viraram “comunistas”? Não. Apenas conseguem enxergar que a alternativa disponível no seu próprio campo, por antidemocrática, não é aceitável.
O problema – e, mais importante, a solução – da crise do sistema política não passa, como se vê, pela esquerda. A esquerda é o que é e não deve mudar tão cedo. Os aplausos contidos para os arroubos de Putin e Maduro por “solidariedade ideológica” são apenas o exemplo mais evidente da sua linha de atuação política. A solução passa por um resgate da direita. Da direita tradicional, conservadora, verdadeiramente defensora da família e dos valores cristãos. E não esse show de hipocrisia midiática que nós assistimos cotidianamente nas redes insociáveis.
Ou a Direita se redesenha, se redescobre, isola e abandona os extremistas que sequestraram essa parte do pensamento político, ou continuaremos condenados a transitar entre alternativas ruins à esquerda.
E ainda piores à extrema-direita…