Conversa de liso

Ascender socialmente é um desafio, ninguém duvida. Especialmente numa sociedade capitalista, o sucesso do cidadão está quase diretamente ligado ao tamanho do seu bolso, ou, de forma mais direta, de quanto dinheiro ele carrega. Se para os alpinistas sociais o significado de “ascensão social” está quase sempre ligado a um carro novo (de preferência importado), nas altas paneladas do high society a coisa muda de figura. Quando não é a casa nova em Miami, é a lancha de 42 pés no balneário ou a ilha em Angra. O princípio continua o mesmo (quanto mais, melhor), mas o nível da boçalidade eleva-se consideravelmente.

Certa vez, os ricos encontraram-se numa ocasião social. O pretexto era mais uma dessas feiras de novos jatos de luxo lançados por empresas de aviação. A maioria vai de gaiato no navio, pois nem tem bolso nem disposição para comprar os mimos. E, embora haja uma certa etiqueta a ditar as regras de quando se escala um degrau na pirâmide social, nem todo mundo é afeito a ela.

Um desses sujeitos resolveu se entrosar com a galera. Depois de ganhar muito dinheiro no ramo da troca de escapamentos, finalmente ele avistara a chance para o seu début como nouveau riche. Chegando no campo de pousos montado numa BMW estalando de nova, o cidadão achava que adquirira seu passaporte para o mundo dos super-ricos. Era apenas questão de apresentar-se, fazer-se conhecido e deixar claro que ele podia.

Sem conhecer ninguém na feira, de longe o sujeito avistou um ex-colega de faculdade. Rico, da espécie cujo dinheiro vem desde o 40º antepassado, o ex-colega flanava entre os comensais como um tubarão em um grande aquário: imponente, majestoso, desfilando seu Armani como se fosse o próprio Cary Grant. Pisar o chão, então, nem pensar. Seria uma deselegância com o Salvatore Ferragamo que lhe vestia os pés.

Subitamente, achega-se o novo-rico:

“Olá, Fulano, tudo bem? Sou eu, o Cicrano”.

Com um ar oscilando entre a surpresa e o enfado, o super-rico responde:

“Olá, Cicrano. O que você faz por aqui?”

“Sabe o que é? Eu estou muito bem de vida agora. Montei uma rede de troca de escapamentos e estou ganhando muito dinheiro. Estou pensando até em comprar um desses jatinhos pra expandir os meus negócios”, explicou o sujeito.

“E por que você não compra logo?”, indagou o super-rico.

“Porque eu estou com dúvidas em relação ao gasto. Eu tenho dinheiro pra comprar um avião, mas queria saber quando gastaria para mantê-lo. Você, que já tem um, saberia me dizer quanto custaria a manutenção de um desses?”, perguntou ingenuamente o novo-rico.

“Se você precisa fazer essa pergunta, então você não pode ter um”, encerrou elegantemente o amigo.

E o sujeito, amuado, enfiou-se de volta na sua BMW e nunca mais voltou a pensar em comprar um avião.

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