Brasil, país sem futuro

O ano era 1940.

Fugindo da guerra na Europa, Stefan Zweig saiu da Suécia e veio se exilar no Brasil. A distância do conflito e o encontro com um Brasil rural, certamente modesto, provavelmente utópico, onde as crianças pareciam se divertir “como se estivessem no “paraíso”, entusiasmou o recém-exilado. Com a ajuda de sua mulher, escreveu um ensaio: “Brasil, o país do futuro”. Dois anos depois, Zweig se suicidava.

É evidente que não há qualquer relação entre o infortúnio do escritor sueco e seu ensaio sobre o Brasil. Mas não deixa de ser irônico que o responsável por forjar a alcunha perfeita para o maior país da América do Sul tenha terminado sua vida de maneira tão trágica.

Desde sempre, o Brasil parecia fadado a cumprir a profecia nunca enunciada de ser um dia os “Estados Unidos do Sul”. Com imenso território, riquezas naturais inigualáveis e uma população jovem e trabalhadora, parecia apenas questão de tempo até que o Brasil alcançasse o estrelato.

O problema, contudo, é que a profecia sempre teimava em não se cumprir. Quando não era a Ditadura Vargas, era a Ditadura Militar ou a Nova República plagiando a Velha em matéria de roubo e descaramento. Sempre havia um porém que impedia o Brasil de entrar no seleto grupo de nações do primeiro escalão da ordem mundial. Tal qual um dilema lacaniano, o sucesso estava sempre lá, ao alcance da mão, mas algum fator supostamente exógeno fazia com que ele não fosse alcançado. E o brasileiro resignadamente se consolava: “um dia as coisas hão de melhorar”.

Hoje, porém, a resignação deu lugar ao retrato do fracasso.

Na sessão sobre a denúncia contra Michel Temer, a Câmara dos Deputados, por larga maioria, negou autorização para que o Supremo Tribunal Federal julgasse o caso. Não se tratava de dizer se Temer era ou não culpado, mas simplesmente de dar o OK para que o STF decidisse se a peça apresentada por Rodrigo Janot tinha pé e cabeça. Com a negativa dos deputados, a denúncia vai para o saco, e Temer só poderá vir a ser processado após o fim de seu mandato.

Em princípio, estando convencido sobre a própria inocência, interessaria ao próprio Temer remover essa espada sobre a sua cabeça. A julgar pela quantidade de emendas liberadas aos parlamentares e pelo empenho de seus ministros em impedir o processamento da denúncia, no entanto, é de se imaginar que o Presidente não estivesse assim tão seguro quanto à rejeição da denúncia pelo Supremo. Por isso, melhor se fiar nos aliados da Câmara do que jogar a sorte no plenário do STF.

Com o resultado da votação de hoje, o Brasil passa a conviver oficialmente com um Presidente da República denunciado por corrupção, mas que não será processado por isso até que ele deixe o Planalto. É dizer: seremos governados por um presidente acusado criminalmente, sem que se possa sequer saber se ele é culpado ou inocente. De todas as anomalias com as quais o país já conviveu, nenhuma é capaz de superar essa.

É evidente que Temer não sobreviveu somente porque soube cativar os congressistas, mas principalmente porque das ruas só se ouve o silêncio. As multidões que tomaram as principais capitais do país desde junho de 2013, passando pela crise de 2015 e a derrubada de Dilma em 2016, refluíram de tal maneira que hoje no Congresso havia apenas um único e solitário manifestante na Esplanada.

E o que isso significa?

Em primeiro lugar, significa que o brasileiro perdeu completamente a fé no sistema político. Os mais otimistas dirão que jamais se experimentou tanto tempo sob normalidade democrática, mas quando os números das pesquisas de opinião contrastam de maneira tão flagrante com a disposição para se mexer por mudanças, é sinal de que alguma coisa se quebrou no espírito do brasileiro.

Em segundo lugar, à descrença geral sucede-se um campo fértil para aparecimento de candidaturas messiânicas, do tipo “salvador da pátria”. Haverá quem diga que o mesmo país que destronou Fernando Collor não cometeria o mesmo erro duas vezes, mas a História ensina justamente o contrário. O brasileiro já enxergou a salvação em Vargas, nos Militares e no Caçador de Marajás. Em todos os casos, eles ascenderam o poder montados em amplo apoio popular. O “Messias” brasileiro, portanto, é um fenômeno recorrente: a cada quarto de século ele dá as caras.

Em terceiro lugar, o cenário de terra arrasada favorece radicalismos, tanto à esquerda quanto à direita. Os que estavam ao lado de Dilma, ressentidos com o “golpe”, aglutinam-se em torno de Lula numa estratégia sebastianista. Ele, que chegou ao poder numa plataforma “paz e amor”, tenderá a radicalizar o discurso, tanto por conta dos processos judiciais que lhe perseguem, como por conta da necessidade de atrair os votos da esquerda ideológica, desiludida desde há muito com o PT. No outro extremo, Jair Bolsonaro promete recuperar a honestidade e os “valores cristãos” perdidos numa Brasília imersa em corrupção.

Na verdade, a votação de hoje lança o Brasil em um cenário de incertezas difícil de ser digerido. Diante de um governo impopular e com um passivo judicial que a Câmara negou-se a resolver, há o sério risco de que as eleições de 2018 descambem para uma batalha campal sem precedentes, tornando plausível a hipótese de uma nova ruptura da ordem democrática.

A verdade – é triste reconhecer – é que o Brasil parece destinado a jamais cumprir o destino de se tornar uma nação desenvolvida. Como uma patologia congênita, o Brasil está arriscado a repetir os mesmos erros que cometeu em 1937, 1964 e 1989. Resta só saber qual será o nome do “Novo Messias” que “salvará” o país de si mesmo. Vivo, Zweig reescreveria seu ensaio. O título agora seria:

“Brasil, país sem futuro”.

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