Recordar é viver: “A tragédia de Sarriá”

Como na última quarta completaram-se 35 anos daquele fatídico jogo entre Brasil e Itália, vamos recordar o post escrito sobre a tragédia.

Porque lamentar é preciso…

A tragédia de Sarriá

Publicado originalmente em 20.4.11

Certa vez, foi feita uma pesquisa sobre quais jogos da seleção brasileira foram os mais emocionantes da história.

Em primeiro lugar, como esperado, ganhou a final de 1970, por conta da maior seleção de todos os tempos. Pra surpresa geral, o segundo lugar não foi de uma vitória, mas de uma derrota. Talvez a derrota mais sofrida de uma seleção brasileira de futebol desde que Gighia fez o segundo gol do Uruguai na final de 1950. Trata-se do jogo Brasil 2 x Itália 3, nas quartas-de-final da Copa da Espanha, em 1982. Um jogo que entraria para a história como a Tragédia de Sarriá.

Sarriá é um bairro em Barcelona. Na época, um dos estádios da cidade ficava lá. Um estádio pequeno, acanhado, quase um campo paraguaio. Do outro lado da cidade ficava o imenso e belíssimo Camp Nou, do time local. Não alcanço a razão de terem escolhido um em vez do outro para sediar os jogos da copa que ocorreriam na capital catalã.

Enfim…

O Brasil tinha um timaço. A zaga tinha bons jogadores, como Luisinho e Junior. O ataque pode ser que não fosse inteiramente mal (Éder e o tosco Serginho Chulapa). Mas o meio-de-campo era de assombrar qualquer adversário: Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo. Todos excepcionais, todos no auge da forma. Um verdadeiro quadrado mágico, como gostava de dizer Telê Santana, técnico do escrete canarinho.

Tudo bem. O time não era perfeito. O goleiro era frágil (Valdir Péres), e a maior parte dos gols saía dos meio-campistas, ou seja, Zico, Sócrates e Falcão. Os atacantes eram um tanto inoperantes. Telê Santana, teimoso como só ele, insistia em deixar Roberto Dinamite no banco, quando um trombador sem qualquer categoria como Serginho Chulapa carregava a camisa nova da amarelinha. Além disso, o time jogava sem ponta direita, uma heresia para os comentaristas da época. No entanto, pelo esquema armado por Telê, sempre haveria um jogador de meio-campo a ocupar o espaço. Era na movimentação e no toque rápido e preciso de bola que estava o segredo do sucesso do time.

A seleção não vinha bem das eliminatórias. Começou a copa mal, ganhando roubado do time mais injustiçado pelas arbitragens da história das Copas: a União Soviética. Apesar disso, dois golaços, um de Sócrates e outro de Éder (após um corta-luz sensacional de Falcão), decretaram a vitória brasileira por 2×1 na estréia.

A partir do segundo jogo, o que se viu foi uma máquina de jogar bola. 4×1 na Escócia e 4×0 na Nova Zelândia. O Brasil não só ganhava como dava espetáculo. Dizia-se que a magia do futebol brasileiro, perdida após 1970, havia retornado triunfalmente. Era apenas uma questão de cumprir tabela para que mais uma geração de ouro do futebol brasileiro fosse consagrada em uma copa do mundo. O tetra estava na mão.

Naquele tempo, as quartas-de-final eram jogadas em grupos. Formavam-se quatro, de 3 times cada. Por azar, e pela incompetência de Argentina e Itália, que chegaram às quartas com as calças nas mãos, o Brasil ficou num grupo forte, com dois bicampeões mundiais.

No primeiro jogo, um show. 3×1 na Argentina, que era a atual campeã do mundo (ganhara em casa, roubado, em 1978), com direito a expulsão do ainda imberbe Maradona. Àquela altura, a Itália já vencera o primeiro jogo contra a Argentina, por 2×1. Com o resultado do jogo do Brasil, a Argentina já estava eliminada. Brasil e Itália disputariam em confronto direto quem seguiria às semifinais. Por conta do maior saldo de gols, o Brasil jogaria pelo empate.

A Itália, que vencera apenas o jogo contra a Argentina, classificou-se às quartas na bacia das almas. Empatara os três jogos. Seu principal artilheiro – Paolo Rossi – não balançara as redes nem sequer uma vez. Ninguém poderia acreditar que esse time capenga pudesse parar o dínamo brasileiro. Mal sabiam eles o que estava por vir.

No dia 5 de julho de 1982, numa tarde quente e ensolarada de Barcelona, o jogo começou. O técnico italiano pusera um jogador (Gentile) especificamente para marcar Zico. Sua tarefa era não o deixar produzir nada. O Brasil começou na dele.

Subitamente, um cruzamento da esquerda e um Paolo Rossi aparecendo do nada como um raio no meio da defesa brasileira. O placar marcava 1×0 pra Itália. Foi um choque.

Mas o Brasil não abaixou a cabeça. Foi à luta. Zico, sempre genial, entortou Gentile com um drible de corpo e passou a bola para Sócrates. O Doutor entrou na área justamente naquele espaço que deveria ser ocupado pelo ponta-direita. Com precisão cirúrgica, pôs a redonda entre a perna de Zoffi e a trave, num lugar em que o capitão italiano jamais esperaria que a bola entrasse. 1×1. O país respiraria aliviado.

Por pouco tempo.

Numa bobeira incrível da zaga, Cerezo resolveu inverter a bola em frente à grande área, algo que todo moleque de infantil aprende que não se deve fazer. Edinho e Junior ficaram naquela “deixa-que-eu-deixo”. Paolo Rossi não fez por menos. Tomou a bola e, sozinho, disparou contra a meta de Valdir Péres. 2×1. Novamente estávamos atrás no placar.

O tempo passou e o primeiro tempo se foi. O Brasil, apreensivo, continuava atrás no placar.

Veio o segundo tempo. O relógio seguia sua marcha cruel e o placar não mudava.

Então, os outros dois integrantes do quarteto mágico apareceram. Falcão recebeu a bola em frente a área. Três jogadores italianos o marcavam. Cerezo passou por trás de Falcão, indo pelo espaço do ponta-direita, fazendo com que os marcadores pensassem que se deslocava para receber a bola. Todos três viraram para Cerezo.

Ao perceber isso, Falcão puxou a bola para a perna esquerda e, sem dó, fuzilou Zoffi. Saiu correndo, gritando, com as veias saltando dos braços, numa foto que entraria para a história. Era como se todo o Brasil gritasse com ele: “Empatamos! Estamos salvos!”

Não estávamos.

Pouco tempo depois, depois de um escanteio e outro bobeada da zaga, a Itália faria o terceiro gol. De novo, Paolo Rossi. Tínhamos que empatar novamente.

O Brasil tentou. Correu. Chutou. E nada. A Itália ainda teve mais um gol anulado. O desespero passou a tomar conta de todos.

No último minuto, uma falta. O time inteiro na área. Depois do cruzamento, Oscar cabeceou para o chão, como se deve fazer. Zoffi, um goleiro com quase 40 anos, pulou com um gato. Pegou a bola em cima da linha. Ninguém conseguia acreditar no que se passava. Ao chutar a bola pra frente, o juiz apontou o centro de campo. Era o fim do sonho do tetra naquele ano. O Brasil inteiro caiu no choro.

Nunca depois o Brasil presenciou, em uma Copa do Mundo, uma geração tão genial que jogasse tão bem e encantasse o público. Para o mal do futebol, ganhara o estilo retranqueiro da Itália. O jogo de toque de bola envolvente e vistoso apresentado pelo time da Telê Santana carregaria pra sempre a pecha de “time perdedor”. Dali por diante, todo técnico retranqueiro perguntaria ao ser questionado: “Você prefere jogar bonito e perder, ou jogar feio e ganhar?”, como se uma coisa implicasse a outra diretamente.

Não por acaso, Dunga nunca se conformou pelo fato de o Brasil lembrar com mais carinho do time de 1982 do que o time de 1994, campeão do mundo. Ele nunca pôde entender que, para a maioria da torcida, mais vale um sonho voando do que dois títulos na mão.

Abaixo, um compacto com os gols da partida, pra quem ainda não viu. Para ver e chorar.

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