A aposentadoria de Roger Federer, ou O fim da Era de Ouro do tênis mundial

Pois é, meus amigos.

Para os aficionados pelo mundo do tênis, a semana passada terminou com uma das notícias mais tristes dos últimos tempos: a confirmação da aposentadoria de Roger Federer.

Roger Federer

Não que a notícia fosse inesperada, muito pelo contrário. Quem viu o suíço brigando contra lesões no joelho desde a semifinal do Australian Open de 2020 já intuía que essa notícia acabaria chegando um dia. No entanto, sempre ficava a esperança de que o Swiss Maestro produzisse uma daquelas ressurreições do tipo fênix, como ocorreu em 2017. Depois de passar seis meses afastado do esporte, Federer voltou no mesmo Australian Open para enfrentar seu grande rival, o espanhol Rafael Nadal. Numa batalha épica de 5 sets, perdendo de 3×1 no quinto set, Roger conseguiu uma das viradas mais improváveis e significativas de sua carreira. Depois disso, ainda venceu de lambuja os torneios de Indian Wells e Miami (vencendo pelo caminho novamente Nadal). E, para coroar o regresso, o oitavo e último título de Wimbledon, isolando-se como maior vencedor do templo sagrado do tênis mundial.

Não. Dessa vez foi diferente.

A própria ausência de notícias já era indicativo de que boa coisa não estava acontecendo. Fora um ou outro post perdido no Instagram, Federer recolheu-se a obsequioso silêncio, enquanto treinava para recuperar a forma e os movimentos perdidos. Talvez o suíço mesmo ainda alimentasse as esperanças de mais um retorno triunfal, quem sabe sonhando com mais um título em Wimbledon, para encerrar sua gloriosa carreira com um canto de cisne, o mesmo canto do cisne que lhe foi cruelmente negado no mesmo palco em 2019 por outro gigante do esporte, Novak Djokovic. Sim, aquele 40/15 do quinto set daquela final nunca será esquecido por quem admirava o suíço.

É fato que não há motivo para lágrimas. Se há alguém que não pode reclamar da vida que levou foi Roger Federer. Ele não nasceu propriamente em berço de ouro, mas necessidade certamente não foi uma constante na sua vida (ao contrário, por exemplo, das irmãs Williams, que, além da pobreza, ainda tiveram de vencer o preconceito contra sua raça). Mesmo assim, Federer soube – talvez como nenhum outro – trabalhar o seu imenso talento com inegável esforço. Não, nunca houve alguém tão talentoso a pisar numa quadra de tênis (e danem-se os números, porque aqui se trabalha numa seara em que os números contam muito pouco).

Ainda assim, os números do suíço são de fazer inveja a qualquer um. 20 títulos de Slam, 6 Finals, 28 Masters 1000 e mais um punhado de outros títulos que fariam a felicidade de qualquer mortal comum. Isso, claro, para não falar das mais de 300 semanas como número 1 do ranking, 267 delas consecutivas, recorde até hoje intocado e que, provavelmente, jamais será superado.

Não, Roger Federer não se fez Maestro por conta de seus números. O que fazia do suíço uma verdadeira unanimidade no esporte era a junção icônica de elegância, plasticidade e eficiência no jogo que impunha aos seus adversários. Nunca antes – e provavelmente nunca depois – haverá alguém que consiga ganhar tanta coisa jogando tão bonito. Mal comparando, é como se a seleção brasileira de 70 passasse duas décadas disputando títulos por aí, empilhando troféus por onde quer que passasse.

E isso não se resumia à quadra de tênis. Federer era também um exemplo de elegância e profissionalismo. Poucos jogadores era tão queridos e admirados nos vestiários quanto ele, a ponto de seu principal rival (Nadal), sua nêmesis por quase 20 anos, fazer-se amigo de verdade do suíço. Fluente em quatro línguas, Federer tornou-se um embaixador do tênis, uma figura maior do que o próprio esporte, como o foram um dia Pelé, Ayrton Senna e Michael Jordan, só pra ficar nos exemplos mais óbvios.

Nessas horas, chega a ser ridículo invocar a discussão “clubística” de nadalistas e nolistas contra o H2H (head to head) entre seus favoritos e Roger. Além de ignorar a diferença de idade que havia entre eles (Nadal 5 anos mais moço, Djokovic 6), essa pretensa “comparação” ignora que tanto o espanhol quanto o sérvio somente se tornaram o que são hoje porque tiveram que evoluir seus jogos para atingir o patamar que o suíço estabeleceu. É verdadeiramente inútil tentar entender as carreiras vitoriosas de Nadal e Djokovic sem considerar que, antes, havia um Federer em quem eles se espelharam.

Com a despedida do suíço, abre-se um verdadeiro buraco no circuito mundial. Claro que os torneios continuarão e que as pessoas continuarão torcendo pelos seus tenistas favoritos. No entanto, a dimensão que Federer ocupou no esporte é de tal maneira desproporcional que levará muito tempo até que o público se acostume com a ausência da principal figura que monopolizou o circuito nos últimos 20 anos.

Encerra-se, portanto, a chamada “Era de Ouro” do tênis mundial. Nadal e Djokovic podem até continuar ganhando mais alguns Slams por um tempo, mas o vácuo deixado por Federer não poderá serpreenchido. Pior que isso, dificilmente haverá uma outra época em que teremos três tenistas com 20 Slams cada um, disputando palmo a palmo os pontos que levam ao topo do ranking mundial.

Roger Federer: quem viu, viu; quem não viu, vai depender de assistir às reprises dos jogos no YouTube.

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