Final dos sonhos, ou A imbecil rivalidade entre Brasil e Argentina

Era tudo que a gente esperava.

Salvo os otimistas incorrigíveis e os trêfego nefelibatas, ninguém mais acreditava em um título da seleção brasileira. O técnico da seleção, com sua “Titebilidade”, já deixara clara a limitação do seu esquema. Desde escolhas incompreensíveis (por que convocar NOVE atacantes?) até erros verdadeiramente bisonhos (convocar Daniel Alves apenas para no banco como café-com-leite), o fato é que o time do ex-técnico corintiano nunca inspirou confiança. E, se ele não apanhou tanto quanto merecia até então, muito se deve à complacência quase criminosa com que a imprensa brasileira o tratou desde que assumiu o escrete canarinho.

Já que não havia condições reais de torcer por um improvável hexacampeonato, restava aos amantes do futebol torcer por uma final que reunisse as duas melhores seleções da Copa. E, mesmo para quem não entende bulhufas do esporte bretão, estava claro que os dois melhores times eram Argentina e França (com a Inglaterra correndo honrosamente por fora).

Não por acaso. Além de terem os melhores técnicos, os dois grandes craques da atualidade são, de um lado, o argentino Messi; e, do outro, o francês Mbappé. Nenhum dos dois é o “clássico” número 10 ao qual estamos acostumados, mas ninguém em sã consciência duvida que ambos honram com sobras a mística da camisa imortalizada por Pelé. Basta, para tanto, lembrar o que aconteceu na própria final: Messi fez dois gols e começou a jogada do outro; e Mbappé tornou-se o primeiro jogador a marcar três tentos numa final de Copa do Mundo. E se o caneco ao final ficou em mãos argentinas, isso se deve mais ao empenho da seleção alviceleste, que foi superior a maior parte do jogo e sempre buscou o gol. Simplesmente sensacional.

Chega a ser tristemente irônico que a mais fantástica final de um torneio mundial de futebol tenha tido lugar justamente na mais criticada das nações que o recebeu. Afinal, a qualidade do desempenho dos atletas em campo em nada apaga o retrospecto da Copa no Catar, que ficará para sempre marcado pelas restrições às mulheres, aos homossexuais e pelo desrespeito grosseiro aos direitos humanos dos trabalhadores que a tornaram possível.

Todavia, ao lado dessas tristezas (e elas não são poucas), coube-nos a boa fortuna de ver praticamente uma nação inteira torcendo por aquela a quem se diz ser sua arquirrival. Sim, porque se tem algo que o brasileiro aprende depois que aprende a chutar uma bola é que, havendo do outro lado uma camisa branca e azul, a próxima coisa a se chutar é uma canela. A rivalidade entre Brasil e Argentina é, sem dúvida, a maior do futebol mundial. E não seria exagerado dizer que o embate entre os dois maiores vencedores da América do Sul compõe o maior clássico da bola.

A despeito disso, a maior parte dos brasileiros torceu pela Argentina na final da Copa. Mesmo aqueles que escondiam sua torcida sob o manto diáfono do “estou torcendo só pelo Messi” mal conseguiam disfarçar o que, à vista de todos, parecia ser só um pretexto. No final, quando sacramentado o resultado das penalidades, a explosão em júbilo deixou claro o que batia no peito desses torcedores enrustidos.

Mas por que tanto ódio aos argentinos?

A bem da verdade, a razão para isso é nenhuma. A rigor, Brasil e Argentina nunca estiveram em guerra um contra o outro. Salvo um breve interlúdio conflituoso na Guerra do Prata, brasileiros e argentinos sempre estiveram lado a lado, desde a Guerra do Paraguai até as duas guerras mundiais (embora a Argentina tenha se mantido oficialmente neutra nas duas, los hermanos chegaram a “emprestar” combatentes aos aliados para o esforço de guerra).

A desconfiança brasileira em relação aos argentinos pode ser medida pela disposição de suas forças. O maior e mais poderoso contingente militar do Brasil é o III Exército (agora chamado de Comando Militar do Sul), com sede em Porto Alegre. Durante boa parte do século XX, viveu-se com a impressão de que uma guerra entre Brasil e Argentina pelo domínio do continente sul-americano era inevitável, a ponto de ambas as nações terem gastado tempo e dinheiro produzindo – pasmem – um programa nuclear. Felizmente, essa parte da rivalidade parece ter ficado no passado.

Para aqueles que reclamam do suposto racismo e xenofobia ao sul do Rio da Prata, a única resposta possível é a de que imbecis e racistas existem em qualquer lugar. Duvidam? Basta ver o que aconteceu depois das eleições em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul quando foram colhidos os votos dos nordestinos. Assim como é errado dizer que todo sulista é um idiota xenófobo, é igualmente equivocado generalizar o comportamento de alguns portenhos néscios e extrapolá-lo ao comportamento de toda uma nação.

Já é hora, portanto, de superar esse ranço estúpido e reconhecer nos nossos irmãos argentinos a riqueza de uma cultura que produziu um prêmio Nobel de Química, dois de Medicina e dois da Paz. Isso, claro, para não falar de Ernesto Sabato, Adolfo Bioy Casares e – claro – Jorge Luís Borges. E, se alcançamos a Jules Rimet antes deles, “agradeçam” à II Guerra Mundial. Se o selecionado argentino tivesse disputado os cancelados torneios de 1942 e 1946, possivelmente a Argentina teria hoje as mesmas cinco estrelas que enfeitam o escudo da seleção brasileira.

Por algumas horas, quiçá dias, Messi conseguiu fazer com que esse pesado histórico fosse colocado de lado. Se a sua genialidade, premiada pelo justíssimo título argentino, puder fazer com que esse seja mais um legado duradouro de sua brilhante carreira, é sinal de que o futebol é, de fato, uma tenda de milagres. O Brasil e o futebol agradecem.

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