No meio de tanta coisa doida que rola no nosso dia-a-dia, às vezes é difícil prestar atenção em coisas verdadeiramente importantes que acontecem mundo agora. O movimento de decouple entre China e Estados Unidos talvez seja o mais relevante deles no momento.
Decouple é um anglicismo que os americanos importaram do francês. O sentido básico, porém, mantém o mesmo sentido tanto na língua de Voltaire quanto na língua de Shakespeare: “separação”, “desacoplagem”, “desconexão”, ou, para usar o linguajar mais ordinário das ruas, “seguir rumos diferentes”. Pois é exatamente isso que chineses e norte-americanos parecem estar em vias de implantar.
Desde mais ou menos o começo da década de 90 do milênio passado, China e Estados Unidos desenvolveram uma espécie de relação simbiótica, que trouxe enormes ganhos a uma e a outro e, por conseguinte, ao resto do mundo inteiro, que surfou uma onda de prosperidade econômica comparável ao boom do pós-II Guerra Mundial. A festa só foi acabar em 2008, quando a crise do subprime quase lançou o mundo numa nova depressão. Se houve países que não surfaram como a deveriam, ou não a surfaram desde o princípio (“Alô, Alô, Brasil?!?”), a culpa não esteve na economia mundial, mas em erros próprios.
Com déficits fiscal e da balança comercial crônicos, os Estados Unidos precisavam de alguém que pudesse continuar financiando sua festa (leia-se: comprando títulos de sua dívida). Por outro lado, a China dependia de investimento externo e da transferência de fábricas para levar à frente seu projeto de tirar do campo e da pobreza mais de 100 milhões de pessoas e, assim, tornar-se de fato uma potência global.
Baseado nesse arranjo reciprocamente vantajoso, empresas americanas começaram a levar suas plantas para a China. De lá, a mão-de-obra barata chinesa fazia o trabalho de fazer com que os preços permanecessem baixos (ou até caíssem), o que impediu que a farra do consumo resultasse em inflação alta, o que inexoravelmente levaria a um menor crescimento da economia americana.
Montada em exportações maciças para os norte-americanos, a China construiu superávits comerciais gigantescos. E o que ela fazia com esse excesso de dinheiro que entrava na economia? Comprava tudo de títulos do Tesouro Norte-Americano. Estados Unidos e China, portanto, passaram a viver como irmãos siameses, com fluxos viajando de parte a parte, quase como em um sistema de compensação recíproca.
Desde a Era Trump, porém, tudo começou a mudar mais rapidamente. Com a idéia de fazer a “América Grande de Novo”, Trump começou a impor pesadas tarifas para as exportações chinesas. Pior. Começou mesmo a impor barreiras a compras e a transferências tecnológicas, a ponto de a empresa Huawei, uma das maiores produtoras de produtos eletrônicos do mundo, ser banida do solo americano por ser considerada um “risco à segurança nacional”.
Pra quem duvida do tamanho do impacto que isso pode ter, hoje, no lançamento de seus novos modelos de telefone, a Apple anunciou o primeiro Iphone produzido na Índia (e não na China). Não tardará muito e a maioria dos nossos smartphones virão do continente indiano, não mais do continente chinês.
Do lado oriental da jogada, a China não deixou por menos. Silenciosamente, foi despejando nos mercados globais seu gigantesco estoque de treasuries (os títulos do Tesouro americano). Ele, que nos áureos tempos atingiu recordes superiores a US$ 3 trilhões (com T), hoje mal passa dos US$ 800 bi, no menor nível em quatorze anos.
O embate, porém, não se restringe à seara econômica. Quando a China resolveu aterrar recifes e transformá-los em “ilhas” com bases militares no mar do Sul da China, os americanos já puderam sentir o cheiro de queimado. Além da eterna questão de Taiwan – que os chineses consideram uma província rebelde a ser retomada pela força, se preciso for -, a China já rosnou para o Japão e para a Austrália. Não por acaso, é justamente com esses países que os americanos estão montando uma espécie de “OTAN do Pacífico”, para enfrentar o desafio chinês.
Sabendo disso, não é de se espantar, por exemplo, o encontro de Kim Jong-Un e Vladimir Putin em Vladivostok (só quem jogou War conhece o lugar). Parece claro que a China está organizando uma espécie de contra-ataque à investida da aliança militar dos Estados Unidos, não só apoiando a Rússia contra a coalização do Atlântico Norte na Guerra da Ucrânia, como – o que é ainda mais aterrorizador – envolvendo o aliado esquisitão da Coréia do Norte, que recita seu melhor papel: o de cão raivoso.
Seja como for, parece claro que o mundo não está preparado para uma espécie de “Guerra Fria 2.0”, com China e Estados Unidos nos papéis principais. Ainda mais quando se considera que, de um lado, temos um Putin acuado por uma guerra sem fim na Ucrânia e um líder apocalíptico saído diretamente dos anos 50 (Kim); e, do outro, temos uma Coréia do Sul doida pra se nuclearizar em autodefesa e um Japão prestes a abandonar o pacifismo que proclama desde o fim da II Guerra Mundial.
O que estamos vendo, portanto, não são movimentos triviais, nem intrigas de final de semana. Há placas tectônicas se movendo na geopolítica mundial e ainda não está claro o suficiente como será o desenho do mundo depois que elas terminarem de se mexer. É como se estivéssemos assistindo a uma partida de xadrez no escuro entre dois grão-mestres; ninguém nem consegue imaginar qual será a próxima jogada.
Que Deus nos ajude…