Psiquiatria x Cérebro, ou Um novo modo de enxergar a psiqué

Saindo um pouco da mesmice aqui neste espaço, vamos retomar nesta semana uma das seções mais curtidas deste espaço: as tão maltratadas Ciências. E, para resgatá-la da poeira em grande estilo, vamos analisar um dos problemas mais angustiantes da modernidade: o cérebro.

Como todo mundo está careca de saber, o cérebro é – depois do bolso – o órgão mais importante e sensível do ser humano. É ele quem comanda as ações, quem dita o ritmo de jogo, quem faz, pinta e borda em toda e qualquer área daquilo que nós costumamos chamar de “eu”. Sem o cérebro, ou, pelo menos, sem um cérebro tão absurdamente desenvolvido quanto o nosso, o homo sapiens seria apenas um chimpanzé um pouco mais habilidoso.

Todavia, desde que Sigmund Freud revolucionou o estudo da mente humana através da psicanálise, a forma de abordagem dos transtornos mentais continuou mais ou menos o mesmo. As psicoterapias, seja através do método freudiano, seja através de outros métodos, desenvolvem-se a partir do pressuposto de que o objeto de seu estudo não é o cérebro, mas a “mente”. Há, claro, diferenças de nuance, como uma propensão maior a estudar fixações sexuais ou estudar o “inconsciente” para explicar eventuais transtornos de comportamento. Mesmo assim, o centro desse universo se concentra naquela entidade ectoplasmática e etérea que se projeta desde os neurônios e é responsável por fazer de cada ser humano um indivíduo único.

Evidentemente, parte disso pode ser creditado ao próprio fato de a psicologia e a psicanálise tentarem se afirmar como ciências. Afastando-se de aproximações mais óbvias, como com a biologia, os psicólogos e os psicanalistas conseguiram desenvolver uma metodologia própria e, com variados graus de sucesso, estabeleceram formas de estudar e resolver problemas de ordem mental. O problema, contudo, é que se essa autoafirmação parece ter afastado em demasia os cientistas da mente daquilo que, em princípio, também deveria ser seu objeto de estudo: o cérebro.

Sabendo disso, alguns cientistas resolveram fazer o caminho de volta. Após analisar mais de 80 mil imagens – em geral, de ressonância magnética -, esses pesquisadores chegaram a uma conclusão inquietante: a maior parte dos pacientes diagnosticados com algum tipo de transtorno mental não agiam assim por conta de algum trauma de infância ou porque assim eram impingidos por seu subconsciente. O problema era fundamentalmente mais simples: havia algum problema na estrutura do cérebro dessas pessoas, e era desse problema que resultava seus transtornos sociais.

Os exemplos são vários. Uma criança que sofrera uma queda na infância e batera a cabeça na escada apresentava um comportamento extremamente violento contra os semelhantes. O que poderia ser apenas mais um adolescente problemático “com raiva do mundo” na verdade não passava de alguém cujo cérebro havia sido lesionado por um trauma mecânico. Evidentemente, terapias de grupo e mesmo medicamentos não resolveriam o problema desse jovem. Quando muito, apenas o mitigariam.

O problema, portanto, pode ser resumido nesta constatação inquietante: os psiquiatras seriam os únicos profissionais de Medicina que jamais sequer dariam uma espiadinha no órgão que eles tratam. Ao contrário de cardiologistas, que cuidam do coração, ou dos oftalmologias, que cuidam dos olhos, os psiquiatras transitam numa pista na qual o objeto central de sua atenção é referenciado apenas como pressuposto daquilo que eles entendem ser o problema: a mente.

A conclusão é alarmante. Se esses estudos estiverem corretos, isso significa dizer que toda a ciência construída a partir da psiquiatria, inclusive e especialmente os medicamentos desenvolvidos para tratar os problemas por ela identificados, podem ser insuficientes ou mesmo inúteis para tratar as patologias da mente, ainda que o diagnóstico em princípio esteja correto.

Não se pode, é claro, dar por verdade o que, por enquanto, é apenas são estudos muito bem fundamentado. Mesmo assim, as direções que eles apontam indicam um caminho inteiramente diferente do que vem sendo trilhado até agora. E a pergunta que fica é: ficaremos presos a dogmas do passado, ou estaremos dispostos a reformular nossas teorias sobre a mente e a psiqué?

Abaixo, vai um vídeo com um resumo desses estudos (infelizmente, em inglês). Vale a pena gastar 15 minutos da sua vida para tentar pelo menos enxergar o problema da psiqué por outro prisma.

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