Recordar é viver: “A prisão de José Dirceu, ou O Brasil pós-PT”

Esse texto já fazia sentido à época. Agora, com a condenação do Lula, tornou-se ainda mais atual.

É o que você vai entender, lendo.

A prisão de José Dirceu, ou O Brasil pós-PT

Publicado originalmente em 5.8.15

A bola já estava cantada há tempos.

Depois que a Operação Lava-Jato detonou uma reação em cadeia sem precedentes de delações premiadas, era apenas uma questão até que o outrora todo-poderoso Chefe da Casa Civil do Governo Lula visitasse novamente o cárcere. Recebida com silêncio pelo PT, júbilo pela oposição e indiferença pelos demais, o retorno de José Dirceu à prisão traz consigo implicações muito maiores do que as manchetes estampadas nos jornais.

Em primeiro lugar, pode-se dar por encerrada a pantomima do famoso “caixa 2” de campanha. Se antes, durante o Mensalão, tudo não passava de “mero crime eleitoral” com vistas a fazer “tudo que os outros partidos historicamente sempre fizeram neste país” (Lula), agora o que se tem é corrupção em seu estado bruto: dinheiro sendo sorvido de obras estatais para enriquecer o bolso de alguns afortunados. Nem mais, nem menos do que isso.

Em segundo lugar, a prisão de Dirceu representa o fim da hipocrisia ideológica nas esquerdas. Tendo chegado ao poder montada no sonho de ser possível construir “um novo futuro”, diferente do atraso que permeou a vida nacional desde que Cabral aportou com suas caravelas, a esquerda limitou-se a entregar à população mais do mesmo. Todos os pecados eram sumariamente desqualificados sob o pretexto falho de que tudo valia, desde que fosse para “melhorar a vida do povo”. Agora, sabendo que o conceito de “povo” era restrito a quem partilhava o butim da roubalheira, o mote tornou-se apenas uma variação envernizada do lema de Adhemar de Barros: “Rouba, mas faz”.

Em terceiro e último lugar, a prisão de José Dirceu lança a pá de cal definitiva sobre as pretensões eleitorais do PT. Depois de quase uma década e meia mandando no país, o partido assiste impotente à desidratação lenta, gradual e constante de sua base eleitoral. Para quem representou por pelo menos 30 anos aquele terço do eleitorado geralmente mais identificado com o chamado “progressismo”, a débâcle generalizada do Governo Dilma não deixa de caracterizar um fim melancólico para um partido que se pretendeu hegemônico por quase duas décadas.

Dando-se de barato que chegou ao fim este país que transformou a seção política dos jornais em sublegenda da seção policial, resta saber o que será do Brasil depois que o PT realmente se for.

À primeira vista, não há nada a comemorar. Graças à radicalização do debate, hoje não há no Brasil nem alternativas políticas à direita, nem muito menos à esquerda. O bolo da direita encontra-se perdido numa massa disforme que engloba desde liberais conservadores com idéias do Oitocentos até pulhas que saem às ruas para defender uma intervenção militar que derrube Dilma Roussef. Do lado da esquerda, restam apenas os representantes do patrimonialismo empoleirados em cargos públicos, que ainda defendem cegamente o PT; e os militantes da esquerda juvenil, que ainda defendem coisas como o governo chavista e a ditadura do proletariado.

À segunda vista, também não se encontra qualquer motivo para celebrações. Uma das principais forças políticas do país caminha sem retorno para o precipício sem que haja algo para se colocar no seu lugar. Pode-se argumentar que muito do ojeriza que o PT hoje desperta na sociedade é culpa dele mesmo, mas país nenhum do mundo se constrói em cima do ódio. Se por muito tempo os petistas se valeram do discurso reducionista do “nós (o bem) contra eles (o mal)” para se manterem no poder, hoje o reducionismo apenas inverteu seu lado, com muita gente acreditando que “basta tirar o PT que o Brasil melhorará”.

À terceira vista, é no mínimo preocupante ver essas manifestações de ódio se sobreporem ao debate político racional. Episódios como a bomba ao Instituto Lula e a queima de fogos na chegada de José Dirceu à PF em nada contribuem para melhorar o ambiente democrático. Muito pelo contrário. Quem joga bomba é terrorista, e quem solta fogos diante da prisão de um semelhante é apenas um vingador solitário.

Em tempos como estes, não custa lembrar o voto do Ministro Cézar Peluso durante o julgamento da Ação Penal 470. Disse o Ministro na ocasião que “nada mais confrange um magistrado do que ter de condenar um réu em matéria penal”. Essa angústia só é mitigada pela certeza de que existe “uma misericórdia que pune (Santo Agostinho)”. No fundo, “condena-se por exigência de justiça” e, também,  “porque reverencia a lei, que é salvaguarda da sociedade em que vivemos”. Por isso mesmo, a condenação se dá “em respeito aos próprios réus, porque é um chamado a que se reconciliem com a sociedade”.

Ao fim e ao cabo, a verdade é que a democracia brasileira, tendo completado três décadas de vida, não passa ainda de uma adolescente inconsequente, que não sabe direito o que quer fazer da vida. Que as sábias palavras de Cézar Peluso possam orientar um Brasil menos raivoso, menos vingativo e um pouco mais elevado depois que o PT deixar o poder.

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