Trump x Biden, ou O que será da eleição norte-americana?

Não tinha como ser de outra forma.

Exatamente como foi previsto aqui, a eleição norte-americana no próximo dia 3 de novembro está mexendo com a paciência e os nervos de milhões de pessoas ao redor do globo. No papel de grande Roma dos tempos modernos, a eleição dos Estados Unidos é quase como a ascensão de um novo César, cuja liderança pode conduzir o mundo tanto numa direção como na outra.

Nos últimos quatro anos, o mundo pôde saber o tamanho do estrago que Donald Trump faz quando está sentado na cadeira de homem mais poderoso da Terra. Guerra comercial com a China, submissão inaudita aos interesses russos, negacionismo climático e científico a granel transformaram a vida de boa parte dos habitantes do planeta em um inferno particular. Com sobressaltos diários a cada “tuitada” sua, Trump fez o mundo prender a respiração mais que um par de vezes, inclusive ameaçando um confronto de proporções inimagináveis com o Irã. Parecia que ninguém jamais tivera um dia de paz na vida.

Tudo isso pode ser que tivesse algum relevo para o resto do mundo, mas para o eleitor norte-americano o que importava era a economia. E a economia americana, reconheça-se, ia muito bem até o começo deste ano. O que Trump não contava era com a pandemia de Covid-19. Com o lockdown, o fechamento de fronteiras e uma postura naturalmente receosa do consumidor comum, o mundo assistiu à mais rápida e violenta queda econômica de toda a sua história. Ao contrário de 2008 e mesmo de 1929, quando os sinais da débâcle foram se anunciando aos poucos e a coisa foi piorando gradativamente, no crash deste ano o mergulho foi quase imediato. As bolsas saíram de suas máximas e caíram para níveis de 10 anos atrás em pouco menos de um mês. Com isso, toda a popularidade que fazia de Trump o favorito à reeleição escafedeu-se. Resta, agora, saber o que esperar do pleito da próxima terça-feira.

Como se sabe, o sistema eleitoral norte-americano é um dos mais intrincados e controversos do mundo (para saber mais, clique aqui). Misturando sistema direto com indireto, cada estado faz uma eleição em separado e, no final, os delegados eleitos por esse sistema escolhem quem será o próximo presidente da República. Uma vez que o colégio eleitoral reúne 538 delegados, ganha a parada quem consegue angariar no mínimo 270 votos entre os diferentes estados da federação, pouco importando a quantidade de votos diretos recebidos da população.

Desde (quase) sempre, há estados que pendem mais para os democratas (Califórnia e Nova Iorque, por exemplo), enquanto outros tendem a votar com os republicanos (Oklahoma e Arkansas, por exemplo). A briga maior gira em torno dos chamados swing states, os estados nos quais não há uma maioria clara em favor de nenhum dos dois grandes partidos, e o voto tende a ser mais pendular.

Considerando-se os estados nos quais a briga é mais renhida, a coisa não parece boa para o lado de Donald Trump. Pelo contrário. Joe Biden, seu improvável contendedor nessa disputa, surge como franco favorito a fazer de Trump o primeiro presidente não reeleito desde George Bush pai, há quase 30 anos.

Biden lidera com folga em Michigan, Minnessota, Wisconsin e Nevada. Na Pensilvânia, sua vantagem nas últimas semanas tem se sustentado, com relativa estabilidade, ao redor dos 5%. Só os votos desses estados, somados àqueles que votam historicamente com os democratas, já bastariam para dar a maioria do colégio eleitoral a Biden.

Trump, por sua vez, encontra-se em situação periclitante. Além dos estados acima citados, ele está atrás de Biden – embora por margem menor – na Carolina do Norte, no Arizona, na Flórida, na Geórgia e em Iowa. O atual presidente só lidera, com margem estreitíssima, em Ohio. E até mesmo o Texas, que não vota com os democratas desde 1976, está sob ameaça, dado que a diferença no estado entre os dois candidatos não passa de 2%.

Para ganhar, portanto, Trump precisaria ganhar todos os estados nos quais lidera com pouca margem (o que é possível), levar todos os estados nos quais Biden lidera com pequena vantagem (o que é improvável) e ainda reverter algum estado – preferencialmente a Pensilvânia, que tem 20 votos no colégio eleitoral – no qual o candidato democrata esteja na frente além da margem de erro (o que é quase impossível).

Obviamente, o trauma de 2016 faz com que a maioria dos sites e analistas especializados evite cravar uma vitória de Joe Biden na próxima terça-feira. A surpreendente derrota de Hillary Clinton naquele pleito fez com que muita gente boa colocasse as barbas de molho e evitasse projetar cenários com maior precisão pelo simples medo de quebrar a cara depois. Mas, levando em consideração que estamos a menos de uma semana da eleição e que mais de 80 milhões de eleitores já votaram antecipadamente, o jogo, a este altura, parece já estar jogado.

Tudo, claro, pode acontecer. Inclusive uma possível judicialização do pleito, a envolver os votos enviados antecipadamente pelos Correios. É um cenário, aliás, com o qual muita gente joga, apostando que Trump dificilmente aceitará uma derrota eleitoral, tentando levar a presidência no tapetão da Suprema Corte norte-americana, tal qual Bush Jr. conseguiu contra Al Gore no ano 2000.

É improvável, no entanto, que o cenário caótico daquele pleito volte a se repetir. Muito menos que os justices da Suprema Corte venham a querer meter novamente o bedelho naquilo que é o centro de qualquer sistema democrático: a escolha do supremo mandatário da Nação. Uma coisa é decidir a parada quando a eleição fica enrolada em um único estado (Flórida), com o candidato “favorito” sempre tendo ficado à frente em todas as recontagens. Outra, bem diferente, é tentar mexer no resultado de vários estados simultaneamente, com o candidato “adversário” estando à frente em todos eles, como parece ser o cenário mais provável. Pode-se dizer tudo dos Estados Unidos, menos que sejam uma república de bananas.

Seja como for, o jogo é jogado e o lambari é pescado. Até terça-feira tudo pode acontecer (inclusive nada). Vale a pena ficar de olho, portanto, no resultado dessa eleição. Afinal, o que está em jogo não é somente o futuro dos Estados Unidos. É o futuro do mundo também.

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