A morte de Elizabeth II, ou O fim do século XX

Eu sei, eu sei.

O século XX já acabou cronologicamente há 22 primaveras. Quanto ao tempo histórico, a prevalecer a metodologia utilizada por Eric Hobsbawm, ele teria terminado em 1989, quando caiu o Muro de Berlim. Mesmo assim, creio ser justa a referência ao fim da última grande estadista do final do milênio passado. E, sim, estou falando dela mesmo: Elizabeth Alexandra Mary, ou, para usar o título com o qual entrou para a história, a Rainha Elizabeth II.

Elizabeth II

A morte possui o condão de apagar muitas das faltas dos pecadores que andam por esta Terra, isso é fato. Tal tendência amplifica-se ainda mais quando quem é levado pela indesejada das gentes é uma velhinha de ar simpático, cuja figura remete praticamente todo mundo à imagem mental da sua própria avó. Essa, porém, não é uma falta que costuma se abater sobre este que vos escreve, ciente desde sempre que mesmo os/as canalhas também envelhecem (e nem por isso devem gozar o privilégio de um julgamento “elegante” da História).

Mas esse não é absolutamente o caso de Elizabeth II. Quem acompanhou a sua trajetória de vida, ou mesmo quem somente a conheceu através de filmes e séries como a fantástica The Crown, haverá de concordar que a famosa “Rainha da Inglaterra” figura com justiça no rol de grandes nomes da historiografia mundial.

Para provar o que digo, basta recordar que ela não nasceu destinada ao trono. Sobrinha de Eduardo VII, a filha de Albert Windsor estava destinada a ser “somente” mais uma integrante da Royal Family, mas sem qualquer aspiração ao trono. A crise da abdicação de seu tio conduziu o então caçula gago da família ao papel de George VI, progenitor da futura soberana real. Quando seu pai morreu, coube-lhe o pesado encargo de segurar a coroa imperial daquela que fora a maior potência mundial por três séculos.

E não foram tempos fáceis. A Segunda Guerra havia acabado e, com ela, qualquer resquício do outrora poderoso “Império onde o Sol não se põe”. A grande “coroa” do Império Britânico – a Índia – proclamara sua independência cinco anos antes de Elizabeth II ascender ao trono. Nas décadas seguintes, a Rainha assistiu, impotente, ao esfacelamento do que restava de suas colônias, embora ainda permanecesse formalmente como Chefe de Estado de quatorze países, Canadá, Austrália e Nova Zelândia entre eles.

Mesmo assim, Elizabeth II portou-se com indiscutível dignidade e honradez pessoal. Não se pode dizer que foi modesta no sentido vulgar porque, afinal, ninguém quem faz parte da família real britânica se enquadra nesse conceito. Mas seria no mínimo um erro crasso dizer que alguma vez ostentou a sua própria riqueza como alguns nouveaux riches que habitam por estas terras. Pelo contrário. Manteve-se o tanto quanto possível avessa a badalações que fariam a felicidade de qualquer plebeu, alimentando hábitos bastante espartanos para alguém que ocupava o seu lugar, como dirigir o próprio veículo ou educar os seus cães.

Obviamente, em ocasiões como essa sempre aparecem os detratores de ocasião. Quase todos situados no espectro jacobino da esquerda mais radical, esses “republicanistas” que adoram detonar a Rainha esquecem-se de que a maior parte dos pecados da Coroa Britânica deu-se antes de ela assumir o cargo. E, como verdadeira “Rainha da Inglaterra”, ela pouco ou nada podia fazer para reverter qualquer erro que tivesse sobrado. Cabia-lhe, apenas, representar a reserva moral da Nação, mantendo a estabilidade de uma ilha com quase mil anos de história.

Pode parecer pouco ou trivial, mas a monarquia inglesa conseguiu manter coesa e unida uma nação que passou – na condição de protagonista – por duas guerras mundiais, uma guerra fria e mais uma dezena de conflitos “menores” que chegaram a dizimas países com décadas de existência, como a Iugoslávia. Para além dos exemplos óbvios do Nazismo e do Fascismo, quem estava nas ilhas britânicas assistiu a golpes militares em Portugal, Espanha, França e Grécia. Isso, ressalte-se, somente na Europa; e somente no século XX.

No meio de toda essa balbúrdia, somente os britânicos podem ostentar orgulhosamente o fato de nunca terem sofrido sequer a sombra de uma quartelada militar, muito menos de ter sua secular democracia colocada em xeque em meio ao horror que reinava à sua volta. E, se tudo isso aconteceu, pode ter certeza de que muito do crédito deve ser dado à Rainha Elizabeth II.

Houve, claro, atribulações menores, como a morte da Princesa Diana, que chegaram a abalar por determinado tempo a imagem que a Rainha cultivara perante seus súditos. Todavia, qualquer pessoa que conhecesse ambas as personagens ou que resolva as estudar a fundo saberá que não havia ali um confronto entre uma “santa” e uma “megera”, mas, sim, entre duas personagens cheias de contradições e incoerências que, por mal dos azares da vida, terminaram por se tornar antagônicas.

Com a morte de Elizabeth II, uma Era chega literalmente ao fim. Em um século que nos brindou com estadistas do quilate de um Winston Churchill ou de um Franklin Roosevelt, Elizabeth II era a última remanescente dos grandes estadistas do século passado. Ao lado de figuras como Nelson Mandela e Mikhail Gorbachev, ela marcou a história do seu tempo, do seu jeito, trabalhando até o último dia de sua vida e mantendo firme a monarquia como baluarte do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

Que ela, enfim, possa descansar em paz.

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